Anos 60: a primeira vez de Manaus no Rock

AM, Brasil
A proposta inicial, sugerida pelo Carlos Viegas, editor do New Yeah, era que eu encontrasse os famosos velhos bebedores de cerveja que tiveram as primeiras bandas de rock em Manaus pra contar como nasceu o estilo aqui na cidade. Depois de uma escavada histórica, não encontrei qualquer velho beberrão, mas conheci alguns caras que me contaram várias coisas legais sobre a cena daqui. Dividimos o conteúdo das nossas entrevistas em blocos e montamos uma história que começamos a contar hoje, apresentando a cena rock manauara dos anos 60.


Capa do jornal A Crítica em abril de 1966 (Reprodução): em plena ditadura militar, Manaus construiu algumas de suas maiores lendas da música.
O que Manaus viveu na década de 60 poderia facilmente ter gerado belas e críticas canções de rock, mas a crise econômica, a tentativa de internacionalização da Amazônia e a aposta na Zona Franca como maneira de integrar a cidade ao resto do Brasil germinariam e renderiam frutos autorais para o rock apenas uma década depois. Não porque a juventude da época não estava interessada em produção artística, mas porque o momento era de outras descobertas. Isolada do restante do país, em 60, Manaus passava por uma grande mudança socioeconômica e cultural, que contracenava com um período de crise, resultado ainda dos anos 20, quando a cidade, que era o grande centro de exportação de borracha do mundo, perdeu o seu monopólio de produção para o oriente.

Nem todos tinham alternativas para fugir do impacto que a cidade sofria, mas se envolver com arte foi o caminho trilhado por uma parte da juventude amazonense, que, através do cinema e do rádio, começou a disseminar o rock pela cidade. Enquanto os hits que eram tocados no rádio divulgavam o rock internacional e nacional, o cinema mostrava os filmes musicais que eram sucesso na época. O primeiro programa radiofônico ligado ao rock foi o Chegou a Hora do Rock, que estreou em 1961, na Rádio Rio Mar. Comandado pelo jornalista Joaquim Marinho, a programação chegou para mudar o estilo de música tocado nas rádios locais, até então praticamente monopolizadas pelas baladas românticas de gente como Nelson Gonçalves e Anísio Silva.

"Eu viajava bastante. Comecei a comprar discos e a ouvir rock. Como era radialista, dei a ideia", contou Marinho em entrevista ao New Yeah no final do ano passado. "Colocava Elvis Presley, Bill Harley, Sérgio Murilo... tudo que eu tinha de rock eu colocava na programação. De repente, as pessoas começaram a responder, a gostar e a pedir mais". A cidade, que vivia um boom cultural, tinha nos cinemas a exibição de filmes musicais incentivando a juventude a escolher o lado do rock."Tínhamos uma cena de cineclubes bem forte e a maioria dos cinemas exibia filmes do Elvis e dos Beatles", explicou o influente radialista.

Joaquim Marinho (Jornal do Comércio, Manaus, ago. 1971), importante embaixador do rock em Manaus, foi o primeiro a levar o estilo para as rádios do Amazonas.


Por conta da distância e do acesso, quem quisesse ter os discos que Marinho tocava na rádio teria que sair de Manaus para comprá-los em outros centros. Joaquim Marinho era um dos que estavam em vantagem nesta logística. Além de ser jornalista, também trabalhava como representante de discos da Philips, da qual recebia todos os lançamentos. Marinho também viajava bastante e, em 1964, após passar dois meses em Los Angeles (EUA), voltou com uma cópia do Please Please Me, primeiro álbum dos Beatles. As canções do disco logo tocariam na rádio e, depois disso, chegariam aos bailes locais. A partir daí, os garotos de Liverpool, influentes em todo o mundo naquela década, passariam a ter forte impacto também em Manaus.

Além de Marinho, alguns outros manauaras também conseguiam trazer preciosidades para a cidade. Segundo conta o jornalista, a cena artística da capital amazonense era comandada pela juventude de classe média e alta, que, em viagens internacionais e ao sudeste, trazia para a capital do Amazonas discos que nunca seriam encontrados normalmente por ali. Depois, tudo era distribuído na casa de amigos em encontros semanais.

