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Por Isabela de Sousa.

Após muitos anos e três álbuns lançados à frente da banda capixaba Solana, Juliano Gauche mergulhou mais fundo num universo próprio à procura de si mesmo e de mil e um significados em seu álbum solo de estreia, o homônimo Juliano Gauche, de 2013. Àquela altura, Gauche estava de mudança do Espírito Santo para São Paulo, com novos ares, novos amigos e novas ideias na cabeça. Em fevereiro de 2016, o cantor e compositor de longa data lançou o seu segundo álbum solo, Nas Estâncias de Dzyan (EAEO Records), que tem o autoconhecimento como base criativa.



O título é uma alusão ao livro "A Doutrina Secreta" (1888), da escritora esotérica Helena Blavatsky, que fala sobre pergaminhos tibetanos com registros da evolução da humanidade. A capa é mais solar que a anterior: se no primeiro álbum Juliano aparecia numa capa escura, em preto e branco, nesta aparecem elementos de uma Placa Pioneer (ilustrações feitas nas naves Pioneer que teoricamente seriam entendidas por extra-terrestres). No primeiro álbum, havia a quase-marcha-fúnebre debochada “Como a Falta de Ar”; no segundo álbum, há o peso de “Animal” e a leveza de “Alegre-se”.

O New Yeah aproveitou a passagem de Juliano pelo Rio de Janeiro para saber mais detalhes e curiosidades sobre o artista e sobre o seu último lançamento.

Como a música apareceu na sua vida?

Minha memória musical mais antiga é a de ouvir música no fusca do meu pai. Dentre as coisas que ele ouvia, as que mais me pegavam eram as canções antigas: The Platters, Elvis, Johnny Rivers, Creedence, Roberto Carlos etc. Quando eu ouvia coisas assim, minha cabeça ia longe. Aquilo parecia coisa de outro mundo. Eu ficava fascinado.

Quais as diferenças entre Espírito Santo/São Paulo e sua ex-banda/carreira solo? A mudança geográfica teve alguma influência nas suas composições?

São Paulo me trouxe o excesso: muita informação, muitas experiências diferentes; a forma como a cidade conduz seus exageros me ensinou muito sobre equilíbrio. Isto acelerou o meu amadurecimento. No Espírito Santo, enquanto eu fazia parte do Solana, eu ainda me sentia confuso e inseguro. Estava sempre sonhando com alguma coisa que o futuro traria. Agora me sinto completo. Como se eu estivesse no lugar certo, na hora certa. Esta segurança está nas composições.

"A forma como São Paulo conduz seus exageros me ensinou muito sobre equilíbrio".

Percebe-se que há muitas referências além-música no seu repertório e as suas músicas geram muita atenção pelo lirismo nas letras. Há um quê de literatura aí? A propósito, o seu sobrenome é Gauche mesmo ou é uma referência a Drummond?

O Gauche veio do que significa ser gauche mesmo. É para que eu sempre me lembre do lado que escolhi. A literatura é a grande mãe da criação. Acho difícil um artista que queira criar alguma coisa sem ter alguma base na literatura. Acho que sou muito mais movido por poetas do que por cantores. Fernando Pessoa, Rimbaud, Baudelaire, Rubem Braga, Walt Whitman... eu não seria o mesmo se não tivesse passado por eles. Até mesmo no mundo da música, sempre respeitei mais os compositores que tinham um pé na poesia.

E por que Nas Estâncias de Dzyan como título do segundo disco?

Um dos primeiros livros que li foi o Poesias Ocultistas, do Fernando Pessoa. Essas coisas sobre o que separa a vida da morte, o tempo da eternidade, o físico do metafísico, eu acho muito instigantes. Estou sempre lendo a respeito dessas coisas. Acho saudável. O que estão fazendo em cima da Bíblia, que particularmente acho um livro lindo, é um desserviço à nossa sociedade. A institucionalização de qualquer filosofia cria um comportamento burro. E os reflexos são essas correntes de ódio com base em fundamentos vazios. Dzyan tem a ver com autoconhecimento, meditação, introspecção... essas coisas que acho bem mais saudáveis do que ser um cego fiel a regras obscuras. E vem do trabalho de uma mulher que teve uma história incrível, a Helena Blavatsky, que bem que merecia ser resgatada neste momento tão importante para o feminismo. O título do disco é um convite a estes temas.

