Homenagem a Mandela completa 25 anos

Londres, Inglaterra
O estádio de Wembley recebeu uma Copa do Mundo e foi o palco de diversos shows históricos desde a sua fundação em 1923. De todos os eventos sediados pelo estádio, talvez nenhum tenha sido tão emblemático quanto aquele que hoje completa 25 anos: em 11 de junho de 1988, alguns dos artistas mais importantes de sua época tomaram o maior estádio da Inglaterra para homenagear os 70 anos de Nelson Mandela, líder africano e peça fundamental na democratização da África do Sul.



A grandiosidade da homenagem feita a Mandela pode ser medida de duas formas. Uma, mais objetiva, utilizando os números impressionantes do evento: ao todo, mais de 600 milhões de pessoas viram Stevie Wonder, Sting e Dire Straits urrarem contra o preconceito em imagens que chegaram simultaneamente a 67 países do globo terrestre.

A outra forma de medir a importância do evento passa por vias mais profundas e requer um olhar mais cuidadoso sobre a história de Mandela e sobre o momento histórico que o mundo vivia no final dos anos 80.

Nelson Mandela era um negro sul-africano, e a maioria dos negros sul-africanos odiava a Inglaterra. E não era para menos. O país europeu havia colonizado a África do Sul e deixado por lá uma porção de descendentes que prosperaram com o apoio da coroa inglesa. Estes descendentes acabaram dominando a economia e a política do país. Aí, em 1948, um governo BRANCO, formado por descendentes de ingleses, implantou na ÁFRICA DO SUL um regime ditatorial racista que ficou conhecido como Apartheid. A base desse regime era uma série de regras que dividiam etnicamente o país e retiravam direitos básicos de todo cidadão que não fosse puramente branco.

Whitney Houston participou do evento, mas só deu uns gritos e logo foi embora.
Nesse cenário, surgiu o Nelson Mandela, como líder de um movimento que lutava em defesa da igualdade racial. Era um movimento pacífico, que foi se tornando um movimento armado a medida que a paz sozinha não dava muito resultado. O conflito ficou tão feio para a África do Sul no cenário internacional que até a própria Inglaterra rompeu relações com o país. O conflito seguiu e Mandela acabou preso pelo governo em 1964.

Em 1988, o líder sul-africano já completava 24 anos de prisão. Então a comunidade internacional passou a realizar eventos em defesa da liberdade de Mandela, entendendo que só ele poderia guiar a África do Sul até a democracia. O mais bem-sucedido destes eventos ocorreu sob as estruturas do estádio de Wembley em 11 de junho de 1988.

Existe na classe artística um grupo de caras que não perde a oportunidade de uma manifestação social, e foi esse grupo que engrossou o caldo do evento em questão. Mas não partiu de nenhum dos medalhões da música pop a voz que melhor simbolizou aquele momento histórico que clamava por igualdade racial.

Tracy Chapman, destaque no palco, sabia bem o que era ser alvo de preconceito, afinal, era pobre, negra e mulher.

Tracy Chapman na época estava lançando o seu primeiro disco. Dispensou a formalidade de ter uma banda e subiu ao palco apenas acompanhada de seu violão. Norte-americana nascida em Ohio, Tracy sabia bem o que era ser alvo de preconceito, afinal, possuía origem pobre, era negra e nasceu mulher em um dos períodos mais racistas da história dos Estados Unidos.

De peito aberto diante de uma multidão branca ensandecida, Tracy certamente lembrou-se de todos os olhares desrespeitosos que recebera ao longo da vida. Enquanto cantava que "Cause finally the tables are starting to turn" (Finalmente as mesas estão começando a virar), Tracy era ovacionada, em um claro sinal de que o preconceito, mesmo que não morresse, não seria mais tolerado a partir dali. Sem saber, Tracy e a multidão encerravam ali o apartheid moral que imperava para além das fronteiras da África do Sul. De certa forma, os acordes simples da cantora abriam o caminho para uma onda de igualdade racial que varreria o mundo nas décadas seguintes e culminaria com a eleição de Barack Obama, negro, a presidência dos Estados Unidos, em 2008.

Mandela foi liberto poucos meses após o evento em sua homenagem, e eleito democraticamente como o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994. Em efeito dominó, o racismo começou a desmoronar aos poucos, através do esforço de muita gente que até hoje emprega a sua voz em favor da causa. E emociona saber que um dia todas essas vozes foram representadas por apenas uma, acompanhada por violão e lágrimas, cantando sobre uma tal revolução e lavando a alma do mundo inteiro em uma tarde histórica dos anos 80.

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