Um papo com o talento e a solidão de Ana Larousse

Curitiba, Brasil
O ano de 2013 vai chegando ao fim e os sites especializados já começam a apontar as suas apostas musicais para o ano que vem. Quem serão os grandes nomes da música em 2014? Para o New Yeah, uma aposta muito válida está na cantora curitibana Ana Larousse. Nascida no punk e domada pela melancolia de Paris, ela incorporou a solidão como conceito principal da sua arte, surgindo rapidamente como um dos nomes mais promissores da atual música popular brasileira.



Para falar sobre o passado, o presente e o futuro da nossa aposta, chamamos uma fã de carteirinha da cantora. A nossa nova colaboradora Marília Dias foi convocada para trocar uma ideia com a própria Ana, para saber mais sobre os elementos que permeiam o disco Tudo Começou Aqui e para tentar descobrir o que a nossa talentosa paranaense planeja para o ano que virá. Daqui para baixo, a Marília é o New Yeah.

New Yeah - Tu tens formação em direção teatral. A tua música tem influência do teatro? Por que a escolha por um em detrimento do outro?
Ana Larousse - Tem influência, com certeza! Ter estudado teatro me deu um olhar mais amplo sobre a música. Acredito que seja uma das razões pelas quais me preocupo tanto com a dramaturgia das letras e dos discos que desenvolvo. No teatro, a gente estuda muito estética, símbolos... afinar a obra para que seja coesa em seus conceitos. Isso é bastante forte nos estudos teatrais e me acompanha em todo trabalho artístico que desenvolvo. A escolha não foi consciente. Foi acontecendo. Sempre toquei e compus. E sempre gostei muito mais de tocar e compor do que de trabalhar com teatro. Mas eu tinha vergonha de cantar - medo que superei muito recentemente - e isso me impedia de me jogar na música mesmo. Aos poucos o teatro foi se distanciando e a música se tornando cada vez mais presente e vital pra mim. E aqui estou! :)



NY - A maioria das tuas músicas foi feita em Paris, antes de voltar para Curitiba. A inspiração, conforme vemos nas histórias de cada uma, vinha muitas vezes da distância e da melancolia que um país tão diferente te oferecia. Agora, depois do lançamento de Tudo Começou Aqui, tu deves estar fazendo novas músicas. A tua fonte de inspiração mudou?
Ana - (adoro como vocês usam o "tu") Acho que houve uma mudança de contexto, mas não de temática. A solidão e a melancolia estão e estarão, acredito, sempre presentes no meu trabalho. Sou apaixonada por esses dois eventos internos. E leio muito sobre isso ou obras que carregam essas questões. Mas o olhar mudou. A saudades agora é de Paris e a solidão não é mais da família e dos amigos daqui, mas dos amigos de lá e do tempo que eu vivi lá. Então, tenho feito muito mais canções falando de uma vontade de buscar o que se foi. Mas também passei a me aprofundar na solidão. Tenho escrito letras mais existenciais e algumas até mais críticas, mas sempre acentuando a relação de um indivíduo com ele mesmo (no caso, eu). Acho uma questão extremamente importante e pouco tratada nas obras musicais em geral. As pessoas tendem a falar muito sobre as relações que tem com os outros. Eu busco algo mais interno mesmo. Tenho composto mais aqui no Brasil por estar mais presente no cenário musical e por ter perdido esse medo de cantar. O processo criativo continua igual. O que mudou foi que termino mais rápido as canções (acho que peguei no tranco, rsrs) e estou muito mais prolífera do que era em Paris, pois lá eu dedicava meu tempo a coisas demais.

"Às vezes escrevo uma canção de amor. Mas meu foco está longe de ser esse. O amor as pessoas vivem. Quero cantar o que as pessoas têm medo de sentir."