Assim como no álbum anterior, este também tem nove faixas, contendo uma de um compositor diferente. É um formato que te agrada ou foi mera coincidência?

Essas coisas não são tão simples. Eu até pensei em fazer um disco com sete faixas. Até me arrependo um pouco de não ter feito assim. Ficaria mais esquisito, mais direto e original. Mas também poderia ter soado pretensioso. Acabei optando por este formato que se aproximou muito do primeiro disco. Embora o Dzyan pareça a continuação do primeiro trabalho, há uma mudança significativa no meu ponto de vista em relação à vida. Neste disco novo, há menos medo e mais contemplação. Isto está nos arranjos também. Há uma diferença na eletricidade das músicas. Até o ritmo está mais pulsante e hipnótico. Acho que no primeiro disco eu cambaleava na beira do abismo; no Dzyan eu já danço numa perna só.

Como foi esse encontro com a cena de novos artistas paulistanos? Você repete a parceria com Tatá Aeroplano neste disco. Como tem sido essa troca?

Minha ligação com estes artistas novos de São Paulo passa diretamente pelo Tatá Aeroplano. Ele que me apresentou essa turma. Eu sou muito tímido, fechado. Se não fosse por ele eu continuaria na minha. Agradeço muito a ele por isso. Pacientemente ele foi me conduzindo a caminhos novos. Me apresentou o Júpiter Maçã, por exemplo, que se tornou uma grande referência pra mim. E continua me aconselhando como um irmão mais velho. É um grande privilégio ter o Tatá por perto. Não sei qual a minha parte nessa troca. Deve ter alguma coisa, pois nossa amizade já vai pra mais de cinco anos. Mas isso só ele poderia dizer.

Discografia Básica
Por Rod Mello*

Quando o pessoal do blog pediu que eu listasse cinco álbuns importantes para a comunidade LGBT, minha cabeça começou a fervilhar, pois a questão musical é extremamente importante na "cultura gay" de maneira geral, tanto para lésbicas quanto para gays, trans, drags, transformistas ou qualquer outra divisão neste universo incrível e diverso. Como o próprio universo gay é muito diverso, a questão musical sobre ele também é. Então, pensei que seria meio impossível resumir tudo em cinco álbuns, mas, como era essa a regra da matéria, resolvi ir peneirando e pegando como referência a minha vivência e o que me influenciou de alguma forma.


Secos e Molhados (Secos e Molhados, 1973)

Quando eu era criança, escutava e ficava morrendo de vontade de sair dançando "Homem com H" do gênio Ney Matogrosso. Eu era criança e ouvia as pessoas dizerem que o Ney era gay, mas eu não sabia o que isso significava. Na escola, se você fosse afeminado, era chamado de Ney Matogrosso pelas outras crianças. Anos depois, fiquei sabendo que o cara de "Homem com H" havia surgido no grupo Secos e Molhados, que simplesmente revolucionou a música no Brasil em 1973 com o seu álbum de estreia .

O que o grupo fez foi incrível e corajoso, ainda mais se lembrarmos que tudo foi feito no auge da ditadura militar. No palco, as apresentações ousadas, acrescidas de figurino e maquiagem extravagantes, fizeram a banda ganhar imensa notoriedade e reconhecimento. No disco, canções como "O Vira", "Sangue Latino", "Assim Assado" e "Rosa de Hiroshima" misturavam danças e canções do folclore popular com a poesia de Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade, Fernando Pessoa e João Apolinário, mesclando tudo isso a um discurso de crítica ao regime militar. Acredito que o álbum Secos e Molhados deve ser lembrado e cultuado como um álbum que explorou a diversidade em vários aspectos: tanto musical, quanto sexual e de gênero numa época em que não se falava muito sobre o assunto.


