MADBLUSH: arte livre e diversidade em pauta

Porto Alegre, Brasil
A proposta artística soa complicada para os ouvidos e olhos brasileiros: batidas eletrônicas, atitude rock e visual glam incorporados por um personagem que parece a mistura perfeita entre Lady Gaga, David Bowie e New York Dolls. Nas letras, um misto de Woodstock com Sex Pistols, onde a necessidade do amor livre e a acidez diante da repressão convivem em aparente harmonia. Ambientado no cenário underground de Porto Alegre e cada vez menos preso a ele, o músico e performer MADBLUSH, ícone da contracultura gay na capital gaúcha, aos poucos colhe os frutos de uma trajetória marcada pela persistência e pela convicção em fórmulas que eram experimentadas muito antes de serem tendência. A resposta é um feedback onde, também aos poucos, a incompreensão vai dando lugar à empatia instantânea. A mudança gradual na recepção do público foi o tema principal de uma conversa onde a sexualidade e a liberdade de ser foram mostradas como pilares da verdade artística que MADBLUSH inegavelmente carrega.

Madblush: diversidade, blush e arte livre em pauta

Destaque no Gay Music Chart Awards de 2014 ao lado de nomes fundamentais do gênero, como RuPaul e Conchita Wurst, o artista gaúcho minimiza a pouca abertura dos brasileiros com um otimismo capaz de enxergar progressos mesmo no enfadonho cenário musical que o mainstream oferece. "Acredito no trabalho direto, sem parar", conta MADBLUSH, ressaltando que só a longevidade foi capaz de mostrar aos mais céticos que o salto alto e a maquiagem carregada estavam ali para comunicar algo sério. Em meio ao lançamento do single "F For You" e se preparando para o lançamento de um EP que deve chegar até abril deste ano, o artista conversou com o New Yeah sobre a briga do conservadorismo com a diversidade, valorizando o papel da arte de conversar com os dois lados buscando a queda desses muros que nunca fizeram bem a ninguém.

NEW YEAH - Em 2014, você foi um dos destaques do Gay Music Chart Awards. Podemos fazer duas leituras sobre os prêmios que você trouxe do exterior: a primeira é que o seu talento já está no nível dos maiores artistas mundiais do gênero; a segunda é que os artistas gays brasileiros ainda não têm uma premiação nacional com a mesma relevância do Chart, então os maiores nomes daqui ainda precisam trazer do exterior o reconhecimento à sua obra. Como você enxerga a recepção do público brasileiro diante da sua arte? Nós estamos muito atrasados em relação ao que você observa na Europa ou mesmo no Uruguai, onde você também já esteve recentemente?
MADBLUSH - Infelizmente, na minha opinião, o Brasil ainda é muito atrasado culturalmente, e isso se reflete em todos os seguimentos, incluindo o gay. Musicalmente falando, o país é rico, mas não explora metade do que poderia. Os estilos que acabam tendo maior reconhecimento são quase sempre os mesmos e há uma super valorização do que vem de fora, quase sempre por falta de informação do que acontece aqui dentro. Há uma mesmice na música tirando raras exceções. Os europeus, pelo que pude observar, são mais abertos, mais curiosos, mais interessados em variar as coisas e mais receptivos às sonoridades novas. Acho que isso foi um dos pontos que me fez entrar no Chart e me destacar. Já o Uruguai, apesar de ser um país super pequeno, me impressionou! Lá, cantei músicas em português. Músicas próprias, tirando uma versão ou outra, e eles curtiram. No Brasil, mesmo em lugares gays isso é bem complicado. Uma vez escutei de um gringo: "eu nem sabia que tinha música assim no Brasil". Me deu vontade de dizer: "Na verdade não tem muito e, quando tem, a divulgação é muito fraca". E olha que eu estava usando a batida do funk carioca como base!

NY - E essas barreiras impedem o seu crescimento?
MB - Mais ou menos. Na verdade, mesmo com as barreiras no Brasil eu acredito que estou construindo algo diferente. Meu primeiro EP, Intenso Cru, era cantado quase todo em português justamente porque eu queria mostrar que é possível fazer música diferente nessa língua! A recepção do público brasileiro, apesar de eu estar conseguindo bons resultados, é um pouco mais lenta, mas eu tô bem otimista e acredito no trabalho direto, sem parar! Assim, as pessoas começam a entender o que você quer dizer, o que você tem a oferecer como artista. Vi algumas pessoas legais pararem justamente por essa lentidão no processo, principalmente quando o trabalho é diferente.

NY - As últimas eleições presidenciais trouxeram momentos onde a discussão de pautas do movimento LGBT esteve em primeiro plano. A sociedade em geral está aprendendo a conviver com esta agenda, mas esse processo é muito lento também. Essa abertura discreta de diálogo e reconhecimento do movimento LGBT muda algo na forma como os artistas gays produzem e se expressam? Como você se sente em relação a isso?
MB - Esse assunto é muito complexo. Eu sempre trabalhei mas nunca pensei: "sou um artista gay". Sou um artista e ponto. Falo de questões gays? Nem sempre. Algumas vezes? Muitas vezes? Enfim. Falo de questões que me tocam. Apesar de conviver muito no meio gay e trabalhar com esse seguimento, já sofri preconceito dentro do próprio meio. O que é muito triste! Preconceito por estar maquiado em uma festa só com gays mais convencionais, preconceito quando resolvi ser drag há anos atrás, e também quando resolvi parar de ser! Então por aí vai! Consegui vencer tudo isso porque sempre deixei bem claro a seriedade da minha intensão como artista. Mas muitos outros gays sofrem preconceito por serem diferentes. Sem falar no troca-troca de farpas entre gay - lésbica / lésbica - gay - gay passiva - gay ativa - drag - travesti e assim por diante. Acredito que, enquanto os gays não forem mais "livres" quanto aos seus próprios preconceitos com muitas coisas, essas conquistas que conseguimos nos últimos tempos irão continuar sendo lentas como são! Acho que o movimento tem que acontecer mais intensamente dentro do próprio meio gay, do seu interior pra fora! Acredito que as conquistas alcançadas até aqui sem dúvida ajudaram e ajudam muitos, mas precisamos mais! Com relação ao meu trabalho, não sei bem se essas conquistas chegaram a fazer uma grande diferença. Talvez sim. Talvez mais inspiração para compor sobre o assunto.


