Brian Eno versão 75: guitarra serpente, piano incerto e sons não-naturais

Porto Alegre, Brasil
Por Jean Yves Neufville.

O barulho acompanha a formação do universo: a grande explosão primeira, os sons da natureza etc. É fonte de terror e fascínio que o homem procurou dominar para dar forma aos seus rituais de sacrifício, festa, guerra, luto etc. de novo. A partir dos sons, arquitetou-se a música, que foi evoluindo através dos séculos. No século XX, redescobriu-se a dissonância (Stravinski), apareceram os sons eletrônicos (Varése, Stockhausen, Cage) e concretos (Schaeffer), mas a abordagem popular da música derivada do folclore sempre se manteve dentro de padrões essencialmente conservadores, cada geração curtindo um estilo, uma moda (blues, jazz, rock, soul...), mas sempre cultivando variações em torno de uma mesma estrutura básica. Com o advento do sintetizador e a evolução das técnicas de gravação em estúdio, a música foi se sofisticando e as bandas foram injetando eletricidade em torno das estruturas antigas, procurando desesperadamente renovar a música dita pop. Brian Eno sempre foi um dos mais desesperados. E Another Green World  (1975) é o seu grande manifesto de desespero.



A década de 70 foi muito inventiva para a música pop, mas 1975 sempre é considerado um ano menor. Foi justamente durante essa temporada que Brian Eno jogou o seu grande disco no mundo, após quatro anos de provocações e extravagâncias, dois deles dedicados à sua ex-banda, Roxy Music.

Esse disco que caiu no mundo naquele ano menor poderia ter sido mais um LP de pop music. Os nomes dos músicos convidados poderiam até enganar: Robert Fripp, o inevitável Phil Collins e John Cale (ex-Velvet Underground), para citar os mais famosos. O que se descobre, porém, é um álbum de 14 canções e miniaturas instrumentais onde os climas se alternam em tons e semitons suaves, nos quais a eletrônica tem um papel fundamental.

As melodias são simples, as harmonias são reduzidas ao mínimo de notas, os instrumentos se sobrepõem por camadas (Eno toca sozinho metade das faixas) e todos os sons, sem exceção, sofrem um tratamento específico, têm a sua sonoridade alterada, os seus timbres modificados. Onde o Pink Floyd, por exemplo, recorreria a efeitos acústicos para fins ilustrativos, Eno incorporava sintetizadores, vozes e efeitos como um todo orgânico. A indústria da música escutava pela primeira vez um disco de rock para o qual a preocupação principal eram a textura dos sons, as linhas do tecido musical e a criação de uma atmosfera.



Brian Eno em momento fofo de 1975: fora de sua banda (que já era a vanguarda da vanguarda) ele começou a se transformar no cara que o mundo conheceria anos mais tarde, um arquiteto do som.
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As atmosferas claras e luminosas de "St. Elmo's Fire" (com um solo perfeito de Robert Fripp) ou "I'll Come Runing" alternam com as atmosferas inquietantes de "Sky Saw", que abre o álbum com uma base de quatro notas econômicas de "guitarra digital". Já em "In Dark Trees" as guitarras recriam o efeito da buzina de um veículo em movimento. Além dos teclados, sintetizados ou não, Eno toca uma série de instrumentos inusitados: uma guitarra "serpente", outra "desértica" e até uma chamada "porrete", órgãos "encrespados", piano "incerto", um gerador de ritmos tratados, percussões elétricas, sintéticas, peruanas, "espasmódicas", "elementos elétricos", sons "não-naturais" e fitas constam na ficha técnica.

Em 1982, Eno chegou a tecer alguns comentários a respeito desse disco: "Ali, procurei inscrever cada composição numa paisagem específica, de modo que o ambiente determinasse as formas de atividade instrumental que poderiam ocorrer. Isto se deu com mais freqüência por meio de efeitos de ecos mecânicos/eletrônicos e de delays; ecos de curta repetição sugerindo espaços urbanos retilíneos, por exemplo, e até hoje essas possibilidades têm sido usadas realisticamente para evocar espaços que fossem reconhecíveis. Dali em diante, voltei meu interesse para o exagero e para a invenção mais do que para a reprodução de espaços, experimentando em particular várias técnicas de distorção do tempo".

O álbum teve uma repercussão razoável quando lançado, mas abriu novos horizontes para "um outro mundo verde" , cuja influência viria a ser claramente determinante para a música que veio depois.

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