Entrevista: The Outs e o britpop na terra da bossa nova

Rio de Janeiro, Brasil
Poucas pessoas discutem a importância do Oasis enquanto fenômeno sociológico dentro da música moderna. Com mais de 70 milhões de discos vendidos em menos de duas décadas, mais o pioneirismo em diversas experimentações que acabaram virando tendência dentro da produção contemporânea, os irmãos Gallagher colecionaram números e fãs que evidenciam o êxito da sua curta passagem pelo nosso tempo. A maior herança deixada pelo grupo de Manchester, no entanto, é mais difícil de ser medida, mas fica fácil de ser notada quando observamos os grupos que surgiram inspirados nas suas canções. No Brasil, a The Outs é o exemplo mais belo de se apontar.



Com reconhecimento no mercado estrangeiro, uma sólida identidade sonora e a participação em grandes acontecimentos no mundo da música alternativa, o grupo carioca firmou-se como um dos nomes mais produtivos do centro do país de 2009 para cá. Apoiada na cartilha britpop rabiscada por dois irmãos briguentos no início da década de 90, a The Outs se prepara agora para o show de lançamento do EP Spiral Dreams, que marca a evolução musical de um grupo que baseia o seu som em influências britânicas, mas que possui qualidade demais para se contentar em produzir cópias. Nesse clima, Dennis Guedes, Gabriel Politzer, Tiago Carneiro e Vinícius Massolar, os responsáveis pela coisa toda, trocaram uma ideia com o New Yeah, onde conversamos sobre os frutos da banda até aqui e os projetos para 2014 em solo nacional e internacional.

NEW YEAH: Desde 2009 vocês ganharam experiência e adquiriram novas influências musicais, algo que fica visível comparando o Get Around (2012) com as canções mais recentes. O que vocês acreditam que evoluiu no som da The Outs nos últimos cinco anos?

Dennis Guedes: Acho que com o passar do tempo nós conseguimos entender qual é a nossa arte e agora temos mais facilidade em jogar ela pra fora. Aprendemos a raciocinar como uma banda, adquirimos experiência e sintonia entre nós. Naturalmente, nosso processo criativo cresceu bastante. Mas o ponto mais curioso é que, como compomos muita coisa, temos muito material acumulado. Isso quer dizer que nossos lançamentos nunca são “frescos” pra nós. A "Right Or Wrong", por exemplo, é uma música de 2011!



Vinícius: Nós ouvimos muitos álbuns juntos, discutindo o porquê de cada som até o menor detalhe. O poder de gravar em nosso próprio estúdio resultou, também, na evolução do som da banda. Queríamos achar nossos próprios timbres e formas diferentes de gravação..

Gabriel Politzer: Acho que aprendemos a realmente enxergar com os ouvidos, abrindo portas para novas bandas e para bandas velhas. Até hoje continuamos descobrindo. Nós podemos perceber facilmente alguns pontos marcantes para a transformação do nosso som: momentos como a primeira gravação por conta própria, no nosso estúdio, ou como ver a performance ao vivo de grandes ídolos, como o Tame Impala. Ouso dizer que mesmo após essas experiências de vida a nossa fórmula só não mudou porque nunca houve formula: sempre fomos expontâneos.

NY: Vocês comentaram em uma outra entrevista que preferem  produzir suas músicas por conta própria, sem o auxílio de um produtor. O novo EP - Spiral Dreams - foi produzido dessa forma? 

Vinícius: Gravar o novo EP foi incrível justamente por causa dessa liberdade. Nós estamos sempre ouvindo coisas novas, testando novas ideias e, como gravamos tudo sozinhos, agora podemos trabalhar o quanto queremos para testar todas as possibilidades nas músicas.



Dennis: Geralmente produtores e engenheiros de som já têm um método de trabalho, mas o ponto mais libertador da arte é exatamente não ficar preso a regras! E achar os produtores certos pra o que você quer também é sempre muito difícil (e caro!). Nós sempre adoramos essa sonoridade mais orgânica, com influência nos anos 60 e 70, e o novo disco tem tudo a ver com essa autonomia!