The Immaculate Collection (Madonna, 1990)

Pulando da década de 70 para os anos 90 - quando eu comecei a perceber mais a música e descobrir as coisas de maneira mais concreta -, não temos como falar em cultura LGBT sem pensarmos na rainha Madonna.

Meu primeiro contato com ela foi pela coletânea The Immaculate Collection, que trazia músicas e sucessos dela lançados entre 1983 e 1990. Podemos falar de várias canções desta coletânea, que talvez tenha sido a mais vendida da história, mas só por "Vogue" e "Justify My Love" já podemos ter noção do que ela representou. “Vogue” trazia em seu título o nome da dança também conhecida como voguing, popularizada na década anterior em clubes gays dos grandes centros norte-americanos. A dança ficou ainda mais conhecida depois da citação da Madonna e acabou influenciando a cultura gay em todo o mundo. Inclusive, segue influenciando até hoje!

"Justify My Love" virou um hino. Seu clipe, que até chegou a ser censurado, mostra lésbicas, gays, travestis, andróginos e até a própria Madonna beijando outra mulher. Lembro que era viciante escutar as músicas e assistir aos clipes relacionados a esta coletânea. The Immaculate Collection influenciou muitos gays e drags. Saber a coreografia das músicas era regra nas festas!


Diva (Annie Lennox, 1992)

A cultura musical LGBT é diversificada nas suas preferências e nos seus estilos. Para mim, particularmente, algumas das maiores referências musicais e visuais estão em Annie Lennox. Ela estourou com o lendário Eurythmics nos anos 80 (quem aí nunca cantarolou "Sweet Dreams"?) e depois do término da dupla, em 1991, Annie lançou-se em carreira solo com o álbum Diva. Simplesmente incrível! O trabalho traz uma atmosfera transformista e andrógina, além da mesma voz incrível que a cantora já havia mostrado na década anterior.

O álbum foi lançado em 1992 e foi aclamado por crítica e público, tendo vendido 15 milhões de cópias mundialmente, sendo 2 milhões só nos Estados Unidos e 1,2 milhões no Reino Unido. A revista Q Magazine colocou o disco na lista dos 50 melhores álbuns de 1992.

Conheci a Annie Lennox através deste álbum e só depois descobri o seu trabalho com o Eurythmics. Fiquei tão fascinado por ela que fui pesquisar e me apaixonei! Com certeza ela é uma referência, tanto para a cultura LGBT quanto para quem curte uma música pop mais inteligente. E não posso deixar de revelar que o videoclipe de "Why", extraído deste álbum, foi uma referência para o meu último clipe, "LoveLoveLove".


World Clique (Deee-Lite, 1990)

Em 1996, eu conheci o movimento clubber e me conectei naturalmente a ele! Meus amigos e eu adorávamos nos produzir e ir aos clubes para enlouquecer com o dance music e a house music da época. Naquele momento, acontecia um boom destes estilos nas festas. Foi aí que eu conheci o Deee-Lite. Talvez você não lembre pelo nome, mas provavelmente já dançou o maior hit deles, "Groove Is In The Heart"! Detalhe: eles tinham lançado essa música em 1990 e a faixa já havia feito sucesso em outros países muito antes de eu conhecer (não me culpem, porque as coisas naquela época demoravam um pouco pra estourarem por aqui). Lá em 1990, eles haviam lançado o primeiro álbum da banda, World Clique, com participações de Bootsy Collins, Q-Tip, Fred Wesley e Maceo Parker. O sucesso inicial do álbum ocorreu no Reino Unido, onde teve pico na décima quarta posição ainda no ano de lançamento. Simultaneamente, na Billboard Hot 200, o álbum estreou na centésima quinta posição, pulando para a vigésima posição após o sucesso de "Groove Is In The Heart".

