Subtropicais, mais um notório produto da modernidade

Porto Alegre, Brasil
Stuart Hall, grande estudioso do período pós-moderno e um dos grandes expoentes dos estudos culturais britânicos, certa vez afirmou que "a sociedade moderna não é apenas um rompimento impiedoso sobre toda e qualquer condição precedente, mas um período caracterizado por um processo de rupturas e fragmentações". Traduzir os conceitos do importante sociólogo jamaicano em palavras palatáveis tem sido um dos grandes desafios da última geração de autores do tema, mas traduzir as mesmas palavras em música foi tarefa que a banda Subtropicais conseguiu fazer com extrema facilidade em seu terceiro disco, Produto da Modernidade, lançado no final de 2013.

Subtropicais, produto da modernidade

Ser gaúcho naturalmente implica em uma série de valores, e produzir música no Rio Grande do Sul é sempre um desafio à originalidade, tamanha é a  limitação que o regionalismo tem imposto à última geração dos grandes centros urbanos. A primeira ruptura dos Subtropicais em seu terceiro disco é justamente com qualquer herança que possa aproximá-los de nomes seminais do rock regional. Incluindo referências do soul, do jazz e da bossa nova em sua fórmula musical, a banda consegue criar uma trilha muito adequada aos tempos de miscelânea criativa que banham o mundo neste início de século, e isso explica boa parte do sucesso que o disco colheu em seu pouco mais de um ano a girar por aí.

Cada canção de Produto da Modernidade fala por si e, ao mesmo tempo, cada faixa fala alguma coisa sobre você.

Essencialmente, os Subtropicais são uma banda de rock, mas muito mais na gana de comunicar do que nos formatos dos arranjos. "Produto da Modernidade", canção que dá nome ao disco, é um funk setentista que poderia muito bem estar no repertório soul de Tony Tornado. Com uma guitarra que lembra os melhores tempos de James Brown e uma letra propositalmente simples que ajuda a valorizar a parte instrumental, a faixa de abertura é uma introdução à chuva de estilos que se segue no decorrer de todo o trabalho.

Estrategicamente escondidos na primeira faixa, os vocais surgem com bastante destaque na canção seguinte, em novas passagens de boa black music onde o vocalista lembra os bons tempos em que Ed Motta cantava mais e dava menos entrevistas. A letra ainda é simples, mas dessa vez mais recheada de armadilhas verbais capazes de provar que a voz não é só um adorno ao redor da excelência dos músicos.

De tanto soul, a fórmula tenderia a se americanizar se a banda não fosse mesmo especialista em rupturas e retomadas. Elementos essencialmente brasileiros como o feijão, o café e o milho ganham espaço na letra de "Deixa Cair", e o nordeste brasileiro tem espaço na embalada "Oliveira", que apresenta nuances do baião misturadas a uma simplicidade rítmica e melódica que em muito lembra os cantos umbandas baianos.

Subtropicais, mais um notório produto da modernidade

⬆ Os estudos culturais britânicos delegavam à globalização boa parte da responsabilidade pelas transformações culturais, e a publicidade, enquanto via comercial desta globalização, ganha espaço na modernidade dos Subtropicais em um encarte repleto de pop art e pin ups.

Ser um produto da modernidade é ser afetado pelas culturas dominantes, e por isso às vezes os Subtropicais parecem ter chegado ontem de Memphis. Ser produto da modernidade é estar incluso na cultura de mercado, e por isso os Subtropicais não fecham os olhos para a poesia de elementos como o jornal e a TV, e muito menos se recusam a produzir música espiritualmente pop. Ser produto da modernidade é ser global, e romper com o global para ser novamente regional se isso parecer necessário, como os próprios Subtropicais fazem ao incorporar a milonga em "A Cruz dos Anos" e ao lembrar os vocais de Kleiton e Kledir em "Quando o Frio Chegou". Ainda há espaço para referências a um milhão de coisas, desde o reggae até a jovem guarda, numa lista sem fim de influências que a banda, consciente disto ou não, inclui na música sem incluir no release porque o release não pode ter mais de dez páginas.


⬆ Alexandre Marques, João Ortácio, Leonardo Brawl, Marcelo Brack e Diego Berquó, não necessariamente nesta ordem: as mentes por trás de um dos discos mais bem produzidos do último biênio.

Escutar Produto da Modernidade é verificar o lado poético e às vezes crítico de como são as relações do homem com o seu meio no século 21, tanto na forma como no conteúdo de cada uma das canções. Por isso, caminhar pelas 14 faixas do disco e perceber as suas diferentes abordagens quase se equivale a passear motorizado por uma BR vendo a nuvem de cores, formas e propostas oferecida pelos outdoors. A explosão de informação que Saramago enxergou de forma tão pessimista em O Ensaio Sobre a Cegueira não teve a mesma fatalidade nos estudos progressistas de Stuart Hall, e os Subtropicais, mesmo que não tenham notado, seguiram o segundo autor, transformando o bombardeio informacional em possibilidades estéticas; transformando o caos em arte crítica e agradável aos ouvidos.




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