Por que ouvir? II, segundo disco da Lindberg Hotel

Curitiba, Brasil
No final de 2013, o New Yeah conheceu o paranaense Claudio Romanichen, musicista de longa data que havia reunido um apanhado de composições e produzido um dos grandes discos que passaram pelos ouvidos da nossa redação naquele ano. Tudo ali era produzido por ele mesmo, no interior da sua sala caseira de gravação, misturando referências lo-fi e shoegazer com uma voz suave e calma. Passada a repercussão do debut, uma nova leva de composições entrou em processo de finalização e, no início de novembro passado, foram ao ar as dez faixas inéditas do disco intitulado II. O novo registro mantém a mesma estética visual e conceitual do primeiro trabalho e, logo, já nasce com o enorme peso de ser um complemento da obra anterior.

II - Lindberg Hotel

Ainda que o próprio autor goste de tratar II como uma obra complementar, o lançamento mais recente vem carregado de novas características que são notáveis já na primeira audição. "Man Got To The Moon Blues", canção que abre o disco, é uma balada que lembra muito as influências costumeiras do Jesus and Mary Chain, mas ganha uma leveza ainda maior, com sons de sintetizadores acompanhando a sujeira das camadas de guitarra, saindo um pouco da influência shoegazer apresentada no primeiro disco e caminhando por um terreno um pouco mais ensolarado. Isso fica ainda mais evidente em "Status Quo", segunda canção do álbum, que tem um som menos introspectivo, com solos de guitarra complementando versos, acordes mais limpos, bateria mais rítmica e um refrão fácil de ser lembrado.


Em seu segundo trabalho, a Lindberg Hotel está mais livre e firme para experimentar o novo sem abandonar a sua coerência estética.

Dando continuidade à audição, chegaremos na terceira faixa, que mostra bem a nova fase da Lindberg Hotel. Bebendo de fontes psicodélicas, "Golden Gate Bridge" mistura um vocal mais suave, com menos camadas, a um arranjo bem mais complexo do que o habitual. Aqui, a parede de guitarras dá lugar a violões - bases limpas com um leve toque de delay e riffs constantes quase sem nenhuma distorção. Para fechar a complexidade da faixa, o loop contínuo ao fundo da canção, é, na verdade, a linha de guitarras de "Man Got To The Moon Blues" tocada ao contrário, lembrando efeitos usados em músicas da era mais experimental dos Beatles e samplers do último disco dos ingleses da Temples. As novas fontes aparecem também em "Beatles Posters". Baixando a guarda das guitarras e trabalhando em percussões mais acentuadas, a canção conta com uma introdução guiada pelos sons de bumbo e surdo. Logo depois, ganha um riff transitório e leva o ouvinte a uma viagem leve, misturando sons de metais a referências folks, sempre evidenciado os vocais. Talvez esteja no tratamento das vozes o grande diferencial de II, que, desta vez, em diversas faixas, optou por uma mixagem menos embaralhada que deixou as palavras mais nítidas e os timbres mais aparentes.


Voltando as raízes barulhentas, mas mantendo a inovação nas referências, "Sittin by the Sea" apresenta a sujeira das guitarras misturadas a leveza do dreampop. "Spoiled Childs", pisa ainda mais fundo no pedal de distorção, mesclando referências pop com um pouco de noise, lembrando o sucesso "You Really Got Me", dos Kinks.

"Cotton Chains" consegue levar a Lindberg Hotel a novos caminhos, explorando a imensidão dos arranjos mais expansivos, lembrando a mistura de ousadia e grandiosidade do Arcade Fire e conversando com as raízes dreampop do Yo La Tengo - sempre um catálogo grande de referências em uma mistura que faz jus a muita coisa sem deixar de soar original.


Fechando o registro, ainda há uma trinca com itens bem distintos. "Beggar Friend", carregada de solos com referências do blues; "Right", com uma bateria pós-punk; e "Funeral Party", introduzindo uma porrada de guitarras com um leve solo de violão. Um trio de canções resume bem a viagem proposta pelo novo mundo da Lindberg Hotel - um lugar com novas referências, maior liberdade e firmeza para experimentar sem abandonar a coerência estética já firmada até aqui.



II, de maneira geral, marca a evolução musical da LH até aqui, trazendo composições que nitidamente passaram por um maior tempo de maturação e por uma produção mais elaborada. Enxergar a solidez do segundo trabalho ajuda a entender a importância do primeiro enquanto instrumento de geração de confiança. A confiança adquirida está exposta em músicas menos introspectivas que já levam o projeto a um segundo estágio artístico e a um novo momento de reconhecimento e organização, simbolizado pela parceria junto ao selo pernambucano Transtorninho Records, que trará ao som de Claudio Romanichen uma visibilidade bem maior ao longo de 2015. Tomara que essa visibilidade renda fãs pelo Brasil assim como rendeu na redação do New Yeah.

Para acompanhar a continuidade do projeto e as novidades de Claudio Romanichen à frente da Lindberg Hotel, você pode seguir a página do projeto no facebook e ouvir os dois discos já lançados no bandcamp.

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