Esse trio incrível e colorido formado por um japonês, um russo e uma americana marcou muito a minha adolescência gay e a de muitas outras pessoas! Eles arrasavam não só na questão visual (a vocalista Lady Miss Kier serviu de referência visual para muitas drags!) mais também no som. Tinham um vocal maravilhoso e trabalhavam com sonoridades que misturavam house, disco, funk e pop de forma fantástica! Vira e mexe eu ainda toco Deee-Lite nos meus sets como DJ e escuto em casa também!


Born This Way (Lady Gaga, 2011)

Pra encerrar a matéria sobre os cinco álbuns importantes para o meio LGBT, queria dizer que poderia citar muitos artistas incríveis como Bowie, Cazuza, Cassia Eller, Queen, Boy George, Moby, Michael Jackson e Cindy Lauper. Tem também a Björk, que me influenciou muito, tanto por ser uma artista visual e conceitual como também por ser uma cantora incrível e inovadora. Mas resolvi misturar bem os estilos e colocar aqui álbuns diferentes e que de alguma forma influenciaram os gays tanto musicalmente como no seu comportamento. Procurei colocar álbuns importantes que fizeram parte da minha vida, na minha observação de comportamento de um público e também na vida noturna, que é muito importante no meio LGBT. Com isso eu não posso deixar de falar sobre um fenômeno mais recente, que foi a Lady Gaga.

Tem gente que ama e tem gente que não gosta, mas o talento dela é inegável e a sua influência no comportamento de jovens desde o começo de 2008, mais ou menos, é gigantesco! Acho que as pessoas começaram a perceber ela como uma artista completa a partir do álbum Born This Way. Ele foi o segundo álbum de estúdio gravado pela cantora, compositora e produtora musical.

Born This Way incorpora uma vasta gama de elementos de vários gêneros musicais, inclusive da música clássica, do heavy metal, do disco e do rock and roll, fundindo tudo com sons de electropop e dance. O trabalho também é fortemente inspirado pelo synthpop e pela música eletrônica das décadas de 80 e 90. Neste álbum, Gaga teve mais controle sobre a direção musical e as composições. E foi quando isso aconteceu que a sua relação com a comunidade LGBT ficou muito maior do que já era. Quem sabe sobre a cantora conhece seus fãs ardorosos, os "Little Monsters", como são conhecidos por se vestirem com produções trazidas à tona por Gaga nesta época. Além de usar como influências alguns dos artistas que já citei acima, este álbum é importantíssimo pra uma geração gay que já não tinha grandes e diferentes referências artísticas em um mundo pop já meio saturado das mesmas fórmulas.



* Rod Mello é DJ, músico, produtor, compositor, performer e mente criativa por trás do Madblush, projeto musical premiado no Gay Music Chart Awards.
Aconteceu
O ser humano tem uma capacidade incrível de se acostumar com uma informação quando ela lhe é repetida muitas vezes. Por isso, quem hoje vê aquele cidadão gesticulando em libras antes do início de programas aparentemente normais na TV aberta mal imagina o barulho que a classificação indicativa gerou quando partiu para cima da música pop nos Estados Unidos. Tudo começou quando um grupo de mulheres importantes do país, preocupado com os "valores da família cristã", peitou 30 grandes gravadoras norte-americanas e fez com que o governo sinalizasse todos os álbuns que trouxessem qualquer tipo de baixaria que fosse nociva às crianças da América. Fruto de uma época em que a crescente liberdade de expressão dificultava o controle do que chegava aos ouvidos e olhos da massa, o selo Parental Advisory completou 30 anos em 2015.



