Um videoclipe nos anos 10

Caxias do Sul, Brasil
Por Eduardo Panozzo.

No meio de ideias, pensamentos e planejamentos, me peguei pensando sobre o novo funcionamento do mercado musical, dos lançamentos de álbuns, singles, etc., e me deparei com uma pergunta: pra que serve um videoclipe hoje em dia?


"Heart-Shaped Box", Nirvana, 1993 (YouTube): a função do clipe é a mesma na "era pós-MTV"?


Este tipo de material audiovisual largamente utilizado por bandas de todos os gêneros possíveis já passou por várias fases desde o seu nascimento. Sabe-se que os Beatles, cansados de viajar pelo mundo para tocar em locais abarrotados de gente que só berrava e não ouvia nada do que eles estavam cantando, decidiram gravar vídeos para divulgar suas músicas. Eles enviavam estes vídeos para programas como o Ed Sulivan Show, nos EUA, para não precisar ir de fato até a lá. Inteligente.

Nestes vídeos, eles apareciam primeiro dando um alô para o público, se desculpando por não estarem lá ao vivo e a cores, dizendo o quão corridas suas vidas estavam e tal, o que mostra que o público não estava acostumado com este tipo de divulgação. Estamos falando dos anos 60, onde a globalização e as mídias de massa começam a se tornar mais e mais fortes.


Os Beatles no vídeo oficial de "Paperback Writer", de 1966: os primeiros esboços de uma linguagem de videoclipe que seria desenvolvida e explorada pela MTV a partir dos anos 80 (YouTube).


O tempo passou, e o videoclipe se afirmou como um material forte para a divulgação de um lançamento musical. Em 1981 surgiu nos EUA a MTV, abrindo espaço para que estas produções audiovisuais pudessem ser exibidas e apreciadas. Muitos dos artistas que hoje são considerados uns dos maiores de todos os tempos, como Michael Jackson, Queen e Nirvana, souberam utilizar muito bem este espaço e este novo modelo de divulgação (é nessa época que uma estética se define, e ele se transforma nisso que surge na sua cabeça quando você ouve a palavra "videoclipe".). Eu não vivi essa época, mas pelo que ouço e leio, alguns dos maiores sucessos dos anos 80 e 90 não seriam tão gigantescos se não fosse por este produto audiovisual.

Sim, produto. Eu realmente não sei qual era a relação das grandes gravadoras com canais como a MTV (se alguém souber, por favor, me conte), mas consigo imaginar algumas possibilidades. Ou a MTV comprava os videoclipes (afinal, era grande parte do seu conteúdo e o motivo da sua audiência estar ali), ou a MTV vendia o espaço para que as gravadoras pudessem exibir suas bandas e lançamentos através desse formato audiovisual (afinal, seu público-alvo estava assistindo ao canal). Basicamente como o funcionamento dos rádios, com os jabás, e tal. Pelo menos é isso que eu imagino que acontecia, o que mais faz sentido pra mim. Já ouvi alguém falando que a MTV não pagava nada para as gravadoras, e essas um dia perceberam que estavam produzindo conteúdo de graça para o canal lucrar em cima. Bem por isso, pararam de simplesmente dar os clipes, e foi aí que a MTV começou a falir e perder seu prestígio. Boatos, boatos por toda a parte.


Smells Like Teen Spirit (1991). O Nirvana entra na lista: os maiores nomes da música nos anos 80 e 90 foram aqueles que melhor souberam utilizar o recurso do videoclipe.


Bom, fato é que a partir daí, o videoclipe se tornou algo essencial para qualquer artista que desejasse dominar o mundo. Mas nesse meio tempo aconteceu uma coisinha chamada INTERNET, que simplesmente mudou tudo. Sabemos o que aconteceu com a indústria fonográfica, com o Napster e tudo isso, mas eu fico pensando nos videoclipes... Eles continuam sendo produzidos. Eles continuam sendo importantes? Qual é o papel deles hoje em dia?

Numa época pré-internet, a televisão (e o videoclipe, consequentemente) servia para que as pessoas pudessem ver os seus ídolos, tocando, dançando, falando ou simplesmente se mexendo (já é melhor que apenas uma foto). O videoclipe se justificava. Já hoje em dia, com Instagram, Snapchat e tudo mais, o público está vendo o artista o tempo todo. Mais do que isso, o público está lá com o artista! Isso é muito mais real do que um vídeo onde ele atua, finge que canta ou algo parecido, não é? É.

Mas existem mais personagens nessa história além de público e artista. As bandas independentes dependem muito do trabalho de blogs especializados, que falam sobre seu trabalho, divulgando e cobrindo lançamentos. A assessoria de imprensa que contata os jornalistas que escrevem para blogs como esses, seja ela feita pela própria banda ou algum selo, é capaz de ser mais eficiente se está com um material interessante, e novo, para ser mostrado. Por mais que tudo tenha mudado depois do surgimento da internet, jornalistas ainda consideram um videoclipe oficial um material rico, importante e digno de uma publicação. "Banda posta foto de ensaio no Instagram" não parece algo muito relevante, né?


Tame Impala - "Cause I'm A Man", de 2015: enquanto o mainstream reformula a linguagem do videoclipe, o audiovisual se transforma em aliado também dos grupos independentes. Ter um clipe é ter o que dizer em um cenário onde o silêncio pode ser fatal.


Ainda falando sobre o cenário independente, existem muitas bandas produzindo muitas coisas boas, o tempo todo. Não é exagero dizer que todo dia podemos encontrar algum lançamento de qualidade, vindo de algum canto do Brasil. É um certo paradoxo, mas o motivo desse número gigante de lançamentos é justamente o número gigante de lançamentos. Se uma banda ficar parada muito tempo, sem mostrar nada de novo para a mídia ou para o público, ela vai ser esquecida pelos dois. Vai ser atropelada pelas muitas outras bandas que estão logo atrás, "brigando" por atenção e relevância. Entre o lançamento de dois álbuns, algo que chama atenção de forma considerável mas consiste num intervalo de tempo bem grande, é inteligente que a banda produza conteúdo para continuar sendo vista, tanto pelo público como pela mídia. Este conteúdo pode ser o lançamento de um single, uma parceria com outro artista, um documentário ou, é claro, videocliples! Muitos. O máximo que puder. Um pra cada música é o ideal (haja energia).

Vivemos tempos em que as pessoas querem conteúdo para consumir. Quanto mais material uma banda tiver para se expressar, melhor o público pode conhecê-la. O videoclipe tem a capacidade de mostrar, visualmente, o que a banda pensa, quais são suas referências, seu senso estético e sua criatividade. Isso pode fazer com que a banda conquiste novos fãs, ou ainda que aqueles que já existem se apaixonem ainda mais pelo trabalho do grupo. O público tem fome, e o seu dever é alimentá-lo!

Tá esperando o que? Vai lá!

Eduardo Panozzo é uma das mentes por trás do selo/coletivo/gravadora Honey Bomb Records. Também é baixista/guitarrista do grupo gaúcho Catavento, destaque da música alternativa brasileira em 2014 com o clipe de "Bemeorgetagirl".

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