Lóki e a loucura criativa de Arnaldo Baptista em 1974

Porto Alegre, Brasil
Imagine que você fez parte da banda mais inovadora do rock brasileiro. Viveu o auge do sonho hippie dos anos 60, mas entrou nos 70 abaixo de uma ditadura militar bem violenta. Em meio ao mau tempo, você perdeu também a mulher da sua vida. Depois disso, a sua banda passou por algumas crises. Como se não bastasse, as drogas, que até então faziam parte da brincadeira, começaram a prejudicar o seu raciocínio. É de enlouquecer, né? Pois Arnaldo Baptista viveu exatamente isso no ano de 1974 e, antes de enlouquecer, registrou tudo em Lóki, um dos discos mais importantes da história do rock nacional.

Lóki, Arnaldo Baptista, 1974

Lóki?, primeiro trabalho solo do ex-integrante d'Os Mutantes, é a maior resposta para a ressaca que a música brasileira viveu após o fim dos anos 60. Entregue a estrangeirismos, boa parte dos sons brasileiros havia se transformado em cópia do que se fazia em grandes centros como Nova York e Londres. Os próprios Mutantes, acostumados a misturar guitarras e maracatu, haviam se transformado em uma simples banda de rock progressivo após a saída de Rita Lee, em 1972. Arnaldo pularia do barco um ano depois dela. Viajando madrugada a dentro entre o LSD e o piano, ele arquitetaria o seu primeiro e mais importante trabalho solo.
A música, que tanto ajudara Arnaldo a viajar, em 1974 era usada como último suspiro de uma mente sã em meio ao caos.
O disco abre com a emblemática "Será que eu vou virar bolor?". Como o título sugeria, Arnaldo tinha consciência do seu prazo de validade. Agora fora d'Os Mutantes, ele buscava renovar-se para não ficar para trás. O som estava diferente, e as entrelinhas do compositor estavam afiadas como nunca.

Ninguém até hoje sabe se as entrelinhas eram propositais ou se eram o simples fruto de um pensamento excessivamente criativo que não conseguia pensar na mesma coisa por mais de dois versos consecutivos. Em meio a uma psicodelia de informações, "Desculpe", sétima música do disco, surge como uma pérola à parte. Singela e objetiva, parece um recado aberto à Rita Lee, ex-esposa e ex-companheira de banda. O arrependimento e a dor da perda davam o tom da obra e até hoje emocionam qualquer um que tenha coração.



No limite, Arnaldo lutava para fazer música ao mesmo tempo em que lutava para se manter lúcido em meio a fumaça da ditadura e aos duros tempos que o apunhalavam de forma implacável. Era um esforço pela música, mas era antes de tudo um esforço pela vida, e por isso o disco era um retrato da sinceridade, desenhado por um homem que foi até onde a sua capacidade poderia ir naquele momento. E ele conseguiu ir muito longe.

Sem querer, Arnaldo compôs baladas suicidas muito antes do Joy Division e produziu um disco sem guitarras 30 anos antes do Keane se achar inovador por fazer exatamente a mesma coisa. Arnaldo tinha o talento em seu DNA, e mesmo a um passo do manicômio era capaz de transformar a sua loucura bruta em música de primeira linha.



ACIMA - A capa de Lóki? (1974) e a contracapa, onde Arnaldo Baptista aparece aos pés de uma estátua que ele mesmo roubara de um cemitério: até a loucura no rock era muito mais respeitosa na geração pré-Rivotril.

Está tudo ali. Referências à herança da Jovem Guarda, cutucadas no regime militar, piadas com o Glam Rock, citações de Tom Jobim… tudo o que era relevante no início dos anos 70 tinha espaço na mente do artista, que fazia um esforço enorme para se equilibrar na corda bamba que separava os loucos dos lúcidos. Assim que terminou de gravar o disco, Arnaldo desequilibrou-se e tombou corda abaixo, caindo para o lado dos loucos, como anunciara que faria na "Balada do Louco", anos antes. Esquecido pela mídia, foi internado pela família, retornando com força ao cenário musical somente décadas mais tarde.



Hoje mais tranquilo, Arnaldo intercala shows esporádicos com longos períodos de retiro no interior de Minas Gerais. Dedica o seu tempo a pintar quadros, sem o LSD e sem o rosto jovial de outros tempos. Sua obra, no entanto, parece cada vez mais atual. Um retrato da loucura escrito por alguém que estava ficando louco de fato, e não simplesmente interpretando um papel vendável. Um relato de melancolia escrito por alguém que perdeu da noite para o dia tudo o que tinha de mais caro.

Volta e meia, o velho herói do rock nacional ignora o peso dos seus quase 70 anos: veste novamente a carapuça dos loucos, sobe ao palco e dedilha o piano para fazer felizes aqueles que aprenderam com ele que a loucura pode gerar bons frutos. E ainda hoje ele jura que é melhor não ser muito normal.

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