Benjamin: poesia bela e fascinante não só no papel

Porto Alegre, Brasil
Misturar coisas diferentes é o grande ponto comum da música contemporânea desde o movimento tropicalista dos anos 60. No centro desta mistura, a música brasileira presenciou as mais inusitadas combinações, em um cenário onde poucas delas foram realmente sublimes. Dona de uma mistura das mais bem-sucedidas, a banda Benjamin pescou um pedaço de cada componente da multifacetada brasilidade e transformou isso em uma sonoridade que, de tão homogênea, nem parece uma mistura. Aí dá pra perceber que é o talento que diferencia os exímios alquimistas dos criadores de franksteins.



Na estrada desde 2009, a Benjamin não se prende aos rótulos que sobrevoam a sua cabeça. Libertária em sua essência, mesmo em sua face mais romântica, a banda soube se esquivar das correntes que a rotulação rasteira poderia trazer. O som da quebra dessa correntes foi a origem de uma obra que passou por altos e baixos, mas que hoje experimenta o seu melhor momento. Produzido pelo premiado Mateus Borges, o EP lançado pelo grupo há pouco tempo rapidamente chegou a lugares e ouvidos bem distantes. Novos públicos passaram a entoar os versos do grupo e um horizonte promissor sorriu para uma banda que há tempos o merecia.

Conversamos com o grupo sobre este novo momento e sobre o que isso representa na trajetória percorrida até aqui. Com respostas assinadas por André Leguismo, Guilherme Pirillo, Maurício Ataíde, Maurício Zen e Miguel Bonumá, temos aqui um registro verbal importante sobre um grupo que sabe de onde vem, sabe o que faz e sabe o que quer, mas ainda assim sente prazer em se largar nos braços da arte para ver o que vai acontecer.



NEW YEAH - Vocês estão juntos desde 2009, e cinco anos é tempo suficiente pra que uma banda mude e se reinvente várias vezes - ainda mais no caso da Benjamin, que tem essa coisa mutante no DNA. Vocês já provaram em referências do reggae, do jazz, da MPB, da literatura clássica… atualmente, o que compõe a mistura sonora de vocês?

BENJAMIN - Realmente, nosso trabalho é uma grande mistura que é muito mais natural do que tropicalista. Não que isso seja uma crítica ao movimento de Caetano e Gil. Só que a gente compreende que lá em 68 houve uma necessidade de fazer aquela “geleia geral” pra romper paradigmas e preconceitos, bem ou mal interpretados. Isso levou a um “exagero sonoro”. Nossa mistura é fruto dessa libertação que nos propuseram. Tá muito na moda o sujeito se julgar eclético, mas às vezes isso se confunde com “ouvir rádio”, que toca de tudo um pouco, mas com o fundo pop quase sempre. Nossa proposta não é ser pop nem não-ser pop. A gente quer colocar da nossa “humanidade” na nossa música, usar da teoria musical pra refinar as canções dentro da proposta, mas não cair em virtuosismo técnico. E, por sorte, sempre tivemos bons mediadores para nos guiar por essa estrada, sem muros, sem cercas. Hoje, a gente tem uma base muito legal, onde várias influências coexistem livremente, dialogando e se respeitando. Não estamos querendo inventar nada, essa ambição nos soaria artificiosa. Não é só pegar a guitarra d’Os Mutantes, o baixo do Natiruts e a voz do Pavarotti, misturar e “tcharam... esse é o nosso som”. A banda precisa compreender o sentido, buscar um porquê, pra si pelo menos, no meio daquilo tudo. E essas influências são tão vivas o tempo inteiro que a gente nem saberia enumerar. A música vai surgir com o corpo, com a mente, com os instrumentos, com a interação. Se a gente acreditar que essa música é verdadeira pra nós, nós vamos tomar ela como nossa e tocar.



NEW YEAH - Os arranjos de vocês vieram ganhando em grandeza com o passar dos anos. "Marcha Cinza", "Noite Almirante" e "Milagre" são as canções mais sofisticadas que vocês já produziram. A mão do Mateus Borges influenciou nesse resultado? 

BENJAMIN - Sem dúvida. O Mateus é um grande profissional, de muita técnica e objetividade. O percurso dele dentro da música é maior que a soma dos nossos cinco. Ele trouxe nossa subjetividade pra dentro do real, do mercado, da expectativa dos ouvintes. Isso nos ajudou muito a pensar em elementos novos, sem que a música se sujeitasse ao “mais bem aceito”. Em nenhum momento transformamos nossa música apenas num produto a ser comercializado, mas ele nos ensinou a pensar mais no que aquelas músicas gravadas viriam a ser. Sem falar que ele sempre admitiu gostar muito do nosso som. Um cara que já gravou bandas com relativa fama dizer isso pra nós é sensacional. Isso nos motiva a querer fazê-lo surpreender-se, interessar-se, querer nos entender. Foi uma grande parceria.



Parceria afinada: o premiado produtor Mateus Borges (à esquerda) foi o condutor da Benjamin no minucioso processo de gravação do EP.

NEW YEAH - Pra vocês, qual o papel do EP recente na trajetória da banda? 

BENJAMIN - O EP é a materialização do que só se ouvia em rodas de violão, ensaio e shows. É o nosso lado de possível comercialização. Quando se toca num festival, é raro mais de cinco pessoas procurarem a banda depois na internet, mesmo gostando muito na hora do show. O EP possibilita, com poucos reais, a pessoa ter em mãos um objeto muito valioso, assim como é um livro. O EP são horas de criação, arranjo, técnica, repetição, instrumentos, arte gráfica, reflexão sobre identidade transformados num simples objeto de poucos reais. O valor simbólico dele é muito grande. Com esse EP, a gente quer sair tocando por aí, por todos os lugares que tivermos condições, pra divulgar nossa música, pra que outras pessoas se reconheçam nas nossas melodias, nas nossas letras, na nossa filosofia. É uma escada longa, alta, íngreme, cheia de obstáculos, e a gente quer subir os degraus, mas sempre um de cada vez, desfrutando de cada movimento.

