É preciso amar como se não houvesse internet

Porto Alegre, Brasil
Renato Rocha foi baixista da Legião Urbana entre 1984 e 1989. Como comentado no disco Uma Outra Estação, ele adorava corrida de automóveis, era de Brasília e havia parado de estudar na metade do ensino médio. Um sujeito normal, que morreu no último final de semana, vítima de uma fatalidade infelizmente cada vez mais normal no Brasil*. Renato não era um rockstar havia quase três décadas e levava uma vida humilde, oscilando entre recaídas e recuperações diante das drogas que o golpearam durante quase toda vida. Vítima de uma fatalidade, bastou que estivesse morto pra que, automaticamente, se tornasse vítima e pivô de um segundo golpe: Renato precisaria ainda, depois de morto, passar pelo crivo do extenso grupo de pessoas que transformou a internet em uma máquina de desamor, onde a matéria-prima é a tragédia e o produto é a falta de sensibilidade. O momento de comoção dos fãs poderia gerar debate, solidariedade, tristeza ou até mesmo indiferença, mas gerou também muito ódio, e nunca se odiou tanto a Legião Urbana na internet como no último domingo.



A Legião Urbana não era uma banda fácil de ser entendida. No tempo em que o rock nacional estava abarrotado de clássicos com frases pegajosas, o grupo de Renato Russo chegava ao topo das paradas com músicas que sequer possuíam refrão. Discos densos, melodias difíceis de decorar e canções muito extensas para a época transformaram a banda em um fenômeno que arrebanhou fãs e odiadores quase que na mesma proporção. Diante do culto e do ódio, Renato Rocha se manteve à sombra, sendo "apenas" um competente músico dentro de uma banda que se destacava mais pela sua temática do que por suas nuances instrumentais. O baixista saiu da banda pouco antes dela alcançar o seu auge e não figurou na capa do disco As Quatro Estações, que trouxe músicas como "Pais e Filhos", "Monte Castelo" e "Há Tempos". Ainda que fosse um mero coadjuvante na trupe, a morte de Renato Rocha foi sentida pelos fãs, e, por consequência, alardeada pelos odiadores de plantão, que derramaram parte do seu ódio nas notícias que falavam da morte do músico.

O conselheiro homofóbico



O embaixador da meritocracia com síndrome de vira-lata



Os sambistas de uma nota só



O profeta do livre-arbítrio


O intocável



Os preconceituosos que se enfrentam

Um dos clássicos momentos em que o comentador defende a coisa certa da forma errada. Um xinga a banda utilizando a sua falta de conhecimento sobre a mesma, o outro defende a banda utilizando preconceito estético e xingando outras bandas em um loop que poderia ser infinito.




O cidadão da aldeia global


O curador de notícias



Em setembro de 2014, um estudo do General Sentiment constatou que o sentimento mais transmitido através das redes sociais é a raiva. Para os psicólogos, o motivo é simples, e já tem até nome de semi-patologia: "efeito de desinibição online". Acostumado com o viver digital, contracenando com bytes o tempo inteiro, o ser humano contemporâneo teria perdido a consciência do outro, parando de calcular a sua brutalidade ao tratar com outras pessoas. O humano que digita parou de reconhecer como humano quem o lê, e isso desumanizou discussões, transformando o espaço para comentários em um desafio bem doloroso ao estômago de quem ainda tem bom senso.

O ser humano de hoje não é mais bruto do que era em outras épocas, e nem o ódio pela Legião Urbana é maior do que era há dez ou 20 anos. No Orkut de 2004, por exemplo, lembro que a comunidade dos odiadores da banda já era quase tão grande quanto a dos fãs, e o próprio Renato Russo dizia que já nos anos 80 nem os santos tinham mais a medida da maldade. O que mudou mesmo de lá pra cá foi o ambiente, que hoje em dia permite o anonimato e a aproximação distanciada que caras como o filósofo Pierre Lévy já comentavam desde o final dos anos 90. O ser humano se entupiu de bytes e precisou abrir mão de alguma coisa para não explodir: abriu mão da solidariedade, e hoje comenta a vida e a morte alheia usando o ponto de vista que lhe permite a resolução do monitor. Quando muito.

Renato Rocha, a quem interessa saber, tentou ser músico depois da Legião Urbana e participou da formação do grupo Cartilage, do qual pouco se sabe. Ficou marcado mesmo foi pelo carisma que exibiu nos palcos, contracenando com três companheiros bem mais tímidos do que ele. Na discografia da Legião, é citado nas composições de "Daniel na Cova dos Leões", "Mais do Mesmo", "Quase sem Querer" e "Angra dos Reis". Esta última, uma canção sobre saudade que bem poderia embalar esta segunda-feira. Talvez até nem lembrando a saudade de Renato Rocha - já que este desde 1989 sempre esteve muito distante de todos; mas a saudade de um tempo em que o olho-no-olho transformava a dor de um na dor do outro e, deste encontro, surgia uma coisa parecida com solidariedade, que tornava o desconforto da perda bem menor.



* Segundo dados do médico Drauzio Varella, os problemas cardíacos são preocupantemente comuns em homens maiores de 40 anos: ao todo, são 160 mil mortes súbitas anuais somente no Brasil.

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