Luneta Mágica, uma banda com duas obras

AM, Brasil
Não existe fórmula para se produzir arte, e a quantidade de escolas artísticas que existiram ao longo dos tempos são uma prova viva disso. Escola vai, escola vem e apenas uma verdade permanece intacta com o passar dos anos: a arte, produto final do processo criativo, sempre será uma colagem de referências, experiências e percepções de mundo. De volta ao disco depois de dois anos rodando o país com o seu trabalho de estreia, os amazonenses da Luneta Mágica entregam agora No Meu Peito, o seu segundo álbum, que apresenta uma banda capaz de lançar novos olhares sobre o que acontece a sua volta.



Aos admiradores do primeiro disco, fica uma nota importante: No Meu Peito não é necessariamente uma evolução de Amanhã Vai Ser o Melhor Dia da Sua Vida, lançado pelo grupo em 2013: o disco novo apenas percorre os caminhos que o disco de estreia foi capaz de abrir. Mais amplo em sua sonoridade, com instrumentos claramente audíveis e uma estética totalmente nova, o segundo disco da Luneta Mágica mostra um grupo que mudou a direção da sua criatividade e produziu um disco que não seria possível com a cabeça de dois anos atrás.

A música que dá nome ao disco também é a que abre o trabalho publicado na segunda quinzena do último março. Balada acústica e psicodélica ao mesmo tempo, com uma letra que cita Eduardo Galeano e mais parece uma oração, a música praticamente exorciza os fantasmas que rondaram as letras do grupo no disco de estreia e abre alas para que "Lulu", uma canção ensolarada, faça sentido dentro da discografia do grupo. As guitarras limpas e a entonação aberta das vozes apontam um rumo otimista que atinge o seu auge em "Acima das Nuvens" - onde nunca chove, como bem lembra a letra, falsamente superficial.



O repertório de referências do grupo - que passeia por Beatles, Jovem Guarda, estandartes da MPB e boas doses de rock contemporâneo - fica mais clara em "Mônica". A letra que aconselha atenciosamente a anônima menina tem os vocais de "A Day In The Life", o embalo das jovens tardes dos anos 60 e um tópico que recorre ao mestre Belchior quando lembra que "amanhã a velha roupa colorida não serve mais".



A partir da quarta canção, procurar referências na boa MPB dos anos 70 acaba se tornando um hobbie divertido que pode ser facilmente conciliado com o simples prazer de ouvir as boas canções. "Mantra", que bateu os 800 plays logo na primeira semana de lançamento, é neta de "Amor", dos Secos & Molhados ("leve, como leve pluma, muito leve, leve pousa"), embora não fosse possível sem "Tomorrow Never Knows", dos Beatles, e muito embora nunca talvez tivesse existido se a geração dos anos 2000 não tivesse mostrado ao mundo que é possível produzir sons de levada eletrônica a partir de vias teoricamente analógicas.
 

Claro que a comparação parece inevitável, e até lógica quando pensamos na cronologia de lançamentos de uma banda, mas a distância do primeiro e do segundo disco propõe um olhar diferente sobre a Luneta Mágica e sobre a arte em si: se a "Guernica" de Picasso não era uma evolução de "As Senhoritas de Avignon", por que o disco X precisa ser sempre a evolução do disco Y? Os caminhos são outros, as saídas são outras e as duas obras, em duas fases distintas do mesmo artista, podem ser consideradas completas.


As "Senhoritas de Avignon" (1907) e "Guernica" (1937): as duas obras eram tão diferentes que muitos críticos desistiram de compará-las. As duas representavam a genialidade de Picasso, em fases diferentes de sua trajetória brilhante. E fim de papo.

Os elementos claramente eletrônicos não sumiram: eles estão lá quando necessário. No entanto, efeitos, programações e sobreposições agora surgem como complemento, e não mais como base, o que mostra que a banda tem personalidade para fugir de suas próprias amarras, como fazem bem todos os grandes artistas desde os tempos mais antigos. Tirando o sotaque amazonense que denuncia a origem de uma obra nitidamente global, nada na Luneta Mágica é fixo ou descartável: tudo é recurso válido - e como é bom quando a estética assume plano secundário e se torna apenas ferramenta de uma criatividade que é maior que a sua forma. O segundo disco da Luneta é a materialização desse ponto a ser alcançado. Talvez por isso pareça uma evolução, por mais que não tenha a pretensão de desdizer ou reforçar qualquer coisa dita no disco de estreia. Temos aqui uma banda com duas obras. E ponto final.

No Meu Peito está disponível nos streamings Spotify, Deezer, além da plataforma do SounClound, onde também é possível encontrar a estreia do grupo e fazer a sua própria análise das duas obras colocando-as lado-a-lado :) A Luneta também está no Facebook.

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