Sex Pistols escandalizam a TV britânica

Londres, Inglaterra

Convocado para substituir a atração principal de um programa televisivo ao vivo, o quarteto punk tornou a apresentação história ao proferir palavrões no ar: era a primeira vez que isso acontecia no Reino Unido. 

Na noite de 1º de dezembro de 1976, a atração principal de um programa ao vivo de TV chamado Today seria uma banda do primeiro escalão de popularidade da EMI, mas essa banda cancelou o compromisso quase em cima da hora. Na falta de alguém à altura, a gravadora decidiu tapar o buraco com os Sex Pistols, que haviam sido contratados em setembro e gravado o single "Anarchy In The UK".

Sex Pistols escandalizam a TV britânica

A repercussão da faixa, lançada no dia 27 de novembro, foi imediata. Na produção, o veterano Chris Thomas adicionou mais sujeira à canção ao levar Steve Jones a sebrepor 21 vezes sua guitarra distorcida. Mas o que pegava mesmo era a letra, um verdadeiro atentado ao conservadorismo do Reino Unido: em três minutos, o vocalista Johnny Rotten berrava mensagens de terror político, social e religioso, xingava a principal publicação sobre música da ilha (o New Musical Express, cujas iniciais formavam a palavra inimigo em inglês) e convocavam, à plenos pulmões, a destruição da ordem vigente.
 

Por causa disso tudo, Rotten, Jones, Glen Matlock (baixo) e Paul Cook (beteria) ganharam inimigos de todos os lados, da imprensa à categoria artística. A EMI, temerosa, recusou-se a divulgar a fúria iconoclasta dos Pistols. O NME, como era de se esperar, esculhambou o grupo. Sem apoio da mídia, das rádios e até da própria gravadora, a banda tinha tudo para experimentar os seus 15 minutos de fama antes de cair no túnel do ostracismo. Foi nesse clima que os Pistols chegaram de limusine aos estúdios da TV Thames, acompanhados do empresário Malcolm McLaren e de mais alguns integrantes do então incipiente movimento punk (entre eles, Susan Janet Balion, que mais tarde formaria o Siouxsie & The Banshees).

No camarim, enquanto esperavam a hora de entrar em cena, os entrevistados tomaram um porre - no qual foram seguidos pelo apresentador do programa, Bill Grundy. "Ele bebeu muito antes de entrar no ar e já estava extremamente agressivo com todo mundo", acusou Rotten. Para Matlock, o apresentador não queria entrevistá-los. "Não por causa do visual, mas porque ele estava inseguro. Não sabia nada sobre a gente."

"Bastardo! Filho da puta!", dizia Jones. "Vamos lá, mais uma! Que garoto inteligente!", falava o dono do Today.

Ao começar o bate-papo, Grundy foi logo disparando a metralhadora. "Tenho a informação de que vocês receberam 40 mil libras de uma gravadora. Não parece algo conflitante com a pregação antimaterialista do punk?", provocou. Quando começou a pegar pesado e fazer ironias com o futuro do grupo ("Beethoven, Mozart, Bach e Brahms, todos eles morreram..."), Rotten o interrompeu com seu típico sarcasmo. "Eles são nossos heróis, pessoas maravilhosas que fazem a gente se sentir vivo." E sussurrou algo como "grande merda tudo isso". Grundy ficou surpreso. "O que você disse?" O vocalista contemporizou: "Nada, apenas um palavrão. Próxima pergunta". O entrevistador insistiu para que o termo fosse repetido. Rotten atendeu ao pedido e disse novamente: "Merda".

Ao tentar retomar as rédeas do programa, Grundy foi ainda mais grosseiro e perguntou a Susan se ela se preocupava ou estava apenas se divertindo ao estar com a banda. Ao receber um elogio irônico da garota, disparou: "Vamos nos encontrar mais tarde, certo?". Foi o estopim para Jones: "Seu velho podre". O apresentador retrucou: "Vamos adiante. Você tem cinco segundos. Diga algo ultrajante". E inflamava ainda mais o músico, que continuava a desfilar impropérios. "Bastardo! Filho da puta! Babaca!", dizia o guitarrista. "Vamos lá, mais uma! Que garoto inteligente!", falava o dono do Today. A produção foi obrigada a pedir os créditos finais do programa.



Depois de 24 horas você vê o resultado: sensacionalista como de costume, a imprensa inglesa maximizou o episódio nas capas dos principais veículos do país.

Era a primeira vez que a TV britânica transmitira palavrões. As linhas telefônicas da Thames ficaram congestionadas por telespectadores indignados. Quando a polícia chegou à emissora, McLaren havia acabado de colocar todos de volta na limusine para escapar de algo pior. No dia seguinte, o rescaldo da confusão: Grundy pegara duas semanas de suspensão, de acordo com um conselho de ética das comunicações britânicas. Jornais sensacionalistas fizeram estardalhaço em suas manchetes. "Até ontem, era apenas música. Agora, é tudo um circo armado pela mídia", resumiu Jones na época.

Curiosidade: a banda que deu um bolo no apresentador Bill Grundy era o Queen.
    

(Texto de Abonico R. Smith, corrigido pela editoria de NY, mas publicado originalmente na revista Showbizz #191, em junho de 2001)

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