Embora os noticiários atuais nos ajudem a ligar a imagem dos Estados Unidos a assuntos como o petróleo e a facilidade para adquirir armas e matar geral, durante muito tempo os país de Barack Obama foi conhecido por sediar uma das maiores comunidades católicas do mundo. Com 25% de sua população dedicada ao culto desta religião, o país moldou uma boa parte de suas leis aos princípios do cristianismo, e a moral católica, quadrada como em qualquer parte do mundo, foi adotada como moral nacional desde os primeiros passos da nação. Impressionantemente, essa moral católica e o show business conviveram em harmonia até a chegada dos anos 80. Nessa década, no entanto, a sexualização da música pop, a partir de personagens como Prince, Madonna e AC/DC, acabou causando um atrito que movimentou a opinião pública.

O ponto de partida de toda a discussão foi justamente uma canção de Prince: "Darling Nikki", que ganhou o país como trilha sonora do filme blockbuster Purple Rain (1984).

Nos Estado Unidos dos anos 80, era muito comum que as crianças consumissem os produtos midiáticos de maior sucesso entre o público adulto. O grande azar de Prince foi que o imenso sucesso de sua música acabou fazendo com que a faixa chegasse aos ouvidos de UMA criança específica: em 1984, a canção sexualmente nonsense do versátil astro pop atingiu os ouvidos da pequena Karenna Gore, filha do então senador Al Gore e da engajada Mary "Tipper" Gore, que já se organizava em atitudes de cunho social com outras mulheres de peso em Washington. A partir do constrangimento de sua filha ao ouvir a cabulosa letra de Prince, Tipper Gore fundaria o polêmico Parents Music Resource Center, um grupo de mulheres da alta sociedade que teria como principal missão moralizar a música pop que havia se transformado em um antro de perdição sem precedentes.



OS GORE, UMA FAMÍLIA INCONVENIENTE, NO INÍCIO DOS ANOS 80: matriarca típica da família tradicional norte-americana, a esposa do senador compraria uma briga com o mundo pop em prol dos bons costumes.
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O grupo de mulheres cristãs rapidamente passou a exercer pressão sobre gravadoras, lojas de discos e emissoras de TV, tentando, inicialmente, proibir a veiculação e a comercialização de produtos cujo conteúdo pudesse (nas palavras da própria Tipper Gore) "infectar a juventude do mundo". Vendo que a missão era muito ousada e implicaria em bater de frente com os lucros da então imponente indústria fonográfica, a trupe de Tipper Gore deu um passo atrás e sugeriu ao Senado a criação de um selo que ajudasse lojistas e pais a identificarem o conteúdo desaforado nas prateleiras. A proposta já havia sido feita anteriormente pela Associação de Pais e Mestres dos Estados Unidos, mas somente foi levada a sério quando ganhou a mídia na voz da high society norte-americana.

O desejo de Tipper Gore foi da proibição à sinalização, mas a investida mais branda ainda assim gerou mal estar na classe artística. Dee Snider, vocalista do Twisted Sisters, chegou a comparecer ao Senado, onde realizou um discurso histórico em defesa da liberdade de expressão e do heavy metal. John Denver e Frank Zappa tomariam atitude semelhante em episódio que depois seria retratado no filme "Warning: Parental Advisory", de 2002. Tudo em vão. A discussão parecia mesmo uma arena que envolveria somente executivos e forças políticas. E o acordo não tardaria a acontecer.

O POP CONTRA O SENADO: Dee Snider e seu discurso histórico no Senado norte-americano - "O sadomasoquismo e o estupro de minha música estão na cabeça da Sra. Gore".
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O primeiro selo de alerta aos pais, criado em 1985: a preocupação das famílias católicas só se transformaria em símbolo cool a partir do redesenho em 1990.

As gravadoras tentaram bater o pé, mas logo cederam à pressão feita pelas esposas de senadores, mulheres de ministros e damas do empresariado norte-americano. Tratativas entre as partes dariam origem ao selo "Warning" (imagem ao lado), que evoluiria para um "Parental Advisory", aplicado pela primeira vez sobre o disco de estreia do grupo Danzig (1988) - alardeado pelos moralistas por conta da palavra "whore" (prostituição) na faixa "Possession". As aplicações cada vez mais sem sentido do selo viriam a banalizar o seu uso ainda na primeira metade da década de 90. Simultaneamente, o visual e a mensagem iam ficando cada vez mais comerciais e elegantes. Em 1990, finalmente, o selo ganharia aquele visual famoso que perdura até hoje.