Tiago Carneiro: Antes dessa liberdade num home studio, compúnhamos a maioria das músicas no violão. Às vezes conseguíamos ensaiar na casa de alguém ou pagar algumas horas de estúdio. O problema era que tínhamos pouco tempo para trabalhar na sonoridade e nos arranjos de nossas músicas.

Gabriel: Há muito de improviso e de interpretação neste trabalho, diria que principalmente nas duas faixas b-sides - "Fear" e "Start Over". Foram os solos e as improvisações no estúdio que deram vida para ambas as faixas. Acho que se não fosse por este ambiente livre e propenso a criatividade não seríamos capazes de realizar este EP.

3. Vocês foram convidados pela marca Converse para integrarem o projeto Rubber Tracks ao lado do engenheiro de som Aaron Bastinelli. Como foi trabalhar ao lado desse peso pesado da música e ainda sair do estúdio com duas faixas inéditas gravadas? 

Dennis: O ano mal começou e rolou esse convite! Como estamos sempre absorvendo informações, a experiência no Rubber Tracks nos fez aprender muita coisa nova que vamos passar a usar no nosso estúdio também. As duas inéditas que gravamos ("Novadema" e "Before The Sundown") também eram músicas antigas nossas e já tinham todos os arranjos definidos, mas o Aaron soube ouvir as músicas, captar a ideia e dar a sonoridade que elas deveriam ter. Sem contar o místico ambiente do Toca do Bandido, que o Aaron soube explorar totalmente! Mais pra frente a ideia é lançarmos um EP do Rubber Tracks Sessions.

Vinícius: Gravamos as músicas praticamente ao vivo e nunca tínhamos feito isso, o que deixou as músicas bem enérgicas. O Aaron entendeu como queríamos o som e direcionou tudo para que soasse da melhor maneira.

Tiago: O Aaron soube identificar o que seria melhor para ter o som que queríamos para cada instrumento e ainda deu um toque particular dele. Foi uma ótima mescla e um grande aprendizado! Todo mundo estava bem animado no estúdio. Tanto que o Aaron fez um pedido para a gente gravar "Helter Skelter", dos Beatles. Tudo estava fluindo bem, e conseguimos fazer em um take só. Ou seja, foi bem produtivo para um dia de gravação!

Gabriel: Nós chegamos a gravar ambas as músicas no nosso estúdio, porém sabíamos que ainda não estavam boas o suficiente. Foi com este espírito que resolvemos gravar ambas no programa da Rubber Tracks. Tivemos uma gravação bem conduzida, com equipamentos de ponta e regulados para o tipo de som que era visado. Não entendi muito bem o porque ele pediu pra que gravássemos "Helter Skelter", mas, quando ele perguntou se queríamos voltar ao estúdio e tocar essa música com os microfones ligados, eu nem liguei para o resultado. Eu estava empolgado em apreciar o som do lugar e só queria tocar mesmo.



NY: O novo disco é uma obra bem complexa sob diversos aspectos. Mas, se o novo álbum pudesse ser sintetizado em um parágrafo, uma frase ou até mesmo uma palavra, o que vocês diriam sobre ele?

Gabriel: “Novadema.”

Dennis: “Rock em sua essência original.”

Vinícius: “Curiosidade musical.”

Tiago: “Uma viagem até o centro da galáxia em que você é engolido por um buraco de minhoca e cuspido num universo estranho, com vários lugares diferentes e legais, chamado Novadema.”

NY: Vocês conseguiram produzir um som capaz de chamar atenção não só no Brasil, mas também fora dele. Como foi saber que pessoas do mundo todo estavam ouvindo a música de vocês? 

Dennis: Acreditamos que nossa música seja “globalizada”, ou seja, pode ser consumida tanto por brasileiros como por gringos. O Brasil tem uma enorme capacidade de fazer música pra exportação, e a gente pode ver isso em novas bandas daqui, como o Black Drawing Chalks, Boogarins, Cambriana... saber que pessoas do mundo todo nos ouvem foi bom pra gente saber que a teoria de “musica globalizada brasileira” existe e funciona.