NY - Temos a impressão de que a tua voz se parece muito com a da Uyara, embora vocês façam músicas bem diferentes. Além disso, conhecemos o teu trabalho e o do Leo através da Banda Mais Bonita da Cidade. É comum essa associação da tua carreira com a banda? Se sim, isso é legal pra ti?
Ana - Pois é! Em alguns momentos nossas vozes se parecem mesmo, embora nossa forma de cantar seja bastante diferente. Os timbres são semelhantes. A associação à banda mais bonita é normal mesmo por causa do clipe de "Oração", do qual participo, também pelo fato de sermos amigos, da mesma cidade, e pelo Rodrigo Lemos (guitarrista da banda) ter produzido meu disco. Acho que grande parte do meu público chegou até mim através deles. É até curioso que isso aconteça ainda tanto depois do vídeo. Acho que as pessoas criaram essa imagem dessas bandas e cantores curitibanos que são amigos e fazem coisas em comum e as pessoas gostam desse grupo todo (que é uma delicinha mesmo)! Eles são meus amigos e são uma banda que admiro demais. Ser associado à coisa boa nunca é ruim. Eles estão presentes no meu disco também. Então é isso! Só alegria! E, apesar disso, meu público não espera de mim algo parecido com o que a banda faz. Isso é o que é legal. Temos trabalhos bastante diferentes e mesmo assim atraimos bastante gente em comum.

ARTE DE DENTRO PRA FORA - as melodias, as letras e a estética de Ana Larousse estão repletas de paisagens que saem do cotidiano da cantora direto para o cotidiano de quem escuta as suas canções.

NY - Falando em carreira, sabemos que tua começou com o punk rock. Em uma entrevista, lemos que isso mudou depois que conheceste o Leo, que a tua suavidade atual tem bastante influência dele. O que te fez mudar tanto? Isso tem alguma relação com a tua personalidade, com teu modo de estar no mundo?
Ana - Tem muito a ver com Paris também. E acho que com um amadurecimento pessoal, que me fez ver que gritar minhas dores não faziam elas sararem. Só piorava. Aprendi que transformar as dores e ódios em beleza me fazia bem e fazia bem pros outros também. Isso foi na solidão de Paris que entendi. Eu não tinha pra quem gritar. Então era eu com meu violão. A falta de guitarra e de amplificador e a melancolia da cidade me trouxeram uma suavidade bem inesperada na forma de cantar e escrever. O Leo foi uma das pessoas que me desviaram do caminho do punk. Eu só convivia com gente do punk. Na faculdade eu conheci outros grupos e isso acabou fazendo diferença também. Crescer, né? Mas não se iludam! Ramones, Buzzcocks e Clash ainda são trilha sonora obrigatória na minha vida! Assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Greatful Dead, PinkFloyd, AC/DC... ouço mais rock que qualquer outra coisa. Ainda volto a gritar!

NY - Acompanhando o teu canal no SoundCloud, vemos que a postagem lá é recorrente. Qual música representa mais perfeitamente a tua atual fase?
Ana - Eu me seguro muito pra postar pouca coisa lá, até pra não queimar meus próximos discos. Mas às vezes não me seguro. Componho coisa demais e tem dias que PRECISO jogar no mundo a canção. Mas a regra lá é que seja o primeiro registro da música. Acho isso legal. Dou ao público um contato com minha intimidade que poucos artistas dão. Não espero o trabalho estar pronto, arranjado, definitivo (nunca está, né?), polido. Gosto que vejam o momento cru e intenso em que a canção é criada, em que a canção nasceu. É lindo isso! A música que mais representa meu momento atual é "Tanta Gente". Apesar de ser uma música que fiz há um ano e três meses, ela iniciou uma nova fase minha, na qual assumo publicamente a solidão e meu desejo de expor minha relação comigo. Lógico que às vezes não me seguro e escrevo uma canção de amor. Mas meu foco está longe de ser esse. O amor eu vivo. O amor as pessoas vivem. Quero cantar o que as pessoas têm medo de sentir.



NY - Tu já planejas um novo disco? Já tens ideia de como ele vai ser?
Ana - Já estou gravando um segundo trabalho. Mas é surpresa, e é pra logo! Esperem por algo muito bonito e bem diferente do meu primeiro disco! Ironicamente é um trabalho sobre o amor, rsrs. Mas de uma forma bastante irônica, com a solidão muito mais presente do que a relação dos dois. Aquela famosa e dolorosa solidão a dois. Depois falo mais sobre isso. Por agora, vou deixar no ar!

NY - O teu trabalho tem muitos fãs aqui no Rio Grande do Sul. Estamos ansiosos em saber: tens alguma previsão de vir para Porto Alegre?
Ana - Infelizmente, ainda não! Mas no ano que vem passarei por aí. Quero muito e estamos tentando fechar algo legal por aí.

Saiba mais sobre a cantora no site oficial: www.analarousse.com.

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