Grandfúria: o nativismo pode ser contemporâneo

Caxias do Sul, Brasil
A música dos anos 80 foi marcada por bandas que exploraram novas tecnologias em busca de uma música que estivesse a frente do seu tempo. Nessa época, surgiram os sintetizadores: teclados barulhentos capazes de produzir sons antes nunca ouvidos. Marcas de uma geração, as texturas construídas por estes instrumentos foram se transformando com o passar das décadas. 30 anos depois, uma banda surpreendeu até os próprios sintetizadores ao incluir o seu som eletrônico dentro das raízes tradicionais gaúchas. Unindo universos tão distantes, a Grandfúria passou a produzir um som capaz de beber em diversas fontes e, ao mesmo tempo, não se afogar em qualquer uma delas.



Grandfúria nasceu em 2012, na cidade de Caxias do Sul, e logo se destacou na cena regional por reunir influências muito diferentes em torno de uma sonoridade bastante homogênea. Desde essa época, o som do grupo já era um paradoxo: por um lado, as raízes na cultura popular produziam uma música com DNA palatável; por outro lado, o som do grupo caxiense apresentava arranjos complexos e muito bem executados, que o aproximavam do conhecimento erudito do rock progressivo. Decorar as variações executadas pelo grupo até hoje é um exercício de QI que exige a memória de um elefante. Sentir o que é transmitido através de sua sonoridade complexa, no entanto, é algo bem mais fácil de se fazer.

Decorar os arranjos da Grandfúria exige a memória de um elefante; sentir o que a banda transmite exige apenas a boa e velha sensibilidade.

Os arranjos do quinteto, difíceis de serem explicados em apenas um texto, vêm acompanhados de detalhes em constante mutação sobre uma base de indie rock. Em alguns momentos, esse som flerta com o indie rock inglês, mantendo o sotaque gaudério e lembrando, com algum esforço de associação, faixas da banda gaúcha Bidê ou Balde. Em outras canções, quem rege a orquestra é a gaita gaúcha, ou o acordeon, para os menos familiarizados. Nessas faixas, o grupo busca no fundo do baú as principais características da música tradicional gaúcha: deixa a globalização do rock inglês para encontrar em sua raiz regional a referência básica para milongas e letras quase declamadas.

Mesmo utilizando muitos efeitos e instrumento clássicos, a Grandfúria mantém o seu pé firmado na influência pop rock, com violões e pianos, em uma combinação que às vezes parece mais calma, e em outras vezes soa dançante como algumas das melhores bandas indies da última geração.



Quem se interessou pela veia nativista do grupo precisa ouvir a faixa "Choro do Pampa". Um relato sobre uma desilusão amorosa de um rapaz do campo, com forte apelo nas tradições da família campeira gaúcha. A canção exalta os princípios e expressões populares do peão do sul, relembrando antigas canções do folclore do estado. Tudo isso com um refrão cheio de referências hardrock: muitas guitarras e um ritmo de bateria pesado, ambos regidos pelo som latente dos solos de gaita.


Hoje, a banda é formada por Gustavo Prezzi, Tiarli Chedid, Vinícius Augusto de Lima, Carlos Balbinot e Filipe Mello. O quinteto já é responsável por dois EPs. O primeiro com roupagem mais indie rock, com sintetizadores e ritmos dançantes, ao estilo de grupos como Colorphonic, One Sky Two VisionsFire Department Club e Wannabe Jalva. O segundo EP já assume a posição nativista do grupo de forma bem mais clara, dando à sonoridade já vista no primeiro trabalho o acréscimo de gaitas e arranjos notoriamente gaúchos, deixando o som da Grandfúria verdadeiramente inrotulável.

Para acompanhar mais o trabalho do quinteto gaúcho, basta seguir a banda na sua página oficial no Facebook ou ouvir e fazer o download das suas música em seu Soundcloud

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