1987 - Smiths e Marx no topo das paradas

Manchester, Inglaterra
Os Smiths sempre tiveram um gosto todo especial por temáticas inusitadas. Em fevereiro de 1987, por exemplo, a banda liderada por Morrissey ocupava o primeiro lugar nas paradas britânicas com a canção “Shoplifters Of The World Unite” (algo como “Unam-se, ladrões de lojas do mundo” em tradução livre). Em frases que pediam para que os ladrões roubassem mais e distribuíssem livremente os objetos do seu crime, os Smiths jogavam aos quatro ventos um discurso nos moldes da fala de Robin Hood, personagem conhecido por roubar dos ricos para dar aos pobres. A canção foi um verdadeiro sucesso, mas, ali, escondido por trás de uma melodia soturna, talvez estivesse um dos discursos socialistas mais fortes da história da música pop.

Shoplifters Of The World Unite

O personagem de Robin Hood de uma forma geral sempre foi fortemente ligado ao socialismo, mesmo tendo nascido anos antes da revolução russa, e mesmo tendo surgido na Inglaterra, maior polo capitalista da Europa. A ideia de um personagem que roubava dos ricos para dar aos pobres em muito se aproximaria mais tarde do discurso soviético, que buscava onerar o patrão para que o proletariado fosse elevado em sua escala social.

Shoplifters Of The World Unite

Socialismo na música pop: muito antes dos Smiths, algo muito semelhante ao título bolado por Morrissey já estampava propagandas marxistas ao redor do mundo.


Foi talvez pensando no mítico personagem inglês que Morrissey deu origem a um dos maiores sucessos dos Smiths. Mas só parafrasear Robin Hood não parecia o bastante naquele momento. Para reforçar o discurso socialista, o habilidoso compositor inglês uniu ao discurso do ladrão altruísta o slogan soviético “Workers of the world, unite!” (“Trabalhadores do mundo, uni-vos"), trocando apenas a palavra workers (trabalhadores) pela palavra shoplifters no título da canção. A citação retirada do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels estava ali para não deixar dúvidas das intenções da banda com aquele single.

A canção começou a sua trajetória de sucesso popularizando-se rapidamente em Manchester, cidade berço dos Smiths e historicamente habitada pela classe trabalhadora da Inglaterra. A melodia hipnotizante e a mensagem tão bem camuflada, no entanto, geraram um fenômeno no mínimo curioso logo em seguida: a canção estourou em todo o Reino Unido, e passou a ser cantada até pelas classes burguesas, que eram afrontadas nas entrelinhas da canção.

Não foi a primeira e nem a última vez que os Smiths causaram polêmica por abordarem temas políticos e sociais em sua obra. O disco Meat is Murder, por exemplo, trazia em sua capa uma imagem puxada do documentário “In the Year of the Pig”, conhecido por criticar a participação norte-americana na Guerra do Vietnã. No conteúdo de suas músicas, a decadência da realeza britânica e a crítica às elites inglesas elevaram os Smiths ao topo das paradas sem que isso significasse o esvaziamento de suas causas. Em uma época em que o pop dançante ameaçava tomar conta da música, a acidez política dos Smiths permanecia no topo sempre desafiando paradigmas.


A capa de Meat is Murder (1985): cutucada pouco sutil na tirania norte-americana, historicamente apoiada pelo parlamento inglês.

Em 11 de fevereiro de 1987, há exatos 27 anos, “Shoplifters Of The World Unite” ocupava com autoridade o primeiro lugar nas paradas britânicas, mas o seu discurso curioso de união segue valendo hoje ainda mais do que valeu naquela época. Em um tempo onde as pessoas esfolam-se umas as outras por um lugar nos bancos do metrô, ao mesmo tempo em que aplaudem a agressão de jovens em matérias sensacionalistas da TV, todo grito de união continua sendo de extrema utilidade e urgência. É que no fundo os Smiths foram a banda mais atemporal dos anos 80, e é por isso que 27 anos depois as suas canções ainda nos fazem pensar. Outras bandas e outros singles virão, alguns até com melhores letras e melhores melodias, mas “Shoplifters Of The World Unite”, por sua criatividade e importância, será eternamente top 10 dentro de nós.

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