Enquanto alguns traziam discos de fora, o rádio e o cinema locais influenciavam a juventude manauara a querer tocar em uma banda. E foi assim que a The Beats Rock, primeiro grupo do estilo em Manaus, surgiu. Com Marinho nos vocais e na bateria; Evandro Ribeiro, no contrabaixo; Assis Mourão, no piano; e David Pennington, na guitarra e vocais, a banda fazia cover dos Beatles e tocou por cerca de cinco anos na região."Eu era um péssimo baterista, mas essa movimentação aconteceu porque estava todo mundo tarado pelo rock que tocava no cinema. Além do mais, estávamos conhecendo muitas bandas pelos discos que eu recebia da Philips e colocava para tocar na rádio. De repente, outras bandas começaram a surgir também", lembra o jornalista.

Os Beatles desembarcam na América, em 1964 (Hulton Archive, Getty Images): enquanto o fab four visitava pessoalmente alguns lugares do mundo, Manaus contava com embaixadores que traziam a música da banda aos amazonenses.


Wandler Cunha, músico na época e hoje luthier, assistia ao mesmo cenário, e participava ativamente de tudo. Ao todo, tocou em  11 bandas diferentes na época, das quais quatro foram fundadas por ele, inclusive as notáveis Blue Bird Band, The Rights e Os Embaixadores. "Ouvir Os Incríveis, Beatles e Beach Boys na rádio nos deixava com vontade de fazer igual. Nos reuníamos para tocar na casa de amigos e nas festas em casas de famílias. Chamávamos isso de 'brincadeira'. Íamos sem ser convidados, só com o violão nas costas. Queríamos aparecer, flertar e conquistar as meninas com o cabelo, que estava igual ao dos Beatles", contou em entrevista ao New Yeah.

Segundo Wandler, os rapazes aproveitavam o intervalo das vitrolas nas festas para mostrar o que tinham aprendido a tocar. "As vezes, quando não sabíamos as músicas, inventávamos outras. Lógico, tínhamos influências dos cantores brasileiros, como Roberto Carlos, Golden Boys, Jerry Adriani, Sérgio Murilo, além dos Beatles. Para você ver... Beatles surgiu lá em Liverpool e respingou aqui no meio do mato", contou o luthier.

Ditadura militar: Integrar para não entregar


Enquanto a juventude manauara fazia suas descobertas musicais, a ditadura militar impunha o discurso nacionalista de unificar o Brasil, com o objetivo de ocupar a área amazônica por medo da internacionalização. A partir de 1964, as ações do governo militar no Amazonas, comandadas pelo governador Arthur César Ferreira Reis, passariam por criações de estradas, incentivos aos interessados em produzir na região e o início de mudanças significativas e catastróficas aos povos indígenas*.

O estado brigava para ser integrado ao restante do país, ser reconhecido pelas suas riquezas e evitar a internacionalização. Logo, Arthur Reis viu que precisava mostrar o valor do Amazonas para que o estado fosse nacionalmente aceito. Considerado ambíguo por alguns historiadores, o governo de Arthur Reis, ao mesmo tempo que censurou manifestações artísticas, criou festivais de música e fundou o Conselho Estadual de Cultura. O governador chegou a encomendar ao poeta e compositor Áureo Nonato uma música intitulada Manaus, para incentivar a população "a se sentir como amazonense". Além disso, criou o selo Edições do Governo do Amazonas da Imprensa Oficial do Estado, para publicações de livros. Também incentivou festivais de cinema e de música, e convidou o cineasta Glauber Rocha para produzir um curta-metragem, que resultou no documentário Amazonas, Amazonas.




Por alguns, Arthur era considerado um intelectual e amigo das artes. Mas, pelas características de suas ações culturais, o governador estava mais interessado em impossibilitar a hegemonia cultural da esquerda** e discursar, através da arte pela integração nacional. Ainda que a industria cultural influenciasse o crescimento da música, principalmente do rock, as mobilizações e criações de festivais incentivadas pelo governador na época foram fundamentais.

Um dos principais festivais da história de Manaus surgiu no ano de 1967. Organizado pelo Diretório Central dos Estudantes da Universidade do Amazonas (que atualmente é a UFAM), o Festival Estudantil de Música Popular Brasileira, movimentou a cena artística da cidade. Um dos organizadores era justamente Joaquim Marinho, que estava em todas e, na época, coordenava o Departamento de Turismo e Promoção (uma espécie de junção da Secretaria de Cultura com a Secretaria de Turismo do Estado). O festival teve três edições e trouxe shows de artistas nacionais, como Jards Macalé, Gilberto Gil e Chico Buarque.

