Manaus em cena: uma nova toada no pulmão do mundo

Manaus, Brasil
A partir de hoje, uma parte da música que toca na região norte do Brasil chega ao lar do New Yeah Música. Mas calma, ainda não vamos brincar de boi bumbá com o Garantido e o Caprichoso (até porque o mês do festival já passou)¹. Mais especificamente, falaremos das bandas que movimentam a cena alternativa de Manaus, capital do estado do Amazonas. O que traremos a este espaço democrático da web é uma mistura do indie, do rock, do reggae, do pop e dos outros inúmeros estilos que compõem a música independente da capital do mais extenso estado do país.

Nota do editor: Nathane Dovale é jornalista e estudante de teatro da UEA. Repórter do Diário do Amazonas, ela conheceu o New Yeah através de uma matéria com a Banda Andeor e topou o desafio de contar em detalhes para os nossos leitores, através de uma série de matérias, o que anda acontecendo com o rock e a música alternativa brasileira lá para os lados da Zona Franca.




Conhecida pelo sucesso da música de Belém, a região Norte vê Manaus aos poucos se jogar ao pelotão de frente da produção local. 

Apesar de todo seu desenvolvimento econômico, Manaus tem uma cena artística em construção. Mas pode-se considerar que a música foi um dos campos que mais se desenvolveu por aqui ao longo dos últimos cinco anos. Isso não só por fruto do trabalho das bandas - hoje mais estimulado, produtivo, organizado e mergulhado na ideologia do Do It Yourself - mas por conta de festivais como Até o Tucupi, Grito Rock, Maroca Rock Fest, Mama Rock e Pirão, que conseguiram potencializar o movimento musical da cidade.

Se hoje você, que não é de Manaus, não consegue lembrar de alguma banda da capital amazonense, pode ter certeza que tem um pessoal por aqui fazendo de tudo para mudar isso. Até porque com o declínio da indústria fonográfica, ocorrido na última década, e o poder de divulgação da internet, várias bandas independentes do Norte puderam encontrar o seu público no nicho alternativo. Um exemplo disso é a saudosa Madame Saatan (infelizmente, em hiato), de Belém (PA), o som encantador de Felipe Cordeiro (também de Belém) e a grande prova de que o Acre existe e manda bem demais, com Los Porongas, de Rio Branco (AC).

Quando falo que tem um pessoal se movimentando para colocar Manaus nessa lista de bons nomes, provo dizendo que há, hoje, mais de 15 artistas em fase de produção de álbuns, e projetando a divulgação de seus trabalhos para os próximos meses. Além da produção, grande parte dessas bandas estão rodando Brasil afora, em turnê e também fechando contratos com respeitadas gravadoras. Dentre os nomes que provavelmente poderá aparecer em breve, está a banda experimental-regional Alaíde Negão, que traz em seu som uma mistura de rock, soul, funk e carimbó - ritmo característico das tribos indígenas do norte do Brasil.



Com um contrato recentemente fechado com a gravadora Deckdisc, do Rio de Janeiro, a Alaíde se prepara para lançar o seu primeiro álbum em setembro. “As coisas foram acontecendo de uma forma natural. Não pensamos 'vamos fazer sucesso'. Sempre nos preocupamos em levar a bandeira de uma banda de Manaus, porque é aqui que as pessoas cantam a nossa música. Não adianta pensar em uma carreira nacional ou internacional se não te conhecem na tua cidade. Foi a partir disso que as coisas foram dando certo lá fora”, contou o vocalista da banda, Davi Escobar.

Além de lotar shows em Manaus tocando apenas músicas próprias, a Alaíde Negão já esteve em alguns dos principais palcos do país, como o Sesc Pompéia, em São Paulo, além de ter sido uma das bandas escolhidas para gravar um programa completo no Showlivreday (festival do site de música Showlivre).

Outra banda de Manaus que andou mostrando o seu talento pelo Brasil foi a Malbec. Além de ter tocado na Feira da Música de Fortaleza em 2013, a banda fez dez shows em oito cidades do Sul e do Sudeste do país com seu último álbum, Paranormal Songs. Nos últimos meses, a Malbec entrou novamente em estúdio, e agora se prepara para lançar, em janeiro de 2015, o seu segundo disco.



"Somos formiguinha de música. Nosso negócio e nosso prazer é fazer música. Sempre pensei que, se eu quisesse ser reconhecido, eu precisaria primeiro ser aceito pela música", afirmou o vocalista Ian Fonseca, dando destaque ao cuidado quase artesanal que a banda aplica em suas canções. "Nosso novo disco é radicalmente diferente do primeiro, que foi lançado nas coxas. Provavelmente estaremos em turnê logo em sequência ao lançamento do disco”.

Na mesma onda alternativa, surfa a Luneta Mágica, que também se prepara para lançar o seu novo álbum em 2015. No ano passado, a banda se apresentou no Studio SP, em São Paulo, e na cidade de Curitiba, no Paraná. Cada vez mais popular, o grupo foca muito em sua produção musical, e acredita nela para estabelecer uma boa relação com o público.

"Muitas bandas se preocupam demais com estratégias mirabolantes de lançamento, distribuição, circulação... e a música fica em segundo plano. Pensamos que a banda cria um fã quando faz música legal", defendeu, Diego Gonçalves, vocalista da banda. "O que a Luneta pretende fazer, em termos de estratégias para ser bem sucedida, é lançar um bom disco, produzido com cuidado, e daí planejar uma turnê, um clipe, e essas outras coisas".



Chegando no ritmo do reggae, há 15 anos na luta como banda independente, a Johnny Jack Mesclado acabou de lançar o disco De Fone Pro Mundo. Para Tennessee Nogueira, vocalista da Johnny, a organização é a chave para que os grupos de Manaus ganhem mais espaço no restante do país. "Em Manaus, ainda estamos aprendendo como fomentar cultura, como descentralizar também. O Amazonas é um estado riquíssimo culturalmente, mas não há diálogo. Então, para mim, é um processo natural. Podemos perceber que várias bandas daqui já estão circulando mais que em qualquer outra época".



"Manaus é um nicho a ser explorado", avalia o produtor cultural Beto Contartesi, recém chegado de Recife, que agora tem uma produtora na capital amazonense. "Ainda não existe uma cadeia produtiva de bandas na cidade, e isso dificulta. Mas Manaus é muito orgânica, e o público consegue aceitar bem as bandas autorais. Não basta apenas talento, o trabalho ainda está disperso, então é uma construção que ocorre aqui, no qual quem determina o sucesso é a cadeia de artistas, junto com empresas que conseguem patrocinar, junto com a imprensa, e, claro, o público".

E é nessa promessa otimista que o New Yeah embarca a partir de hoje. Essa é a primeira das matérias que publicaremos contando o que há/houve de mais legal na cena da capital do Amazonas. Espero que vocês gostem, contribuam, opinem, e, principalmente, ouçam o que temos para cantar, tocar e gritar.

Referências: 
[¹Os bois Garantido e Caprichoso fazem parte do Festival Folclórico de Parintins, município do Amazonas. O festival se tornou um dos maiores divulgadores da cultura local, reconhecido mundialmente.] 
FanPage da produtora de Beto Contartesi, a JACC Produções.

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