Entre Charlie Hebdo e Yusuf Islam, prefiro ser o segundo

Porto Alegre, Brasil
Yusuf Islam, talvez o artista islâmico de maior renome no Ocidente, entrou no mundo da música com o nome de Cat Stevens. Assinando discos com o seu codinome ocidental, emplacou alguns de seus maiores sucessos, colocou o disco Tea for the Tillerman no Rock and Roll Hall of Fame e deu ao mundo o hit "Wild Word", um dos maiores estandartes pops dos anos 70. Convertido ao Islã em 1978, passou a usar os seus discos como meio de disseminação do Alcorão. Tornou-se um dos maiores filantropos da Inglaterra, fundador de três escolas e de uma ONG reconhecida pela ONU. Ajudou jovens órfãos vítimas da guerra no Iraque e na antiga Iugoslávia. Ainda recebeu em 2004 o renomado prêmio Man Of Peace em reconhecimento a sua luta pela paz mundial, e isso não impediu que o serviço de segurança norte-americano vetasse a sua entrada no país no mesmo ano, alegando que o cantor poderia ter relações com o terrorismo. Ligar a história de vida de Yusuf Islam aos esforços midiáticos sobre o Caso Charlie Hebdo nos ajuda a perceber que o mundo ocidental ainda não está pronto para conviver com a diversidade e a quebra de conceitos generalistas.


Não é preciso muito esforço pra notar que o 11 de setembro de 2001 e as suas torres em chamas serão traumas vivos no subconsciente coletivo do planeta por muito tempo, mas é preciso saber até onde um subconsciente é trauma e onde ele começa a ser simplesmente um preconceito alimentado por setores que têm interesse no mesmo. Tendo essa questão em mente, é interessante revisitar alguns momentos da história recente e perguntar se o crachá de violência pendurado sobre os muçulmanos faz sentido, ou se é só o produto de um discurso repetido à exaustão por pessoas que se fortalecem a cada queda moral do Islã. Na França, por exemplo, a ascensão dos partidos de extrema direita tem ligação direta com a queda de popularidade dos islâmicos que habitam o país. Em ações de campanha que não têm a mesma cobertura midiática do atentado recente, candidatos conservadores declaram-se abertamente dispostos a "combater o islamismo", gerando uma reação em cadeia que encurrala os muçulmanos franceses diante da opinião pública. Então, até onde é ético lutar por liberdade e, ao mesmo tempo, se colocar cegamente em favor de uma publicação que tantas vezes alimentou o ódio desse discurso quase hitleriano? Será que estamos mesmo defendendo a liberdade, ou estamos só reproduzindo um discurso que os conservadores colocaram nos nossos cartazes?


"Le Coran C'est de La Merde" / "O Alcorão é Uma Merda", em português: a capa que mostra um muçulmano sendo alvejado por tiros é só mais uma das peças que o Charlie Hebdo colocou, intencionalmente ou não, à serviço da extrema direita francesa. 

Observar o fenômeno cultural islâmico não é tarefa das mais fáceis, até porque habitamos uma parte do mundo onde a produção dos seguidores de Maomé não tem grandes admiradores e difusores. Ainda assim, obras como a de Yusuf Islam dão pistas interessantes de que o islamismo não tem nada de muito anormal em relação as formas de religião que não sofrem a mesma perseguição da mídia e dos setores mais influenciáveis da nossa sociedade. Há, sim, no livro dos muçulmanos, algumas passagens permeadas pelo machismo e pela violência, mas os livros sagrados de cristãos e judeus não são muito diferentes disso. A morte não é patente do Alcorão, e a recorrência da palavra "sacrifício" em passagens do Velho Testamento mostra que só liga a barbárie exclusivamente ao Islã quem tem muita preguiça de pesquisar e pensar por conta própria.

Os políticos conservadores da França fazem da perseguição aos muçulmanos uma política de governo, mas ninguém se incomoda com a violência que isso representa.

