Bruno Berle: Todo mundo sente muito

Maceió, Brasil
Bruno Berle é um sujeito aparentemente normal, que opta por formas simples de arte e sente coisas que são comuns a todas as pessoas que caminham pelas avenidas do século XXI. Ao imprimir a solidão de forma sincera nas suas canções, o sujeito normal acaba se transformando em um fiel trovador da vida contemporânea: um cronista dos tempos em que estamos sempre cercados de muita gente e quase sempre tendo a sensação de que estamos sozinhos.

Bruno Berle - Arapiraca, Maceió, 2013

Aos 21 anos, Bruno, conhecido no Alagoas como baixista da banda Troco em Bala, experimenta atualmente também a sensação de encarar o público usando apenas o seu nome. Sem a companhia física de Julia Soares, Lucas Marques e Filipe Mariz, o cantor soa mais silencioso, mas nem por isso menos visceral. Na estrada com a Troco em Bala e administrando a boa receptividade do disco solo  Arapiraca, Maceió, 2013, Bruno trocou algumas ideias com o New Yeah, falou sobre as influências que o levaram à canções como "O Frio" e projetou o início de novas gravações ainda em 2015.

NEW YEAH - A Troco em Bala é uma das boas surpresas que o estado de Alagoas nos mostrou nos últimos anos, e tu obviamente tens uma grande contribuição na crescente do grupo. No entanto, mais cadenciado e introspectivo, teu trabalho solo é quase uma antítese do que tu ajudaste a construir com a banda. Dá pra dizer que a iniciativa solo é um veículo para divulgar músicas que não teriam espaço dentro do repertório da banda? Como você vem conciliando as duas frentes?

BRUNO BERLE - Eu vejo que, sem a banda, eu jamais lançaria esse disco. A experiência toda que tenho de pensar nos arranjos, pensar no que fazer em cada música... só veio com esses dois anos na Troco em Bala. Esse disco não foi uma necessidade de colocar coisas que não se encaixavam na banda, foi algo inevitável: o disco veio pronto e não poderia ser feito sem meu nome na frente, sem ser eu mesmo dizendo algo para as pessoas. Eu amo esse disco, amo as músicas que faço com a banda e só faço isso da vida, então não é difícil conciliar.

NY - Estamos percebendo que o teu trabalho solo consegue chegar a alguns lugares onde a Troco não conseguia entrar, até por uma questão de nicho mesmo. Tu, que estás sentindo isso na pele, concorda com essa nossa percepção?

BRUNO BERLE - Um trabalho ajuda o outro. A gente tem percebido isso. Muitas pessoas vem conhecendo a banda através do meu disco e vice-versa. A reação é infinitamente diferente se formos comparar o feedback do lançamento do EP da Troco com o do meu disco. No caso da banda, as pessoas se empolgavam mais, curtiam a música sem pensar demais, era algo mais feliz, mais “fácil”. Já no meu rola uma cumplicidade, descobrem as letras, me adicionam pra perguntar coisas da vida, da música, e eu fico muito grato por isso, apesar de achar que eu tenho quase nada além das canções a oferecer. Eu tenho certeza que todo mundo pode achar um jeito de dizer o que sente, e todo mundo sente muito.

"A maioria dos artistas brasileiros introspectivos da nova geração não me sensibiliza."

NY - A web tem aberto caminho para artistas mais intimistas, e tu és a cara nova de um movimento que já teve outros nomes desde a época do MySpace. Como tu enxergas essa abertura das pessoas a obras mais introspectivas/menos barulhentas/menos comerciais? 

Um amigo meu me disse que há uma tendência na música mundial, e que a música tem se tornado mais introspectiva. É difícil medir isso. Também não me atrevo a dizer que as pessoas agora são mais sensíveis do que antes. A maioria dos artistas brasileiros introspectivos da nova geração não me sensibiliza, é o máximo que eu posso dizer.

NY - As tuas primeiras gravações solo apontavam um caminho mais folk, e a guinada ao lo-fi veio de um ano pra cá. Como foi a tua aproximação com este tipo de estética? 

A evolução da forma foi proporcional à do conteúdo. Comecei a me interessar mais por arte, não só música, e percebi essas formas mais “descuidadas” de produzir. Achei atrativo e vi que o disco tinha de ser assim: tinha que mostrar uma fragilidade na sonoridade. Uma base muito grande pra mim e pro Filipe Barros. produtor do álbum, no sentido de sonoridade foi o Noah Georgeson, cara que gravou Little Joy, Devendra Banhart, Adam Green e o disco novo do Amarante.



NY - Nós temos conversado com músicos dos mais diversos estilos e percebido um apreço das novas gerações pelas gravações de baixa fidelidade. Curiosamente, esse apreço contracena com uma popularização dos meios e equipamentos de gravação. Ou seja: quando a tecnologia se tornou mais acessível, a geração de criativos abriu mão dela. Como tu enxergas esse paradoxo?

Eu percebo esse apreço ao lo-fi. Posso dizer que a galera encheu um pouco o saco do trabalho do produtor chatão de estúdio: como está mais fácil de adquirir equipamentos, as pessoas preferem aprender a gravar e ter um controle maior da sua arte do que ficar submisso a um cara que geralmente não entende sua intenção. Eu não sou preso a isso. Espero fazer meu próximo disco solo em estúdio, mas esse tinha que ser gravado desse jeito, dentro de um quarto, com uma acústica estranha. Em nenhum estúdio funcionaria.

NY - As músicas do Arapiraca, Maceió, 2013 abordam temáticas muito variadas, mas há uma pequena dose de solidão em cada faixa. E parece que o clipe de "O Frio" transformou essa solidão até então sonora em algo mais visual. Era essa a intenção? Como foi a gravação do clipe?

A música me remete a um lugar vazio, com muita profundidade, e, quando me foi dada a oportunidade de fazer o vídeo, pensei naquele lugar de primeira. As gravações foram difíceis: a gente tinha pouco recurso de iluminação e tinha que ser tudo numa noite só. Todo mundo ficou exausto no fim, mas depois todo mundo comeu pizza e ficou feliz.



NY - O teu trabalho tem crescido e deve crescer bastante nos próximos meses. Além do clipe que foi lançado recentemente, o que mais podemos esperar ainda em 2015?

Farei o show apresentando o disco no dia 28 de março em Maceió, depois tenho um show dia 11 de abril em Pernambuco. Estamos trabalhando pra fazer alguns shows no Sul e no Sudeste. Pretendo ainda começar as gravações do meu segundo disco no começo do segundo semestre. E ainda neste semestre tem o primeiro disco da Troco em Bala!

As novidades de Bruno Berle podem ser acompanhadas pela página do artista no Facebook. Os preparativos para o novo disco e a agenda da Troco em Bala são atualizados diariamente na página da banda.

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