O álbum da El Paso! é uma reflexão intensa

Santo André, Brasil
A música é uma ferramenta de ambientação, e existem bandas que entendem isso e usam essa face da música em favor da significação de seu trabalho artístico. Além de um álbum intenso (gravado em uma maratona de 10 dias) e muito bem produzido, a banda El Paso! quer que Apolo Puma ultrapasse as barreiras do som e se torne uma obra de arte completa através de produções multimídia. Então vai ouvindo o álbum e lendo essa resenha pra entrar na ideia enriquecedora dos caras.



Apolo Puma começa inserindo o ouvinte num ambiente épico de tensão constante, com a promessa de algo grandioso à acontecer, como a letra anuncia: "luzes e raios" servem como palavras-chave para a sonoridade do álbum.

A tensão inicial diminui um pouco na segunda faixa, que ainda assim intercala notas e acordes menores com as faixas vocais e toda essa energia crescente, parece uma inversão da primeira faixa que começou estourando e foi se tornando sutil no final. Em "Cartas à Ímola" começamos com uma suave tensão inicial que se engrandece culminando na frase "tenho tanto pra contar, vão me derrubar" revelando que as letras estão centradas nos conflitos gerados pela vivência humana, e muito provavelmente pelos próprios conflitos de cada compositor da banda. Apesar desta pessoalidade na origem, as letras do disco oferecem uma amplitude de significados que permite a qualquer um se identificar com a mensagem passada.



A bateria de "Mulheres Voadoras" se destaca pelo ritmo que na ambientação épica do álbum vou associando aos enfrentamentos e ao sentimento de solidão que nos cerca quando estamos frente à frente com nós mesmos e nossos demônios. "Interesse" altera a linguagem inicial do álbum com uma melodia mais positiva, sem destoar dos timbres característicos que mantém a unidade de toda a experiência de 48 minutos que é este disco.

Um caminho de graves vai me guiando ao interior de "Labirintos", que começa com simples corredores de escolhas binárias mas vai se mostrando maior em complexidade e nos faz perceber que, ao contrário dos labirintos comuns ao imaginário coletivo, ali não é possível voltar atrás e corrigir o rumo. Talvez uma metáfora para as escolhas erradas que tomamos em nossos próprios labirintos pessoais.


Os homens à frente da El Paso! - eles deram vida a um artigo raro dentro da música alternativa brasileira na última década: um álbum conceitual onde cada ruído tem a sua devida função.

A humildade é a lição mais difícil de ser aprendida, pois, para vencermos nossa própria vaidade, temos que combater uma versão negativa e pegajosa de nós mesmos. Ao derrotar o ego eu me vejo vitorioso e ainda assim coberto de "Lama". Mas a lama não importa pois "não há mais reis entre nós", na verdade, nunca houve, somos irmãos, grãos de areia na praia enorme do ser.



A calmaria entre uma tempestade e outra chega com "Ultravioleta", que nos prepara para aceitação da chuva que virá para limpar, e os resquícios de negatividade são lavados com essa canção, que, mesmo com a ausência da bateria (que dá as caras só no final de uma maneira suave mas firme), mantém a densidade pelos intrincados arranjos e o delay, elemento presente em quase toda obra.

Na etapa final do cd temos uma variação maior de harmonias e melodias. "Libra" introduz uma certa brasilidade ao cenário, e já é possivel imaginar que todos conflitos e momentos obscuros de até então nos trazem a um litoral e ao desabafo das ondas sonoras ou marinhas. Ambas possuem comunicados importantes que muitas vezes passam despercebidos para nós, e a libertação vem com o saber que é preferível "dançar para o caos à chorar o fim da trégua".



Tudo parece uma grande jornada de auto-descoberta, e as duas últimas faixas são um apanhado de tudo o que o protagonista enfrentou até aqui. Como um furacão misturando todas as sonoridades do álbum e o sentimento de aceitação, como uma meditação profunda e pesada, que chega ao fim com verdades aprendidas.

A El Paso! é formada por André Lucio (voz, backing vocals, guitarra, teclados, escaleta e bandolim), Anderson Ventura (guitarra, backing vocals e teclado), Rodrigo Oscar (baixo) e Rafael Cab (bateria e percussão). No SoundCloud da banda você pode conferir o álbum na íntegra e a ficha técnica com a galera que esteve envolvida em todo o projeto.

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