Quando as aparições do Parental Advisory se tornaram frequentes, toda a disputa migrou para o campo da hipocrisia e do jogo político barato. A então rede Wal-Mart, por exemplo, após uma profunda pesquisa de mercado, começou a tirar de suas prateleiras qualquer lançamento que trouxesse o selo no encarte, de olho em uma possível boa popularidade que justificasse o seu posicionamento de "varejo da família". As gravadoras, por sua vez, viram a distribuição do selo sem maiores preocupações, já que, em longo prazo, isso em nada afetaria o fluxo de vendas dos seus grandes artistas. Muito pelo contrário: com o tempo, possuir um Parental Advisory no encarte passou a ser tão sexy que grupos ligados à cena alternativa passaram a adquirir o alerta de forma proposital, transformando a preocupação das famílias católicas em um símbolo da rebeldia noventista que apareceria em discos de bandas badaladas como Nirvana, Blink 182, Green Day, Cypress HillSoundgarden.

A adesivação de grandes nomes da música noventista logo reverteria o Parental Advisory em um selo cool, amplamente utilizado pela indústria fonográfica para identificar os seus artistas mais despojados e, como consequência disso, reaproveitado pela indústria da moda como forma de contrariar os paradigmas mais conservadores. 



BEYONCÉ E JAY Z: nem a maior diva pop do mundo resistiu à tentação de ostentar o "Selo Tipper Gore".
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30 anos depois, o legado do Parental Advisory é muito mais estético do que moral. Em 2002, o colunista da MTV Jon Wiederhorn escreveu em sua coluna que o selo na verdade foi responsável por atrair os jovens mais desaforados, e que isso explicava o grande sucesso dos álbuns adesivados pelo PMRC. Estudiosos de cultura pop também questionariam por muito tempo a validade de um selo com intenções de censura em um tempo de indefinição midiática, onde a juventude possuía multi-meios para consumir música e era praticamente apaixonada pela sexualidade da MTV, que antecederia ainda uma era de conteúdo livre com a internet popular cada vez mais presente.

Passado o barulho político, neutralizados os oportunistas que fizeram da arte um campo de interesses mil, restou ao Parental Advisory a benção pop, que, como diria Humberto Gessinger, não poupa ninguém.

Na lista negra da high society

Horrorizada pela letra de "Darling Nikki", Tipper Gore reuniu-se com as outras "esposas de Washington" e montou, ainda em 1984, uma lista de 15 sucessos pops que não poderiam conviver com as crianças da América. A lista foi publicada em 1985 e serviu como base para as principais ações do Parents Music Resource Center. A relação é encabeçada, claro, pela música que horrorizou a filha do senador.

ArtistaTítulo da CançãoConteúdo das Letras
1Prince"Darling Nikki"Sexo / masturbação
2Sheena Easton"Sugar Walls"Sexo
3Judas Priest"Eat Me Alive"Sexo
4Vanity"Strap on Robbie Baby"Sexo
5Mötley Crüe"Bastard"Violência
6AC/DC"Let Me Put My Love into You"Sexo
7Twisted Sister"We're Not Gonna Take It"Violência
8Madonna"Dress You Up"Sexo
9W.A.S.P."Animal (Fuck Like a Beast)"Sexo
10Def Leppard"High 'n Dry"Consumo de drogas e álcool
11Mercyful Fate"Into the Coven"Ocultismo
12Black Sabbath"Trashed"Consumo de drogas e álcool
13Mary Jane Girls"In My House"Sexo
14Venom"Possessed"Ocultismo
15Cyndi Lauper"She Bop"Sexo / masturbação