NEW YEAH - A capa do EP é uma das mais interessantes lançadas neste ano. Quem é o autor do desenho? As imagens têm algum significado maior ou alguma relação com as canções? 

BENJAMIN - Esse capa teve uma repercussão bem legal! Quem criou a ilustração foi o Nico Coelho, da Musta, uma agência aqui de Porto Alegre focada no trabalho de assessoria de comunicação pra artistas e cultura em geral. A ideia da capa é a música transformada em vida, já que todas músicas tratam de sentimentos ou pessoas. Engloba também a ideia da criação de alguma coisa a partir da música. O layout veio depois, mas encaixa com a ideia de "pedaços" de um todo, e isso também foi usado na identidade visual de todas as peças do EP (site, cartazes, fanpage, etc).



NEW YEAH - As obras da Benjamin, especialmente no EP mais recente, são repletas questionamentos sociais. Quase sempre isso vem mais diluído, mas às vezes vem como um soco no estômago. Em "Milagre", por exemplo, o tema principal é o preconceito sexual e racial. Vocês acreditam na música como sendo esse veículo de expressão social? E é difícil pra vocês conciliar isso - o questionamento, a relevância, a expressão de ideologia - com a competência em fazer música pop? 

BENJAMIN - Pois é, essa questão da política, do viés social na música é bem polêmica. É a mesma coisa que aconteceu, por exemplo, na copa, entre quem torcia e não torcia pro Brasil. Uns vão te dizer: “tem que se saber separar as coisas”. Outros respondem “tudo é política”. A gente compreende que a coisa é muito mais complexa que essas duas afirmativas. E é justamente por isso que mostramos a nossa preocupação frente a essas realidades compondo músicas sociais (como "Milagre" e "Fantasma do Alagoas"), mas também deixando espaço para músicas de final de relação ("Marcha Cinza" e "Termo", dentre outras). As pessoas são complexas: não é por que fulano é de esquerda, partidário, tá no meio do protesto contra o aumento da passagem, que ele não tem problemas de ordem sentimental, problemas com os pais, alegrias com um único parceiro, enfim... esse é um dos pontos que a gente quer tocar: problematização. Na letra de "Milagre", você vai ouvir algo mais “soco no estômago” ("mas o que te afeta se eu quero homem ou mulher / não pode atribuir a fé”). Mas também tem o lado mais ingênuo-irônico ("alguém chegou ao trono de um rei, disse que o verdadeiro amor eu só encontro no perdão"). Apesar de essa primeira crítica a ortodoxia da igreja, logo em seguida vem: “hoje acordei e dei graças a Deus, viver é minha rotina”. A gente entende que ir contra católicos ou evangélicos é demonstrar o mesmo preconceito que muitos deles (não todos) têm pelos negros e homossexuais. Nosso preconceito é contra o preconceito.



NEW YEAH - O EP novo teve uma grande repercussão desde o seu lançamento - só "Noite de Almirante" já tem mais de 1800 plays no SoundCloud, mais do que qualquer outra canção de vocês já teve ali. Vocês esperavam por essa recepção? 

BENJAMIN - Sabe que, às vezes, a gente pensa que poderia tá fazendo mais, divulgando mais, se empenhando mais... e realmente poderíamos. Mas o show de lançamento do CD teve um peso muito forte. Foi muita gente e a platéia cantou várias músicas. Depois, muitas pessoas que não conheciam a banda buscaram conhecer só pelos comentários que o show gerou. Esses dias mesmo, o André (guitarrista) tava entrando no Diretório da Economia quando viu dois rapazes tocando "Marcha Cinza" em LÁ, um corrigindo o outro. E aí, sem saberem, eles perguntaram pro André se ele conhecia essa música. É o que eu disse: às vezes, parece que a gente poderia ter feito mais, mas as consequências parecem se manifestar em pequenas situações que a gente menos espera.

NEW YEAH - A partir dos bons resultados que vocês alcançaram, quais os planos para o restante de 2014? Músicas, shows, eventos… o que mais vem por aí? 

BENJAMIN - A gente quer se divulgar. Queremos tocar por tudo que é lugar, pra, ao mesmo tempo em que formos nos divertindo, conhecermos lugares novos, propagando nossa filosofia de música. Além de arrecadar uma grana para as próximas gravações. Estamos com outras oito músicas aguardando sua vez pra ir ao estúdio. Algumas a gente compreende que têm bastante potencial. O próprio Mateus já praticamente nos obrigou a gravar “Fantasma do Alagoas”. Só que, claro, nas condições modernas, de capital, a gente precisa conseguir fazer render um pouco o nosso trabalho pra conseguir executar essas gravações. Hoje em dia, pra pensar em viver de música, tem que pensar na banda também sob uma perspectiva de empresa, atribuindo cargos e fazendo planejamentos. Em alguns desses aspectos, nós ainda pecamos em termos de organização. Mas já sentamos e conversamos pra, a partir desse segundo semestre de 2014, todos se comprometerem com seus ofícios pra gente conseguir realizar esse sonho, que é tocar e conseguir se manter pra isso.

A Benjamin atualmente está na estrada divulgando o seu mais recente EP, que pode ser ouvido, baixado e compartilhado através do SoundCloud do grupo, de sua Fanpage no Facebook e do site oficial da Benjamin

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