Vozes, gêneros e mentes à serviço da arte

SP, Brasil
Sinestesia, para o dicionário Aurélio, é a figura de estilo que combina, em uma mesma percepção, mais de um sentido sensorial. Por exemplo, "Respiro o doce olor do teu colo abrasante" (BAUDELAIRE, 1867). A sinestesia foi uma verdadeira mania entre os poetas simbolistas na fundação da poesia moderna. Na música brasileira contemporânea, Sinestesia é o nome do EP lançado pelo grupo Cigana em 2014. Curiosamente, um trabalho caracterizado por misturas que confundem e encantam os sentidos, e que têm servido como base para o crescimento do grupo de Limeira/SP dentro da produtiva cena cultural do interior paulista.



O grupo Cigana posa em frente ao painel pintado por Zéh Palito, em fotografia do coletivo King Chong.

Ideologicamente, a Cigana é a união de uma porção de pessoas que não conseguiria viver sem produzir arte. Simples assim. Musicalmente, o grupo já é mais difícil de ser explicado, e qualquer opinião rasa formada em uma audição corre o risco de ser quebrada pela faixa seguinte. No EP lançado no ano passado, "Sinestesia", a música que dá nome ao trabalho, é um rap abrasileirado com batida seca e letra que lembra os devaneios frasais de Caetano em sua melhor forma, conduzido pela voz docemente imperfeita de Victoria Groppo. "Ensaio Nº2" é uma "Stairway to Heaven" com sotaque tupiniquim, cantada em bom português e, do meio para o fim, apimentada por uma instrumental quase hard rock. Não há receita de bolo para prever o que vai acontecer no próximo minuto, e a imprevisibilidade dá o tom da obra do grupo até aqui.


"Temos a intenção de misturar sempre, mas de nunca fazer dessa mistura uma obrigação em nossa música." - explicou o guitarrista Matheus Pinheiro. "A mistura vem de cada integrante da banda. Um se sente mais à vontade com MPB, outro com grunge, outro com algo mais alternativo... então essas diferenças se somam e só enriquecem nossa música."

O flerte com mundos variados não se limita à busca por estilos, e se reflete também em algumas canções que o grupo entregou ao público escritas em língua inglesa. Passeando por verbos e fonemas em língua estrangeira, o grupo ainda assim mantém uma afinidade quase magnética com a sonoridade pontiaguda de versos, notas e percepções, provando boa performance independente do idioma em questão. Em meio a tanta complexidade, nenhuma faixa, no entanto, tem chamado mais atenção do que "Maldita", justamente a mais simples das composições do EP.

Acompanhada pela instrumental de uma guitarra solitária e contando a história de um homem que gostava de poemas que ele não entendia, a canção mais popular do EP de estreia é o momento em que a Cigana se despe da complexidade mantida de cabeça em pé nas faixas anteriores e entrega sentimentos de maneira mais crua.



Atualmente em fase de composição do próximo EP, o grupo paulista prepara a continuidade de Sinestesia e aponta para caminhos ainda mais diversos do que no trabalho anterior.

"Temos a ideia de como o EP novo irá soar. Dessa vez vamos nos ramificar ainda mais musicalmente." Explicou Matheus. "Vai ter música com pitadas de jazz, assim como vai ter música extremamente pop. Há instrumentais mais complexos e há outros extremamente simples. Achamos isso muito bacana e, acima de tudo, divertido de se fazer."

Analisada em todas as suas faces, a Cigana é, acima de tudo, uma banda que destoa: em tempos marcados pela intolerância ao diferente, o quinteto se propõe a abraçar o mundo até mesmo em canções que têm menos de três minutos, provando através da música que o respeito pela diversidade pode valer a pena. E, em tempos onde os menos poéticos insistem no egoísmo, a banda se propõe a "unir vozes, gêneros e mentes à serviço da arte", provando que a união de fato faz a força e reafirmando aquele velho ditado que a gente sempre teima em esquecer.

A Cigana é composta por Victoria Groppo (voz), Matheus Pinheiro (guitarra), Caique Redondano (baixo, voz), Felipe Cunha Santos (bateria) e Cláudio Cavalcante (teclado).  O EP de estreia do grupo pode ser adquirido em ciganamusic.com.

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