A Séquito e a vida longa para além do discurso

São Gonçalo, Brasil
Viver em um país onde 50% das pessoas jurídicas encerram atividades antes dos três primeiros anos de vida explica porque o mercado, em seus mais diversos nichos, muda de ideia com tanta rapidez. Essa montanha russa, lógico, não está restrita ao meio empresarial. Nas artes, podemos presenciar um show business onde o sucesso é cada vez mais passageiro e a cultura pop cada vez menos generosa com os seus nomes. Vivendo em paralelo a isso tudo, o underground consegue o quase milagre de manter artistas por longos períodos na ativa. Fundada em 2004, a banda Séquito é um desses casos. Em 2015, a banda de São Gonçalo/RJ entrará na sua segunda década de vida revigorada pelos erros e acertos de uma caminhada recheada de microfonias.


No Rio de Janeiro se compõe samba e bossa nova, e isso a TV não nos deixa esquecer. Carlos Vinícius Ribeiro, guitarrista, vocalista e compositor à frente da Séquito desde sua fundação, ressalta que a música alternativa também tem tido sua parcela de protagonismo no estado, e que nomes como Picassos Falsos, Los Hermanos e Planet Hemp abriram o caminho para que setores artísticos menos comerciais também tivessem maior espaço na mídia ao longo dos últimos dez anos. 

"A nossa sobrevivência vem da necessidade de continuar criando, mesmo. Acho que enlouqueceríamos se tivéssemos que parar."
New Yeah - A Séquito entra na sua segunda década de atuação em 2015. Como é ter vida longa em um país de coisas tão passageiras? Nem bandas de grande sucesso comercial alcançam tanto tempo de estrada.
Carlos Vinícius Ribeiro - Acho que muitas bandas de sucesso acabam permitindo que a preocupação de se manterem no mercado comprometa a qualidade de suas músicas. As bandas independentes - pelo menos, as que não estão desesperadas para se tornar mainstream - parecem mais à vontade para seguir desenvolvendo sua sonoridade sem deixarem de ser autênticas e honestas com o seu próprio trabalho. Desse modo, o underground acaba parecendo mais confortável em alguns aspectos, pois a pressão é menor. Concordo que este seja um país de coisas passageiras, mas é difícil abandonar uma coisa que se ama. Arrisco dizer que a nossa sobrevivência vem da necessidade de continuar criando, mesmo. Acho que enlouqueceríamos se tivéssemos que parar. Provavelmente, por isso, nunca tivemos desafios que pudessem nos tirar da atividade. A única questão que atrapalha um pouco é a distância, pois entre o Bruno e o Vander (baixista e baterista da Séquito, respectivamente) há uns noventa quilômetros de estrada, e eu estou mais ou menos no meio do caminho. Apesar disso, temos conseguido manter uma regularidade de ensaios, na medida do possível.

NY - Recentemente a banda carioca The Outs chegou à final do Breakout Brasil. Um pouco antes disso, o músico Rogério Skylab passava a ganhar espaço na TV. Vocês sentem que hoje o rock alternativo produzido no Rio tem mais espaço nas rodas culturais e na própria mídia? Qual a diferença entre fazer música alternativa no Rio de 2014 e no Rio de 2004?
CVR - Confesso que tenho certa dificuldade em ver alguma relação entre as bandas do Rio de Janeiro que conquistam seu espaço na mídia. Pode ser questão de ângulo, pois daqui não tenho uma noção tão apurada sobre o tamanho dessa projeção ou como o som do Rio é percebido; mas, embora eu costume notar identidades musicais mais homogêneas em outros estados - assim como uma quantidade maior de bandas com visibilidade - acredito que o Rio de Janeiro venha conseguindo manter uma representação relevante, desde Picassos Falsos e Hojerizah nos anos oitenta, passando por Planet Hemp e O Rappa nos noventa; na década seguinte, Los Hermanos e Moptop, seguidos mais recentemente por Medulla, R. Sigma e Cícero... acho que a música alternativa de modo geral tem mais espaço na mídia hoje do que em 2004. Há dez anos, o cenário do rock nacional veiculado pela grande mídia possuía um apelo muito pop, com uma série de bandas inconsistentes apresentando melodias e arranjos previsíveis acompanhados por letras profundas como um pires. Então, ver uma banda com a qualidade de uma The Outs ganhar espaço hoje é louvável. Adoro Rogério Skylab, especialmente seus álbuns mais antigos. Não sabia dessa atual popularização do trabalho dele. Fazer música alternativa hoje ainda é estranho, mas não é equivocado dizer que há uma abertura maior.

OBS: em 2014, Rogério Skylab teve especial visibilidade ao conduzir outra temporada do programa de entrevistas Matador de Passarinho, no Canal Brasil, onde recebeu nomes como PC Siqueira, Eduardo Sterblitch, Edu K, Serguei, Júpiter Maçã, Agnaldo Timóteo, Elza Soares e Pablo Capilé.


O power trio carioca em ação sob os olhares atentos da platéia: contradizendo os números do mercado, há uma década esta cena se repete nos espaços alternativos do Rio de Janeiro.  

