O álbum triplo que fez George deixar a vergonha de lado

Londres, UK
Não são poucas as pessoas que entregam a "Something", do álbum beatle Abbey Road, o título de maior canção apaixonada de todos os tempos. Lançada em 1969, a canção escrita e musicada por George Harrison conquistou admiradores em todo o mundo, transcendeu as barreiras da beatlemania e chegou, ainda nos anos 60, ao repertório do imortal Frank Sinatra. Para George, isso estava longe de ser reconhecimento o bastante. Conta a lenda que, em determinado show, Sinatra inclusive havia apresentado "Something" ao público como sendo "a mais bela canção já escrita por Lennon e McCartney". Os anos à sombra dentro dos Beatles haviam delegado a George um status de ilustre desconhecido, e isso precisaria ser contornado já no seu primeiro álbum solo após a separação do maior grupo de todos os tempos.



George sempre fora um menino talentoso e quieto que preferia falar somente através da música, o que o colocava à margem da nuvem de egos integrada pelo místico John, pelo carismático Paul e pelo brincalhão Ringo Starr. Conhecidos por seu frenesi pop quase tanto como por sua música, os meninos de Liverpool também viviam de imagem, e George, lógico, estava em larga desvantagem diante dos fãs e da mídia - e nem canções suas como "Here Comes The Sun", "Taxman" e "While My Guitar Gently Weeps" puderam mudar de fato a sua visibilidade dentro do grupo. Em 1970, amargurado pelo fim dos Beatles e esquecido por boa parte dos fãs, George começou a arquitetar o que depois se tornaria o álbum TRIPLO (!) All Things Must Pass.

O que para os amigos se mostrava uma empreitada muito ousada, para George parecia uma tarefa bastante natural. Produzir um disco triplo logo em sua primeira investida solo era simplesmente entrar em estúdio e gravar todas as canções que ele havia composto ao longo dos últimos dez anos e que nunca haviam tido espaço em qualquer álbum dos Beatles. Garantida a quantidade de canções, era a vez de garantir a qualidade delas, e, para isso, George foi buscar parceiros aproveitando-se inteligentemente das portas abertas pelo sucesso de sua ex-banda, angariando então nomes como Bob Dylan, Billy Preston, Peter Frampton, Ringo Starr e, principalmente, o produtor Phil Spector. Desafeto de Paul e amigo próximo de George, Phil se tornaria um fiel confidente durante todas as gravações e seria grande responsável pelo impacto que aquelas canções causariam ao início dos anos 70.

Com o single "My Sweet Lord", George superou John e Paul, tornando-se o primeiro beatle a ocupar o topo das paradas britânicas com uma canção solo.

O resultado foi um disco bastante complexo, mas de impacto imediato. "My Sweet Lord", o primeiro single do trabalho, escalou as paradas da Grã-Bretanha e atingiu o primeiro lugar em janeiro de 1971. Carregada do misticismo krishna que marcou a fase derradeira de George na banda, a canção foi a primeira de um ex-beatle a ocupar o primeiro lugar que tantas vezes o quarteto de Liverpool ocupara entre 1963 e 1970.

"Wah wah" era quase uma resposta a "Helter Skelter", e mostrava que o beatle das canções macias e melancólicas poderia ser pesado também se o show business lhe abrisse espaço. "All Things Must Pass", canção que dava título ao trabalho, mostrava George mais maduro do que nunca ao falar de forma otimista sobre o futuro que o abraçaria quando fosse o momento certo. Nenhuma canção, no entanto, foi mais marcante que a exuberante "Awaiting On You All".

George era introspectivo até quando trabalhava em parceria com alguém. Conhecedor do processo criativo do beatle quieto, Phil Spector aceitou produzir à distância algumas das canções. "Awaiting On You All" foi uma delas. Em passagem registrada no livro 1001 Músicas Que Você Precisa Ouvir Antes de Morrer, Spector teria enviado uma carta a George pedindo para que ele gravasse a voz de forma menos abafada. Uma vez gravadas as demos, Spector apropriou-se do som e sobrepôs incontáveis camadas instrumentais com cordas, guitarras e percussões gerando uma canção densa como nunca fora uma faixa beatle até então. Imponente diante do passado, o disco All Things Must Pass então cumpria o seu karma: George finalmente parecia tão grande como de fato era.



Inicialmente um veículo oportuno para incluir canções antigas, como declarou o próprio George em 2000, All Things Must Pass continuou rodando o mundo e perpetuando o talento de seu criador. Com o tempo, se tornou um dos discos mais vendidos dos anos 70 e, mais recentemente, entrou para a lista dos 200 álbuns definitivos do Rock and Roll Hall of Fame.

Frank Sinatra, entoando "Something" através das décadas, morreria em 1998 sem nunca corrigir ou admitir os créditos errôneos da noite em que cometera uma das maiores gafes da história do rock. O esforço de Sinatra em não tocar no assunto faria com que o acontecido tomasse ares de lenda. Até hoje, é difícil encontrar uma fonte segura que afirme a data ou o local do acontecimento. Se fala muito que o show teria acontecido em solo norte-americano, afinal, era lá que o cantor possuía boa parte de seu fiel público. E se fala muito que isso teria acontecido antes de 1971, afinal, ninguém ousaria desconhecer qualquer mérito de George Harrison depois deste ano.

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