Máquinas e o shoegaze à brasileira

Fortaleza - CE, Brasil
A cultura pop como um todo vive de criações e recriações - os "revivals", como gostam de chamar os críticos. Na música, o processo de revival mostra bandas atuais que resgatam estilos musicais de décadas passadas, adaptando seus arranjos para as evoluções tecnológicas e as linguagens de cada época. Entre a série de estilos que vêm sendo adaptados e redescobridos, está o shoegaze: estilo musical denso e pouco difundido, mas que proporcionou ao mundo verdadeiras pérolas, como a obra prima Loveless, da banda irlandesa My Bloody Valentine. Influenciados por esse movimento e também pela estética musical de bandas como Ride, Slowdive e Cocteau Twins, um quarteto de músicos cearenses escolheu o shoegaze como plano de fundo para lançar seu primeiro material autoral. À união das ambições dos quatro, deram o nome de Máquinas. O disco homônimo tem apenas três faixas, cada uma com mais de cinco minutos de duração e que, juntas, conseguem somar mais de 20 minutos de arranjos impecáveis, saturados por guitarras e ruídos pouco comuns. O resultado é algo muito novo: um bom disco de shoegaze cantado 100% em português.


A Máquinas é, sem dúvida, uma das bandas mais curiosas do últimos anos, tanto por cantar em português quanto por mesclar gêneros pouco explorados no país, como o noise, instrumental e, principalmente, o shoegaze. É supreendente ouvir o som da Máquinas e perceber que, no meio de tantas guitarras, as palavras que aparecem estão sendo ditas em bom e não tão audível português, mostrando que é possível explorar qualquer ritmo sem perder as raízes linguísticas do país onde se está inserido. O disco pode estar inaugurando uma nova fase para o gênero.

O pioneirismo da banda ao cantar shoegaze em português pode ser o início de uma nacionalização do gênero, repetindo passos que o rap e o hardcore trilharam em décadas passadas.

Nos Brasil dos anos 2000, o movimento hardcore cresceu de forma bastante rápida pelos centros urbanos, e seu início se caracterizou pela solidificação de nomes nacionais que cantavam em inglês. O movimento de nacionalização foi lento, mas partiu de uma parcela muito pequena de bandas que passaram a escrever e cantar em língua portuguesa, algo que depois se tornou regra e ajudou a criar linguagem e estilos próprios ao HC BR. E, assim como o hardcore nos anos 2000, o shoegaze ganha, em 2015, a sua primeira representante nacional-nacionalizada e, ainda melhor, vinda de uma região extremamente rica em diversidade cultural e musical, responsável por exportar para o Brasil inteiro grandes nomes do rock, do pop, da MPB, do maracatú e de outra infinidade de ritmos que, em todas as definições, conseguem trazer junto as raízes nordestinas, seja no sotaque ou no ritmo de suas canções.

O disco de estreia, além de conter toda essa bagagem multicultural, consegue trazer ao fã do gênero uma obra capaz de se igualar a qualquer grande lançamento internacional, por apresentar uma qualidade de produção extremamente profissional e cuidadosa, com timbres muito bem modulados e linhas de baixo e guitarra perfeitamente alinhadas com as infinitas paredes de guitarras formadas durante o andamento das canções. Máquinas, o disco, também conta com experimentações que colocam o pé da banda em outros estilos, abusando de ruídos externos e sujeiras sonoras que preenchem muito bem as nuances do som; e que  beliscam  o post rock, trazendo refrões pesados com andamentos longos e densos, sempre guiados por riffs graves e oitavados de guitarras carregadas de muita modulação.



Apesar do disco firmar a sua base no shoegaze, faixas, como "Theresa", conseguem levar a banda à uma atmosfera ainda mais soturna, trabalhando percussões semelhantes as experimentações dos ingleses do Joy Division em Unknown Pleasures e flertando diretamente com linhas de baixo muito usadas no pós-punk. Mas essa multiplicidade musical não se torna evidente apenas em uma faixa específica: ela caminha por toda a obra, trazendo constantemente o ouvinte para uma atmosfera muito própria criada pelo grupo, onde a base é o shoegaze, o ruído é noise, o baixo é pós-punk e o conjunto de tudo, mesclado a cada característica, influência, ritmo e palavra, consegue soar originalmente brasileiro.

Máquinas, da Máquinas, foi finalizado em 2014, gravado e produzido de forma independente e está sendo lançado esse ano pelo selo carioca Bichano Records. Para conhecer mais da banda, basta acessar a sua página no Facebook. O EP na íntegra pode ser conferido no Bandcamp.

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