NY - A Séquito tem poucas músicas na web. Ao todo, um disco de raridades e o EP Na Urdidura do Mundo; curiosamente isso tem sido o bastante para gerar uma agenda de shows que coloca vocês em movimento pela cena independente da região. Por que essa escolha por trabalhar em pequenos lançamentos?
CVR - Ocorre que temos bastante material composto, arranjado e ensaiado, o que nos permite a montagem de repertórios variados, que se adaptem melhor às características de cada evento; porém, não dispomos ainda de gravações satisfatórias dessas canções. Nem o EP Na Urdidura do Mundo ficou do jeito que gostaríamos, mas o processo já havia sido tão desgastante que resolvemos deixar para lá todos os erros e fechar o projeto daquele jeito mesmo. Por isso, nem chegamos a divulgá-lo de maneira mais efetiva. Temos planos de gravar um álbum cheio. Sentimos falta de algo assim, que possa emitir uma demonstração mais abrangente do que fazemos; um recado mais completo sobre o que pensamos e sentimos, e através de quais formas expressamos isso. Entretanto, a proposta inicial ainda é continuarmos apostando em formatos menores por enquanto, experimentando até encontrarmos o lugar ideal para gravar esse trabalho mais longo.

NY - O EP Na Urdidura do Mundo, de 2012 é, disparado, o produto mais notável da banda. Nele, está a canção "O Diabo Está Tocando Piano", que é a mais executada de vocês e que ganhou uma espécie de clipe produzido em 2013 com imagens das manifestações de junho daquele ano. Esse som já nasceu pensando na temática da violência policial ou essa ligação de música e tema ocorreu só depois?
CVR - Normalmente, quando apresento uma nova canção para o Vander e o Bruno, não tenho o costume de dizer sobre o que é a letra, ou qual foi a inspiração ou coisa parecida. Não discutimos muito a temática por trás do discurso. São raras as vezes em que apresento a eles, ou às pessoas que nos acompanham, minha visão particular sobre o que escrevi, pois acho que isso inibe as interpretações e limita a canção a uma única possibilidade. Adoro quando, mais tarde, algum deles me conta a impressão que teve, o sentido que fez, que tipo de imagem veio à cabeça, essas coisas. No caso de "O Diabo Está Tocando O Piano", o clipe foi uma leitura do Bruno, absolutamente livre, tanto que o Vander e eu só vimos o vídeo quando já estava no YouTube. Achei o máximo, porque foi uma tradução muito distante da ideia original e, no entanto, casou perfeitamente. Algumas pessoas que haviam assistido ao vídeo e depois foram nos ver ao vivo chegaram a me perguntar se o diabo em questão era o prefeito Eduardo Paes, ou o governador Sérgio Cabral. Na época, e eu dizia que "também, entre tantos outros"


NY - E por quê a música recebeu esse nome?
CVR - Essa canção é sobre aquele momento no qual se tem a impressão de que a maldade está vencendo. Chegar a algum lugar e perguntar "quem é que toca o piano ali" é querer saber quem está mandando naquela situação - é uma espécie de gíria da malandragem velha guarda. O incidente que provocou em mim, por um instante, essa impressão de que talvez o Diabo estivesse conduzindo a dança foi um assalto em frente a minha casa, ocasião em que meu irmão mais novo, mesmo sem ter reagido, acabou levando um tiro à queima-roupa de raspão na cabeça, tendo como danos apenas um tímpano perfurado e um corte superficial, provocado pela bala.

NY - Em 2015, como comentamos, a banda iniciará a temporada como uma das mais experientes da cena alternativa fluminense. Vocês preparam algo para marcar os 10 anos da banda? Quais são os planos para o ano?
Fizemos uma apresentação comemorativa no mês passado, no mesmo lugar em que havíamos tocado pela primeira vez, em dezembro de 2004: o Metallica Pub, praticamente o último reduto realmente underground de São Gonçalo. Fizemos camisas e um CD especial com catorze faixas em setenta e oito minutos de gravações raras da banda ao longo desses anos, e um quiz para sortear esses itens só com perguntas sobre coisas de dez anos atrás, como o nome da comunidade da banda no Orkut, por exemplo! Para o primeiro semestre de 2015, os planos envolvem gravar um novo EP e dele fazer dois vídeos, pelo menos. Existe também a possibilidade de um outro EP, dessa vez temático, para uma canção em quatro capítulos que já está composta mas ainda não foi executada, então isso dependerá de como ela vai funcionar na prática.

Para continuar acompanhando as atividades de comemoração dos dez anos da banda, confira o site da Séquito, onde é possível encontrar informações sobre o pessoal e links para as mais diversas redes sociais onde a banda está presente.

O que você achou disso?

Leia também:

Jim Morrison, morreu mesmo?

Histórias mal contadas, boatos estranhos surgidos com o tempo e possíveis reaparições após a morte até hoje criam muitas teorias em torno da morte do líder do The Doors. Continue lendo

Copyright © 2013 New Yeah Música, todos os direitos reservados.