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Natal, Brasil
Antúlio Madureira é potiguar. Um dos músicos mais talentosos da sua geração, ele conseguiu a proeza de se lançar nacionalmente, ganhando espaço na televisão e assumindo lugar especial no imaginário popular dos anos 90 ao compôr o tema de abertura do Auto da Compadecida. No entanto, há um detalhe interessante na biografia de Antúlio: ainda quando era bem novo, ele trocou Natal por Recife e, da capital Pernambucana, se projetou ao restante do país. Há tempos que o Rio Grande do Norte se ressente de não catapultar grandes nomes dentro da música nacional, e essa realidade vem sendo enfrentada de frente por uma geração autônoma e disposta a aparecer. Arduíno Contra O Bando e Hotel Dolores são grupos que estão nesse barco, acompanhados de outros jovens potiguares bem teimosos.



O Rio Grande do Norte tem cultura própria, mas se caracterizou ao longo da história por saber fazer uso das culturas que estão ao seu redor. Por falar em Pernambuco, vêm de lá algumas das maiores influências da Arduíno Contra O Bando, com sua sonoridade e engajamento que conversam com nomes noventistas como Mundo Livre S/A e Nação Zumbi. Também no som do grupo é possível encontrar a diversidade de influências presente nas produções nordestinas que desceram para o sudeste desde a Tropicália.



Arduíno Contra O Bando: a distorção do manguebeat em mensagens que o movimento não teve tempo de passar.

Entre grooves e uma solução mais rocker do que as propostas de Chico Science e Fred 04, a Arduíno retira personagens dos livros de história, cruza isso com poetas clássicos do expressionismo e ainda arranja brechas para guitarras que nem vêm de tão antigamente, algo que dá um toque contemporâneo ao single Morcego / O Valor da Cobertura, lançado recentemente pelo grupo.

Coesa em sua proposta musical e bastante ácida em letras que atingem tabus bem atuais, a Arduíno produz um som digno de ambições maiores. Está localizada em um aparente elo perdido entre o manguebeat e o disco Severino, dos Paralamas do Sucesso. Colocada ao lado do disco mais obscuro do trio de Herbert Vianna, o EP do grupo potiguar apresenta inclusive semelhanças na arte gráfica. Ainda que a obra mais antiga não tenha servido de fonte para a mais nova, é de se concluir que as duas habitam a mesma nuvem artística, bebem da mesma sede, e isso só aumenta o valor do que a Arduíno vem fazendo com sua arte.
 

O levante de bandas no Rio Grande do Norte, assim como todo levante estimulado por necessidades urgentes, não é um movimento organizado, e isso está expresso na diversidade de sons que os nomes cada vez mais promissores têm produzido por lá. Menos enraizada na cultura nordestina, embora o sotaque não negue a origem e dê um tempero extra aos vocais, a banda Hotel Dolores também procura o seu espaço. Hoje, com o um single solitário que já dá o seu recado. Em um futuro breve, com o auxílio do EP de estreia, que deverá trazer quatro canções.



Hotel Dolores: a estrada é curta, mas a lista de influências é longa e promissora.

A curta obra da Hotel Dolores, no entanto, já evidencia novamente a vocação potiguar de atuar como redemoinho cultural, apresentando uma banda que consegue unir o passado e o presente em sons homogêneos e assoviáveis. Talvez o Roberto Carlos nunca tenha tido a oportunidade de tocar uma música dos Strokes, mas ele pode escutar o single de estreia da Hotel e imaginar como ficaria essa experiência.

No single "Fuça", lançado no 8º MPBeco, já fica clara a aversão do grupo por fórmulas prontas e a preferência por estruturas que dão ao ouvinte a impressão de estar ouvindo mais de uma música dentro da mesma faixa. Variações de andamento, melodias crescentes e uma clara influência da estrangeirizada Jovem Guarda marcam o som do grupo que se propõe a encarar a melancolia de uma forma otimista. Para quem trata a desilusão com tanta cor, o desafio de ser nacional partindo do Rio Grande do Norte parece nem ser um desafio tão complicado assim.
    
Plural em suas opções culturais e regionalmente conhecido por sua contribuição ao cenário cultural do Nordeste e do país, o Rio Grande do Norte conta com uma nova e inspirada geração de músicos para se tornar também berço de grandes nomes musicais. Na onda da democratização na distribuição de sons, alguns grupos já tomam a frente. Se vai dar certo, só o tempo dirá. Enquanto o tempo decide por nós, já temos uma trilha sonora pra acompanhar o desenrolar dessa história.

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