Lítera: o retrato de um amor sem margens plácidas

Porto Alegre, Brasil
Era um dia frio, a escolha para o almoço foi um restaurante que se define como “natural sem ser radical”. A mesa da qual fiz parte era a mais barulhenta. O mais falante do grupo parecia saber tratar de qualquer assunto. E era incrivelmente falante. Passando de Los Hermanos e Roberto Carlos a antigos relacionamentos, ele falava de tudo. Certa hora, alguém fazia uma piada e ele fechava a cara. Por trás de todas as piadas, ele se levava muito a sério.



André tem mais ou menos a idade que Jesus Cristo tinha quando morreu e ressuscitou. Se isso fosse relevante, poderíamos falar mais de sua vida pessoal. Mas não faz diferença. Ele ganha a vida em uma pequena agência de propaganda no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. O capital simbólico e a felicidade da vida dele vêm de uma banda de rock nascida na capital. E é aí que a vida do André e o New Yeah se cruzam. Mais especificamente, a banda Lítera – que foi criada por iniciativa do André, que é vocalista e guitarrista – será o tema da nossa conversa.


Enquanto a banda se define como “dramática e romântica”, digo eu – com base no que me disse o André – que eles são a expressão de sentimentos. Porque eles têm aquela coisa de expressar sentimentos que todo mundo já sentiu em algum momento da vida, sabe?

Junto com ele, outros quatro cabeças constroem a Lítera. No baixo, James Pugens. Na bateria, Rodrigo Bonjour. Na outra guitarra, Thiago Marques.


Domitila, a marquesa de Santos: resgatada dos livros de história por uma das bandas gaúchas mais criativas e autênticas desta geração.

Para compor as letras das músicas autorais da banda, André se inspira nas cartas da amante do Dom Pedro I, a Domitila. “O que me chamou a atenção foi conversar com as minhas amigas e ver que as queixas se pareciam”, diz ele. E, quer saber? Parece que ele até captou o espírito.

Até o Paulo Rezzutti, autor de livros que narram e mostram várias das cartas inéditas entre D. Pedro I e a marquesa de Santos, comentou mais de uma vez nas mídias sociais sobre a grata surpresa que foi ver trabalho da Lítera sobre as cartas.

A banda tem dois EPs lançados até agora. O elo entre os dois é que ambos seguem uma linha bonita que narra o começo, o meio e o fim de um relacionamento. Cheio de orgulho, André narrou cada história das músicas dentro dos dois trabalhos.

A Marquesa, o primeiro EP, lançado em agosto de 2013, é animadinho. Na abertura, "Mergulho" mostra um amor que quer enfrentar dificuldades e ir longe, com todos os prós e contras. Em "Bercy", uma das músicas mais doloridas do trabalho, o fim parece estar próximo. "Domitila" é a decisão do fim, sem a dor da anterior. E "Sofá", a última música, é a caricatura deste fim.

O segundo EP, O Imperador, lançado em junho deste ano, é mais manso. Abrindo o EP com a frase que diz “Você quis ir fundo e eu fiquei no raso”, a música "Miúda" soa como um triunfo de um amor imperial. É a consolidação de um amor sonhado por muitas pessoas e que é assistido pelas pessoas deste império narrado na música.

Os versos que dão seguimento são uma grata surpresa. Com uma versão em balada da canção que ficou conhecida pelas vozes do Araketu, "Amantes" simboliza, dentro do disco, o início do desenrolar da história de Domitila. "Vai Passar", terceira canção, é um alento para o anúncio deste início de fim. Com oito palavras, "Mais Ainda", a última música deste EP, encerra a história de amor.



No mês de abril deste ano, a Lítera lançou o clipe de "Domitila". Sendo a primeira banda a usar o Tracking 3D e efeitos visuais, as imagens do vídeo foram gravadas no dia mais frio do ano de 2013, no aeroclube de Eldorado do Sul. A ideia, me disse o André, era encontrar um lugar que se parecesse com a Estrada Real, no Brasil Imperial.


Resumindo um amor que durou sete anos (o de Dom Pedro I e Domitila), a Lítera parece resumir muito mais anos de amores. Não fazendo a transcrição do que dizia o casal há mais de 200 anos, e colocando toda a criatividade na composição das letras, muitas cartas de amor poderiam ser escritas e lidas a partir destes dois EPs.

Para saber mais sobre banda e dos seus trabalhos, basta clicar nesse site litera.mus.br/, ou nesse soundcloud.com/literarock, ou nesse aqui www.facebook.com/literarock.

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