Saiba mais sobre o assunto:
WARNING: PARENTAL ADVISORY. IMDB (em inglês)
WHAT IS THE PARENTAK ADVISORY LOGO. Parental Advisory UK (em inglês)
PAL PROGRAM. Recording Industry Association of America (em inglês)
Discografia Básica
Por Ricardo Alexandre

A linha que separa os “bons tempos” dos dias cruéis que vivemos é o momento em que passamos a saber demais sobre as coisas. Mais do que pedimos, mais do que conseguimos administrar. Não importa que a violência e a ignorância hoje sejam tanto quanto sempre foram: se a gente não sabia, logo, não existia. Em 1989, o planeta já sentia o cheiro da avalanche de informação que nos soterraria na década de 90 - já havia a acid house, o rock ressuscitado pelos Smiths, o circuito indie, as raves, a renascença psicodélica, as pistas de dança como contracultura etc., pra ficar só na música. Mas quase ninguém catava tudo isso direto nas cenas. Era uma época de filtros. Entre nós e toda essa música, o filtro era uma "bandinha" chamada Stone Roses, que captava coisas nas mais diversas fontes, mastigava e entregava em forma de música pop.

Stone Roses, 1989


Formada em Manchester em 1985, a Stone Roses nasceu da parceria entre dois amigos de infância, o vocalista Ian Brown e o guitarrista John Squire. Ancorada na sede experimental do primeiro e na introspecção virtuosa do segundo, nas letras insolentes e nos vocais sussurrados, a banda produziu alguns trabalhos obscuros até ser contratada pelo selo Silvertone, em 1988. A estréia na nova casa, o single "Elephant Stone" produzido por Peter Hook (New Order), colocou a girar todo aquele caleidoscópio conceitual: batidas dançantes, guitarras espertas, melodias grudentas e um clima de onirismo streetwear. A capa do single, pintada por John Squire inspirado em Jackson Pollock, era outra marca registrada lançada ali (essa capa aí do lado).

O single colou, então seguiram-se shows por toda a Inglaterra, muitos ao ar livre. Outros, em casas como o Haçienda, ao lado de DJs como Paul Oakenfold, vincularam definitivamente o grupo à nascente cultura raver. A cinzenta Manchester virou a colorida "Madchester" ao som de Roses, Happy Mondays e Inspiral Carpets. A mitologia se formava e os Stone Roses ainda nem tinham o seu primeiro álbum. Aí ele veio em 1989.

Produzido pelo veterano John Leckie (que já tinha trabalhado com George Harrison e Pink Floyd), o disco The Stone Roses foi gravado em menos de uma semana. Alternando grooves suculentos ("She Bangs the Drum"), hipnotismos juvenis ("I Wanna Be Adored' e "Waterfall"), melodias flutuantes ("Shoot You Down") e talento para o pop perfeito ("Made of Stone"), o grupo recombinou cacos de toda a boa música pop produzida entre os anos 60 e 80 em um produto fresco, novidadeiro, que reverberava também pelas roupas dos integrantes, por seus cortes de cabelo, sua postura, seus instrumentos e suas capas com pinturas pollockianas - em especial a capa dos limões, que se transformou em uma das imagens mais emblemáticas do rock inglês pós-beatle.

A faixa "Fools Gold", presente apenas na versão americana, foi o auge criativo e comercial da banda e o ápice da "boa tensão" entre o tradicionalismo roqueiro de Squire e a inconsequência sideral de Brown. Os Stone Roses se perderam entre um confuso segundo álbum (Second Coming, gravado nas brechas de uma milionária disputa judicial entre a Silvertone e a Geffen), drogas pesadas, ciúme e, por fim, a saída de John Squire, ironicamente, em 1996.

Onde está a ironia? 1996 foi o ano do britpop ou, em miúdos, o ano em que a cena inglesa aquecida pelo protagonismo dos Stone Roses chegou ao topo das paradas mundiais com Oasis, Blur, Pulp e alguns nomes apenas temporariamente importantes. Os mestres abriram o caminho, mas coube aos fãs a missão de “dominar” o mundo.

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