Vinícius: É legal porque mostra que a música realmente não tem fronteira. Acho que o fato do nosso vocalista, o Tiago, ser professor de inglês e fluente na língua ajuda bastante. Algumas pessoas acham que a banda é mesmo da Inglaterra! Outro ponto é que misturamos muitos elementos de diferentes influencias nas nossas músicas, resgatando sons de outras décadas e dando um toque moderno, atual. Fazemos isso sem parecer com aquele som forçado, antigo e escrachado. As pessoas percebem essa diferença na qualidade e no conceito do som.

Tiago: Acho que é uma vitória conquistarmos o público de fora do Brasil, principalmente porque cantamos em inglês. Acredito que por gostarmos tanto da música de países que falam inglês, acabamos absorvendo muito dela. Nossa pronúncia deve ajudar também. Saíram reviews nossos em blogs da Inglaterra dizendo que parecíamos ser de lá! Foi emocionante ver nossas músicas em rádios inglesas e ver que nosso trabalho está realmente sendo reconhecido lá fora. Fizemos questão de gravar o momento!

Gabriel: Hoje em dia não é tão difícil aparecer no mundo todo… aliás, às vezes é mais fácil aparecer no Japão do que em São Paulo! Lembre-se que grandes nomes da música atual do Brasil são mundialmente famosos com músicas muito suspeitas para o meu gosto musical. Mas, em um mundo onde todos temos oportunidades, precisamos ter também um diferencial. A qualidade musical é o nosso. Até porque os ingleses já devem ter aprendido que música também pode vir do Brasil. Já ouviram falar em Mutantes?


Barulho na Inglaterra: antes mesmo de ter fãs e músicas próprias, a The Outs venceu em 2008 um concurso de covers do Oasis interpretando a canção "Bag It Up", lado B do disco Dig Out Your Soul (o segundo melhor disco da década passada, perdendo apenas para o Don't Believe the Truth, também do Oasis - no momento em que o redator da matéria deixa transparecer o seu lado fã e escreve a maior legenda de foto da história da internet brasileira).


NY: E como vocês vêem, hoje, a chance da carreira da banda além do Brasil? O que vocês planejam ainda dentro desse plano expansão global que vem dando muito certo até aqui? A banda foi recentemente convidada para tocar no renomado Liverpool Sound City, mas no Brasil, o que vocês pretendem fazer ao longo de 2014? 

Dennis: Toda boa banda de rock precisa tocar na Europa e nos EUA. Essa é a "Lei da Gravidade do Rock". É claro que, para bandas pequenas como a nossa, isso ainda é algo difícil de alcançar, mas acho que a tendência seja essa. O público gringo gosta de música vinda do Brasil por causa de todo um contexto histórico com a música do nosso país. Eles sabem que o povo brasileiro é um povo muito criativo, independente de rótulos. Infelizmente vamos ter que recusar o convite pro Liverpool Sound City por questões financeiras, mas outros convites não faltarão. Nosso objetivo agora é conseguir tocar mais, em mais cidades, cidades de interior... fazer os brasileiros conhecerem nossa música e essa onda neo-psicodélica que temos explorado.

Tiago: O convite para um festival tão renomado e importante como o Liverpool Sound City foi uma honra muito grande. É muito triste que não conseguimos ir neste ano, mas tentaremos no ano que vem! De todo modo, é um sinal que estamos progredindo bem: ser chamado para um festival desses não é para qualquer um!

Vinícius: Tem alguns países próximos, como a Argentina, que seriam bem legais de tocar, pois temos bastante público por lá. Temos um plano de turnê na Inglaterra, mas isso ficaria mais pra frente, pois temos coisas a fazer no Brasil ainda!

Gabriel: Seja no Brasil ou na Inglaterra, ou até outro país, queremos é sair e tocar… fazer um show de qualidade, ao ponto de que a platéia sinta a mesma emoção que estamos sentindo ao tocar. Queremos criar um genuíno show de rock, assim como eu imagino que tenham sido Leeds, Woodstock, Monterey e todos os grandes shows dos quais ouvimos falar.

Para saber mais sobre a banda, dê um like na fanpage da The Outs, ou leia o texto da produtora Inker sobre o show de lançamento do EP.

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