Levy Fidelix e a desastrada teoria do aparelho excretor confrontam Luciana Genro em debate entre os presidenciáveis de 2014: nunca os temas levantados pela comunidade LGBT tiveram tanto destaque em uma corrida eleitoral ao maior cargo executivo do país. 

NY - Uma boa parte da sua popularidade recente se deve ao clipe de "Be A Puta". Comentávamos esses dias que a complexidade da letra faz com que o seu discurso vá além do movimento gay, retratando também situações de objetificação da mulher. Você acha que a produção gay pode também ajudar a combater o machismo? Você sente que as mulheres são solidárias com o que você propõe nas suas letras?
MB - Muito interessante essa pergunta. Quando escrevi "Be A Puta" com a colaboração do meu grande amigo Ric Schmitz, a intenção inicial e certeira era uma crítica à mídia e ao que ela coloca e obriga muitos artistas a seguirem. A quebra de algumas regras impostas por uma mídia massificada, independente do gênero, é o que foi expressado. E óbvio que o machismo e mesmo a fabricação em série de artistas femininas como no mundo pop estão incluídos na intenção da letra. E, sim, as mulheres se identificam e eu tenho mais músicas que pretendo lançar falando sobre elas!
 

NY - Ainda sobre "Be A Puta", é um pouco estranho, mas o sucesso da música acabou lhe colocando como notícia na imprensa tradicional, que é criticada na letra. Como você enxerga essa possibilidade de colocar o seu trabalho em veículos que normalmente se opõem à liberdade representada pelas suas canções?
MB - Acho divertido demais!!! hahhahahahah - E acho muito válido também! Acredito que a imprensa tem o dever de mostrar coisas com conteúdo diversificado também, e que até venham a fazer críticas a ela mesma. Mas também acho que muitos profissionais da imprensa - blogs, rádios, colunas, jornais, revistas, sites e tv - nem prestaram atenção na letra. Ficaram tão tontos com a questão visual e com a palavra "puta" que não perceberam o que eu queria dizer com a "puta". Não é o caso da galera aqui do NY, que arrasou nas perguntas.

NY - O clipe de "Blush in The Face" é o seu trabalho mais popular até hoje, e continua acumulando visualizações no YouTube mesmo não sendo novidade há mais de dois anos. Vamos falar um pouco sobre este trabalho? 
MB - "Blush In The Face" foi a primeira música que escrevi e produzi sozinho, originalmente em português, "Blush Na Cara" (disponível no SoundCloud e na edição física do EP Intenso Cru). Depois, a canção foi traduzida por meu guitarrista na época, o Gabiko, que produziu as guitas da faixa também! A concepção do clipe é de mais um grande e talentoso amigo, diretor de arte, o Douglas Pires. O vídeo foi gravado no estúdio de um dos mais conceituados fotógrafos de Porto Alegre, o Eduardo Carneiro. A ideia era um clima mais dark, mostrando muitas personalidades girando em torno do tema da música, que fala da questão de dar voltas e acabar sempre no mesmo lugar, no mesmo vício. A edição e a pós-produção são da Avante Filmes.
 

NY - Mostrar-se gay no Brasil dos anos 2000 é estar na contracultura, porque só o fato de você passar "blush no rosto" e subir ao palco usando salto alto já desafia a mesmice e o conservadorismo. Ao mesmo tempo, como você já falou, muitos homossexuais também são conservadores e não se identificam com a sua obra pelo escândalo proposital que ela representa. Você se sente na obrigação de conversar também com essas fatias de cabeça menos aberta?
MB - Eu acredito que tenho quebrado um pouco esse receio de alguns gays com o meu trabalho por toda a energia que eu coloco nele, mostrando que isso é minha vida, isso é sério. Eu posso enlouquecer, brincar algumas vezes, mas é verdadeiro, forte, intenso, e acredito que essas pessoas que não aceitavam muito acabam percebendo essa verdade, e isso faz quebrar qualquer coisa ruim. Quanto a se identificar, não estou pedindo identificação, estou mostrando outras formas de pensar e, quando a gente se abre pra isso, é maravilhoso! Sempre se aprende algo! E, se as pessoas não entenderem, mesmo eu dando as ferramentas, então também nem tem porque conversar muito. A não ser que elas venham me dizer que não entenderam nada, mas amaram, como já aconteceu, ahahahahahah!

O trabalho de MADBLUSH segue em movimento, e pode ser conferido nos seguintes links: twitter.com/MADBLUSH, www.facebook.com/MADBLUSH, www.youtube.com/blushelectrorock, soundcloud.com/madblush e www.instagram.com/madblush.

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