4 discos para entender o GLAM ROCK

RS, Brasil
1971. O “sonho” acabou de acabar. Os hippies sobreviventes se atolam em drogas pesadas e desilusão. Enquanto isso, seus irmãos menores, naquela terra de ninguém conhecida como pré-adolescência, se dão conta de um mundo de poliéster, TV em cores, missões espaciais, terrorismo etc. O futuro tinha chegado e o meio era a mensagem. Desesperadamente precisando de novos heróis, os meninos ligam a TV (em cores berrantes) para ver o Top Of The Pops (um Xou da Xuxa inglês da época) e dão de cara com aquele ser sexualmente indefinível tocando guitarra prateada, vestido de cetim dos pés à cabeça e cheio de purpurina. Marc Bolan e seu T. Rex eram os flautistas de Hamelin pós-modernos.


Enquanto isso, David Bowie, um artista fracassado dos anos 60, posava para a capa de seu novo LP, The Man Who Sold The World, usando um... vestido! “Um vestido muito masculino”, na opinião dele. Não tinha mais volta. A partir dalí, o glam rock reinaria por quatro gloriosos anos. Enquanto “sérios” (Roxy, Mott, Lou, Iggy) gravavam álbuns venerados até hoje, exibidos fabulosos (Mud, Suzi Quatro, Slade, Gary Glitter, Sparks, The Sweet) faziam singles arrepiantes. Muitos pegaram o bonde andando e mais pareciam donos de botequim mal maquiados do que pop stars. Praticamente todos os artistas da época que possuíam algum senso, mesmo que não fosse de ridículo, tiveram sua fase glam (Stones, Faces, Elton John, Alice Cooper, Queen). Fracassos retumbantes (Jobriath, Roderick Falconer) e gênios incompreendidos (Roy Wood e seu Wizzard) tiveram seus 15 segundos de quase-fama seguidos pela eternidade cult de David Bowie.

IGGY & THE STOOGES – RAW POWER (1973)



Bowie praticamente forçou Iggy a reformar a Legião da Má Vontade (os Stooges) e ir a Londres gravar este clássico do descontrole emocional. Produzido por Iggy, que gastou a maior parte do orçamento em drogas, Raw Power é um album único na história do rock. Guitarras histéricas, letras violentas, performances sadomasoquistas e mixagem desequilibrada feita por Bowie (enquanto consumia as tais drogas) fazem dele a principal ponte entre o glam e o punk. No final dos anos 90, foi remixado por Iggy, mas a maioria dos fãs prefere a instabilidade original.

NEW YORK DOLLS – NEW YORK DOLLS (1973)



Dizem que o New York Dolls era a única imitação dos Stones a ter um Mick Jagger e quatro Keith Richards. Que injustiça! A banda foi sucesso de mídia desde que pisou no palco pela primeira vez, graças ao visual drag queen e às letras provocantes. Sexo, drogas e rock’n’roll no volume 11. Na época, pensava-se que esse primeiro LP seria um sucesso estrondoso. Ledo engano. Mas o charme de músicas como "Personality Crisis", "Subway Train" e "Trash" perdurou e influenciou de Sex Pistols à Morrissey e tudo o que veio depois. A banda ainda gravou mais um LP, Too Much Too Soon (1974), um pouquinho menos caótico. Depois, virou purpurina.

LOU REED – TRANSFORMER (1972)



Lou Reed andava meio sem rumo depois do fim do Velvet Underground, quando o incansável Bowie, em parceria com Mick Ronson, produziu e arranjou este LP. O tema aqui é ambiguidade sexual, vida alternativa e o evangelho segundo Andy Warhol. O humor negro e ácido de Lou nunca esteve melhor do que em Walk On The Wild Side, “Vicious” e “Make Up”, seu lado romântico/neurótico nunca esteve mais sedado do que em “Perfect Day” e “Satellite Of Love”. Por décadas o Príncipe do Valium foi obrigado pelos fãs a tocar ao vivo essas canções, constantemente regravadas.

DAVID BOWIE – THE RISE AND FALL OF ZIGGY STARDUST AND THE SPIDERS FROM MARS (1972)



Uma obra eterna apesar de, esteticamente, pertencer à época. Cheio de claros, escuros, depressão, melancolia, euforia, imaginação, tudo quase em realidade virtual. E ainda por cima com os arranjos e a guitarra paradisíaca de Mick Ronson. Mudou a vida de muita gente: quem domina o inglês e ouviu na idade certa sabe como foi. Bowie ainda faria mais três discos glam, Alladin Sane (1973), Pin Ups (1973) e Diamond Dogs (1974), e seguira numa carreira longa e frutífera. Mas o mundo nunca esqueceu Ziggy Stardust.



Alvin L, autor deste post, é compositor, guitarrista e cantor. É lembrado por sua contribuição junto ao jornalismo musical brasileiro desde a década de 90, e conhecido nacionalmente pela autoria de canções gravadas por Marina Lima, Capital Inicial, Leila Pinheiro, Toni Platão e Ana Carolina.

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