Foram com os festivais que começaram a surgir as composições autorais dos cantores manauaras, tornando o evento um marco importante para a criação dos artistas locais. "As bandas compunham antes, mas ainda era samba ou músicas ligadas às vertentes indígenas. Com os festivais, surgiu o interesse de compor para participar do evento com músicas de outros gêneros. Muita gente começou a aparecer", contou Joaquim Marinho.

Depois, houve o Festival Estudantil de Música Popular Brasileira de 1969, que ocorreu no Rio Negro Clube e contou com a participação d'Os Mutantes, que tinham acabado de se classificar para a final do Festival Internacional da Música, no Rio de Janeiro. No auge da Tropicália, o grupo estava encerrando a gravação do álbum Divina Comédia ou Ando Meio Desligado. Wandler Cunha e Ilton Oliveira, fãs da banda, tiveram a oportunidade de tocar no mesmo palco, onde interpretaram "Jogo de Calçada". O que eles não esperavam era que Os Mutantes iriam gostar tanto da sua música a ponto de interceptar os manauaras na saída do palco.

Walter, Peninha, Rubélio e Celso (aldisio): interpretam "De Céu, Terra e Mar", segundo lugar no festival de 1969.


"Assim que terminamos, o Joaquim Marinho chamou dizendo que o Sérgio Dias queria falar com a gente. Eu até me surpreendi. Fomos lá e ouvimos que ele queria regravar 'Jogo de Estrada' no LP que estava para sair", lembra Wandler, antes de imitar o sotaque paulista de Sérgio. "Ele nos disse:  'só falta uma musiquinha'". Arnaldo Baptista, vocalista e arranjador da banda, mudou cerca de cinco palavras e assinou a parceria da música. "Independente disso, o resultado foi maravilhoso, porque eles pegaram a nossa música, que era uma mistura de baião com rock, e adicionaram um funk. Ficou uma música bem gostosa e revolucionária", disse. Segundo Wandler, o acontecido não mudou muita coisa na vida dele. "Por onde passava, as pessoas me chamavam de 'Wandinho dos Mutantes', mas continuei trabalhando para sobreviver. Tocava em outras bandas, mas não com aquele pensamento de querer ser famoso só porque tinha uma música gravada pelos Mutantes", disse.

O "Wandinho dos Mutantes" continuou criando outras músicas e se manteve envolvido na cena musical de Manaus até a década de 80. "Nunca fiquei com a ideia fixa de gravar disco. Sempre fiz o trabalho musical que eu gostava. Não queria fazer por fazer. Não era minha prioridade ficar rico ou famoso. Minha prioridade era fazer um curso e me tornar um luthier", lembra ele, enfatizando a profissão que exerce ainda hoje na cidade de Brasília.

O mesmo festival teve ainda três grandes edições. Arquivos dos jornais da época, A Crítica e Jornal do Comércio, mostram que o evento era esperado durante todo o ano e rendia festas pré e pós-festival. As críticas eram sempre voltadas para a qualidade do som e das músicas "que pouco comunicavam a inquietação de um Amazonas melhor",como escreveu um repórter no jornal A Crítica em setembro de 1969. Também se comentava que a torcida, que gritava eufórica pela sua banda favorita, atrapalhava o corpo de jurados.

Nos registros, está também a emoção com cheiro de mofo e em forma de palavras já quase ilegíveis por conta do tempo. Também está lá a emoção dos jovens de poderem se expressar e participar de um grande festival de música que marcou a história da década, das artes e da região norte do Brasil. Enfim, estávamos prontos para os anos 70.



* Relatórios da Comissão Nacional da Verdade apontaram que 2.650 índios da etnia Waimiri-Atroari, do Amazonas foram mortos durante o período de construção e pavimentação de estradas; e por mineradores e garimpeiros que exploravam o território. ** Desde 1954, havia em Manaus o Clube da Madrugada, um movimento de estudantes e profissionais liberais que ambientavam os ideais modernistas à cultura local. O Clube da Madrugada buscava combater o academicismo na pintura e o romantismo na literatura local. Segundo Jorge Tufic, no livro Clube da Madrugada: 30 anos, o Clube, durante a ditadura, era o alvo preferencial dos Inquéritos Policiais Militares. 

BENAION, Noval. Música popular em Manaus. Manaus, UFAM, 14 jul. 2011. Registro sobre o cenário musical em Manaus na década de 1960. Entrevista concedida a Lucyanne de Melo Afonso.

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