Garcez Dirty Lion: as sementes contra a raiz do problema

Manaus, Brasil
Usar a música como forma de protesto é deixar de enxergar a arte apenas como instrumento de contemplação da sociedade. Em uma época de mudanças significativas no planeta, o rapper Garcez Dirty Lion, de Pelotas (RS), escolheu a sua própria forma de conscientizar e protestar agregando ao seu primeiro disco, NaturezAÇÃO, sementes de urucum*. A semente foi escolhida por Garcez pela relação que ela tem com a cultura dos índios brasileiros, que usam esta semente para se pintar como forma de agradecer aos deuses pela fartura na pesca, pelo sucesso na colheita e pela boa saúde dos membros da tribo.

Garcez Dirty Lion, NaturezAÇÃO

Após a produção completamente independente do NaturezAÇÃO, que rolou entre 2010 e 2012, e o lançamento do projeto em 2013, o músico decidiu correr o Brasil para divulgar o seu trabalho. Garcez passou pelos estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Goiás e São Paulo, até chegar no Amazonas, onde já fez dois shows, um em Manaus, e outro em Iranduba, interior amazonense. Além dessas, uma terceira apresentação ocorrerá de novo na capital no dia oito deste mês.

"Penso que minha arte deve, no mínimo, me permitir conhecer o país. E disso não posso reclamar, até porque o sucesso, na minha opinião, é participar ativamente na vida das pessoas", contou Garcez ao New Yeah.



Nos tempos de música em streaming, downloads, sites de compartilhamento de vídeo e música, conhecer um trabalho de um artista corpo-a-corpo não é algo tão comum aqui em Manaus. Ao meio-dia de uma terça quente, encontrei Garcez no Largo São Sebastião, que abriga o famigerado Teatro Amazonas. Saber que um músico que mora a 4.639 quilômetros daqui quer que as pessoas conheçam seu trabalho, e outrora conhecê-las, só me deu mais curiosidade de saber a sua história e mostrar para vocês como pode ser incentivador sair da zona de conforto que, geralmente, nossa cidade natal nos dá.

Formado em publicidade, Garcez critica o consumo desenfreado e diz que consegue viver muito melhor não se adequando ao mercado ditador da música, que impõe regras para os músicos fazerem sucesso. "Geral me chama de louco, por abrir mão das coisas. Mas, nessa sociedade bizarra, prefiro ser louco mesmo. Acredito que música é construção. Fazemos nosso mercado e não precisamos nos adequar ao que o mercado nos impõe. Acho que a sociedade nos esmaga. Acabamos sobrevivendo em uma escravidão moderna. Estar vivo é resistir", explica o rapper.

Dirty Lion contou que a curiosidade de vir ao Amazonas casou com o encontro que teve com Beto, um ilustrador manauara que morava no Rio de Janeiro. O encontro dos artistas ocorreu enquanto o MC vendia seu CD pelos solos da Garota de Ipanema.

Garcez Dirty Lion

Foto: Junior Moraes

"Sempre quis conhecer a Amazônia. Após conhecer o Beto, em 2013, ele me convidou para colar aqui e disse que eu teria shows para fazer. Saí de Pelotas, minha cidade natal, em 2013, o ano do rolê. Depois de chegar de caminhão em São Paulo, me joguei para cá. É tudo independente, até as viagens. Às vezes pego carona e às vezes consigo juntar algum dinheiro", destaca o MC.

Quantos às sementes, o rapper viu na distribuição uma maneira de sair do discurso e dar possibilidades para que as pessoas deem valor as suas raízes. As principais sementes são adquiridas pelo Instituto de Florestas do Brasil (IFB). Antes do urucum, Dirty Lion distribuiu ainda sementes de ipê amarelo, pois, segundo ele, na mata verde, o amarelo se destaca e isto representa quem quer fazer a diferença.

"Isso era uma vontade que eu tinha desde muito novo. No meu ponto de vista, a arte tem uma função social importante, um compromisso, uma responsabilidade. Quero, com essa ação, fazer com que as pessoas tenham uma vida mais harmoniosa e resgatem as suas raízes", contou.

Em suas 17 faixas, o NaturezAÇÃO traz um rap com pegadas de reggae, samba, soul, jazz e mpb, junto com letras que falam de problemas sociais, com propostas para uma busca de um mundo melhor. Além de trazer temas como o consumismo desenfreado, a maconha, o autoconhecimento e o amor.

O músico não sabe dizer seu futuro destino e prefere que a própria viagem mostre o próximo caminho. "Estou sempre observando tudo a minha volta, pessoas, coisas, lugares, a cultura em si. Acredito que as vivências vão construindo o meu mosaico, que é de onde desprendo pedaços nas letras", disse o MC.

* O urucum, além de ser tradicionalmente usado em rituais de coloração indígena (junto com o jenipapo, de cor preta) é muito útil na proteção da pele contra o sol. Além disso, sua tintura em pó, conhecida como colorau, é um dos condimentos da culinária usados para realçar a cor e sabor dos alimentos.

A íntegra do álbum pode ser conferida no Youtube e no SoundCloud. As novidades das andanças dele pelo mundo podem ser acompanhadas pelo Facebook e pelo Twitter.

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