Perceber a forma como Yusuf Islam canta o amor, dando continuidade a uma linha sempre presente nos artistas do Islã, ajuda a notar que o terrorismo não é a regra, mas a barulhenta e rara exceção - o momento onde o amor é substituído pela manifestação da intolerância. Indo além, cabe à nossa análise crítica pensar se as manifestações violentas de intolerância são exclusividade dos muçulmanos, ou se elas estão presentes também na perseguição de grupos cristãos brasileiros aos direitos LGBTs, por exemplo, que também gera mortes em larga escala. E cabe voltar um pouco na história pra lembrar a expansão dos impérios europeus sobre áreas muçulmanas no passado, dizimando em guerras e cruzadas um número humano que nem o mais eficiente dos terroristas conseguiria igualar.

Enquanto escrevo esse texto, aparece no meu feed de notícias uma matéria da BBC na qual o cientista político Stéphane Monclaire fala de como a cobertura ao atentado da última semana deve favorecer a conservadora Front National nas próximas eleições. Mais cedo, Diego Bercito, enviado da Folha à Paris, publicou um texto que mostra como os muçulmanos franceses vivem cada vez mais acuados à medida que o discurso nacionalista da direita se expande baseado na desgraça. Na TV, os holofotes ainda estão sobre a criminalização da fé muçulmana, e, quando os holofotes apontam todos para o mesmo lugar, eu geralmente aponto para a pulga que fica atrás da minha orelha.

Por que a mesma sociedade que pede liberdade de expressão aos cartunistas não é capaz de reconhecer o direito de individualidade que cada cidadão possui, preferindo rotular todo um extenso coletivo com base na ação de dois ou três fanáticos? E, se nos consideramos tão conectados, por que não procuramos conhecer todas as faces da verdade antes de levantar cartazes que podem se transformar em gafes amanhã? E por que nos interessamos tanto pela carnificina muçulmana e nunca procuramos ouvir falar de grandes muçulmanos que lutaram pela paz, como é o caso de Yusuf Islam, ou mesmo de Muhammad Ali, expoente da luta contra o racismo nos Estados Unidos e ativista pelo fim da Guerra do Vietnã nos anos 60?


A QUEM SERVE O ÓDIO PELOS MUÇULMANOS? O PERSONAGEM MANDARIM, ANTAGONISTA DO HOMEM DE FERRO: desenhado originalmente como um chinês - como o próprio nome sugere - o vilão ganhou barba longa, sotaque árabe e metodologia terrorista na adaptação para o cinema.

Se é possível extrair algo de bom de todo esse barulho, podemos ao menos concluir que o cidadão médio agora é contra a violência. Ou pelo menos é contra certos tipos dela, afinal, há quem defenda a ação de "justiceiros contra bandidinhos" e ainda assim ache um absurdo a resposta violenta dos islâmicos ao desrespeito que eles sofrem diariamente ao redor do mundo. Mas, sim, em geral, estamos criando um asco pelas resoluções violentas, e isso me interessa profundamente. Agora, é necessário que entremos nessa nova fase da forma mais racional possível. Gritemos, sim, por menos violência e por liberdade de expressão, mas gritemos também, tão alto quanto, pelo direito de individualidade; pelo respeito à fé ou ausência de fé alheia; pelo fim de generalizações como "os negros", "os roqueiros", "os funkeiros" ou "os muçulmanos". Não vamos perder tempo endossando o discurso de ódio, nem timidamente, porque esses pequenos tijolos que fixamos com opiniões vazias constroem um muro que, mais cedo ou mais tarde, cai sobre a cabeça de alguém. Tenhamos um olhar crítico quando a violência se anuncia, mas não deixemos que o preconceito, que teima em ver ódio, nos impeça de ouvir e identificar aqueles que também admiram o amor.

Entre Charlie Hebdo e Yusuf Islam, prefiro ser o segundo.

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