Por que Los Angeles ama o Morrissey?

Los Angeles, EUA
O oeste de Los Angeles tem algumas características bem peculiares. Entre elas, o gosto pela cultura mexicana talvez seja a mais notável. A grande concentração de latino-ianques encontrada por ali gerou ainda uma segunda característica bem marcante: a adoração por Morrissey, ex-vocalista dos Smiths, que faz sucesso por aqui desde a década de 80 e que instalou uma verdadeira cultura à parte na cidade. Por aqui, a melancolia da banda inglesa embala separações e amores perdidos há décadas, e canções como "Suedehead" e "The More You Ignore Me, The Closer I Get" já saíram do simples panorama musical e para figurar no cenário urbano de Los Angeles.

Publicado originalmente em inglês, por Javier Cabral, no blog Which Way LA. Traduzido por Celeste Pich e Carlos Viegas.


Cartaz do espetáculo Mexrrissey, que passou por Manchester em 2015: talvez só em sua terra natal Morrissey seja mais adorado do que no México e na cada vez mais mexicana Los Angeles.

O bar Eastside Luv, por exemplo, na região de Boyle Heights, sediou durante muito tempo uma noite temática de karaokê onde só se cantava Morrissey. A chamada MorrisseyOKE era repleta de mexicanos que cantavam as canções de Morrissey até serem expulsos pelo dono do bar. O club Echo Park's Part Time Punks, próximo dali, era a sede de uma noite trimestral de Morrissey e, mais recentemente, o Melody Lounge, em Chinatown, inaugurou um evento semelhante.

>> Leia também: 1987, o ano em que os Smiths colocaram Marx no topo das paradas britânicas.

Além desses bares onde a obra de Moz e dos Smiths pode ser encontrada e apreciada à exaustão, existe a convenção anual promovida pela rádio alternativa KROQ. E, mesmo quando não é "época de Morrissey", as bandas Sweet and Tender Hooligans e These Handsome rodam os bares da cidade fazendo covers. Nas duas bandas, há uma curiosidade: ambas têm à sua frente pelo menos um músico latino. Teria Morrissey algum tipo de "appeal" junto aos latinos de L.A.? Aparentemente, sim. A paixão pelo vocalista é geral na cidade, mas certamente encontra seu ponto mais crítico junto aos fãs latinos que moram por ali.


O Eastside Luv em noite de MorrisseyOKE, em 2012: gritos em inglês e espanhol acompanham os cantores desafinados que passam pelo palco.

Intrigado por este fenômeno, pedi ajuda à Nancy Marie Arteaga, uma fã alucinada do Moz, para encontrar outros três grandes fãs que tentaram esclarecer para mim de onde vem tamanha febre dos latinos pelo artista.

Vivian Guerrero, 34 anos, já foi a aproximadamente 150 shows de Morrissey e tem o seu autógrafo tatuado no braço. Ela descreve sua música como uma "ranchera-esque", devido a sua semelhança com a música folk mexicana do início do século 20, que também era recheada de temas como "essa pessoa me deixou" e "aquela pessoa não me quer". Segundo Vivian, "coisas que fazem os homens mexicanos beberem e chorarem em todas as reuniões de família". Essa semelhança explicaria o sucesso de Moz no México e na parcela mexicana dos Estados Unidos.

Vivian aponta ainda o momento em que a fanbase mexicana de Morrissey começou a crescer: foi em 1999, quando ele lançou Oye Esteban, uma coletânea de videoclipes. Durante a turnê que carregava o mesmo nome (latino) do trabalho, o cantor teria declarado em um show que "bem que queria ser mexicano". E Moz parece mesmo disposto a encarnar algumas problemáticas do povo mexicano em terras ianques. Em algumas músicas, ele explora o senso cultural confuso que tantos méxico-americanos contemplam em algum ponto da vida. Desafia também os paradigmas que atordoam os mexicanos em sua relação com os norte-americanos comuns, exposta em passagens onde o preconceito é marcante. A música "Mexico", por exemplo, fala sobre o privilégio dos brancos: “It seems if you’re rich and you’re white you’ll be alright / I just don’t see why this should be so.” (Parece que se você é rico e branco você vai ficar bem / Eu não vejo o porquê de ser assim.)
 

Vivian, antes de me dar tchau, me passou o contato de um grande amigo do México, José de Jesús Valderrama, 36 anos, médico em León, que viu Morrissey se apresentar em 43 oportunidades. Conversando com ele, ouvi que o motivo dos mexicanos serem tão obcecados por Morrissey tem a ver com o fato de terem crescido fortemente oprimidos pelo governo, pelo catolicismo e por um forte machismo patriarcal, tipicamente latino. "É fascinante ver um grande homem e artista expressar seus sentimentos com tanta facilidade e desapego, de maneira como nós, homens, sempre fomos educados a não fazer", disse Valderrama.

Ouvi essa frase de Valderrama e, imediatamente, pensei no meu pai, que era um verdadeiro macho. Ele cresceu nas ruas e era constantemente incomodado por policiais corruptos em Zacatecas. Depois, foi incomodado pelo controle de fronteiras do EUA nas primeiras vezes em que tentou imigrar pra cá, lá nos anos 50. Ele, além de machão, foi devoto fiel da Igreja Católica durante quase toda a sua vida.


Morrissey posa ao lado de um livro de Wilde: a sensibilidade de Morrissey teria influenciado os mexicanos, historicamente reprimidos por dogmas, a finalmente colocarem o seu sentimentalismo para fora.

De volta a Boyle Heights, encontrei Robert Zardaneta, de 39 anos. Ele é diretor da Youthbuild Boyle Heights, uma escola alternativa onde uma das aulas estuda a arte como reflexo da sociedade. A aula começa com Zardaneta lendo as letras de Morrissey para a sua turma, que tende a estar repleta de jovens que participam de grupos de grafite em Boyle Heights. "Muitas crianças começaram a dizer que aquelas essas letras poderiam muito bem estar em músicas de hip-hop", disse Zardaneta. "Foi engraçado ver suas expressões de what the fuck quando eu mostrei uma foto do Morrissey e disse que ele era o verdadeiro autor dos versos".

Zardaneta explicou como acabou gostando de Morrissey quando era um adolescente na L.A. dos anos 80. "Morrissey era fácil e barato de imitar. Tudo o que você precisava era de um jeans desbotado e um pouco de gel", lembra ele, explicando o sucesso do cantor em meio a fatia mexicana de L.A., tradicionalmente detentora de menores possibilidades financeiras. Mas Zardaneta ainda completa: não era só isso. "Se você ouvia Metallica, se sentia durão. Ouvindo Bobby Brown, você se sentia confiante. Morrissey era diferente. Era mais introspectivo e me dizia que era normal eu ser estranho. Estava tudo bem. E compreensão é extremamente importante quando você chega em uma certa idade".

Talvez Zardaneta tenha razão. Todo adolescente se sente estranho em algum momento. E conhecendo, o cotidiano dos latino-ianques, é possível ter contato com um povo que se sente estranho mesmo fora da adolescência, tamanha é a hostilidade que lhes acompanha durante a vida. Não é de se impressionar que esse pessoal tenha sentido a necessidade de um abraço, que acabou vindo em forma de canção.



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