A morte não há de calar Fernando

Porto Alegre, Brasil
Falecido no último final de semana, o célebre compositor mineiro deixa uma obra que pode ser medida em números, mas que é notável também em aspectos que os números não podem medir.

Fernando era um cara discreto. Homem público às avessas, apareceu pouco na mídia ao longo das quatro décadas em que isso foi possível. Pouco se escrevia sobre ele, e pouco se ouvia do mineiro a respeito dele próprio. Ainda assim, ele foi figura presente em algumas das minhas audições, e até por isso assegurou um espaço interessante na minha memória musical. E tudo começou meio de repente. Aos 17 anos, me apaixonei por uma série de canções e, meses mais tarde, descobri que Fernando Brant havia escrito quase todas elas. De uma hora pra outra, o meu imaginário de paisagens e versos passava a ter um responsável, e eu precisava, por questão de honra, saber mais sobre ele.



Meu primeiro contato com Fernando Brant foi meio covarde de sua parte, porque aconteceu intermediado pela voz de Milton Nascimento e sob as notas de "Travessia". A imagem de um homem forte que, em determinado dia, se deu o direito de chorar me fez correr atrás da história da canção. Descobri que dela havia sido a primeira letra escrita por Fernando, já na segunda metade da década de 60.

Milton teria feito a música e dado a Fernando, então jornalista em Belo Horizonte, a missão de colocar os versos sobre as notas. Futuro poeta, mas ainda muito preso ao formalismo das redações, ele rejeitou a proposta da boca para fora e, secretamente, aceitou o desafio. Passado algum tempo, apareceu com um papel rabiscado, que entregou ao Milton em uma conversa despretensiosa de bar. A junção das coisas ocorreu com um violão furtado da irmã de Fernando, no escuro de um quarto, no mesmo dia. Meses depois "Travessia" se tornaria o primeiro sucesso nacional de Milton ao conseguir o segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1967. Nascia um mito dos palcos e, na sua retaguarda, nascia um dos maiores compositores brasileiros do século passado.



Fernando foi um dos idealizadores poéticos do disco Clube da Esquina, considerado um dos maiores feitos da música mundial no século XX.


Ser alvo de culto não exige muito mais do que um único grande êxito na arte. Jeff Buckley, por exemplo, lançou apenas um (excelente) álbum em vida e é até hoje cultuado em todo mundo. Fernando, na contramão da fadiga que o êxito de "Travessia" poderia lhe trazer, seguiu compondo. Na companhia de Milton, Beto Guedes, irmãos Borges, Toninho Horta e Tavinho Moura, compôs o disco Clube da Esquina em 1972. Um sopro de poesia e um manifesto em favor da amizade em plenos anos de mais duro chumbo da ditadura militar brasileira. Nesse disco, o talento musical de um grupo no seu auge contracena com saídas verbais que também encontram Fernando Brant em seu maior momento. O disco ganhou o mundo, foi citado como influência por artistas como Pat Metheny, Paul Simon e Bjork, além de ser considerado por Robert Dimery, co-fundador da revista Rolling Stone, um dos maiores discos da história da música.

Compondo através das décadas, Fernando Brant se abraçou de forma definitiva no inconsciente brasileiro do século XX. Emprestou suas palavras a canções como "Paisagem da Janela", "Manuel, o Audaz""Sentinela" e "Maria, Maria". Foi absorvido de forma irreversível pela cultura brasileira e se fez presente até mesmo no cotidiano de quem acreditava nunca ter tido contato com a sua obra. Quando o cidadão pouco investigativo assistia à abertura da tele-novela Senhora do Destino, na Globo, e escutava o "mande notícias do mundo de lá, diz quem fica", estava ouvindo versos compostos por Fernando em 1985. Fernando se tornou inevitável. Até hoje, quando olhamos para uma foto antiga e pensamos que amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, estamos reproduzindo o pensamento de Fernando Brant em "Canção da América", de 1979.



Senhora do Destino (Globo, 2004): a abertura da atração na maior emissora do país trazia a letra de Fernando Brant na voz da então novata Maria Rita.

Nos últimos anos de vida, Fernando se recolheu abatido por problemas de saúde, mas continuou conversando comigo através dos meus fones de ouvido em canções de Elis Regina, Lô Borges e Milton Nascimento. Voltou à grande mídia no calor dos debates sobre direito autoral em instâncias do STF em 2014. Faleceu em junho de 2015, aos 68 anos, em manchetes que bombardearam a minha timeline convidando-me a escutá-lo com atenção em uma fria tarde de domingo. Aceitei o convite, mas quis fugir do óbvio.

Pedi desculpas aos discos de sempre na estante. Ignorei o ícone do iTunes que se oferecia na parte inferior da minha tela e preferi não apelar para as playlists que costumeiramente escuto e que, invariavelmente, sempre têm alguma frase de Fernando Brant entre as faixas. Fui para o Google, paginei inúmeras vezes o buscador e encontrei um disco chamado Conspiração dos Poetas, parceria de Fernando e Tavinho Moura lançada em 1997. A faixa 13, clara homenagem ao também mineiro Tiradentes, perguntava ao ouvinte "quem é o herói que a forca não pode calar". Em seguida, respondia: "É João e é Maria, que se dão bom dia. Dona Tereza, que coloca a mesa. Valdemar, que vai trabalhar. É quem carrega areia, quem faz cimento, quem amassa o pão e ama lua cheia".

Nos versos que valorizavam o herói cotidiano, Fernando reafirmava o seu talento ímpar em transformar simples fatos em grandes feitos através da palavra. De alguma forma, usou suas palavras para se tornar herói também e, da mesma forma como a forca não calou um certo Joaquim José, ver o amigo partir no último final de semana não há de calar Fernando Brant, que vai continuar sendo herói nas canções que a vida me ensinou a ouvir. Vá em paz e fique cá, no ouvido e no lado esquerdo do peito.



Carlos Viegas é publicitário, pesquisador cultural e diretor criativo da agência gaúcha Publibrand. Já trabalhou para a frente digital do Grupo Abril, liderou ações de comunicação estratégica para artistas da Som Livre e é editor do New Yeah desde 2013.

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