Que disco é esse que o Papa vai ouvir?

Porto Alegre, Brasil
Quando Evo Morales colocou um ícone do comunismo nas mãos do Papa Francisco, muita gente pensou que o presidente boliviano havia chegado ao grau máximo de audácia que um presente papal poderia alcançar. Conhecidos por se limitarem a meras bugigangas de puxa-saquismo, os presentes dados pelos chefes de estado ao líder mundial da Igreja Católica nunca foram de despertar maiores reflexões. Ficou claro que Evo havia aberto uma porta, pela qual Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, resolveu passar na última semana, ofertando ao Papa um exemplar do disco Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC's. O disco de 1997 é para muitos o maior marco do rap nacional. Passa ao largo do higienismo católico, mas vai de encontro a algumas preocupações mostradas pelo Papa argentino nos últimos tempos. Caetano, Adoniran e Tom Zé são bons, mas talvez nenhum deles tenha mostrado São Paulo tão nua e crua como fizeram os Racionais do meio para o final dos anos 90.



Em 1997, o rap já não era novidade no Brasil. Caras como Thaíde e MC Jack, por exemplo, já faziam relativo sucesso nas periferias desde o final dos anos 80. O estilo, no entanto, assim como a própria periferia, era bastante criminalizado. A época de profundas desigualdades sociais ainda vivia a ressaca do Massacre do Carandiru, que, mesmo com a execução de mais de 250 presos (em sua maioria de etnia negra), não havia sido o bastante para alardear os efeitos da desumanização do estado. Muito pelo contrário, a desumanização continuava sendo celebrada: o Coronel Ubiratan Guimarães, líder das execuções no Carandiru, havia se transformado em um herói nacional, achincalhado pelos defensores dos direitos humanos, mas eleito deputado estadual por São Paulo com quase 30 mil votos. Na mídia, o discurso dos telejornais não ajudava na compreensão dos fatos e agia como samba de uma nota só, aumentando os holofotes sobre a violência, potencializando o medo da população e contribuindo para a eleição de nomes da ainda emergente Bancada da Bala. A periferia precisava revidar toda a violência de alguma forma, e fez isso através da música. Sobrevivendo no Inferno não era um disco, era um documentário muito completo e fiel sobre a situação das populações marginalizadas do Brasil.

Talvez o Papa estranhe um pouco as batidas propositalmente simplórias que embalam o disco desde o seu primeiro minuto, mas talvez comemore a decisão do grupo paulista de embalar toda a sua indignação em uma roupagem repleta de ícones católicos. A capa, que traz uma cruz e um trecho do Salmo 23, tem ainda o nome da banda e da obra traçados com a fonte gótica utilizada pela Sociedade Bíblica do Brasil na época. A música que abre o trabalho traz o nome de um popular santo católico e a segunda música, "Gênesis", tem o nome do livro de abertura da Bíblia Ocidental.

"60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial.
A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras (...)" Capítulo 4 Versículo 3 - 1997

As referências não param por aí, e ainda são encontradas entre vocais de "aleluia", que de tão dramáticos mais parecem cantos gregos servindo de fundo para uma narrativa que mostra como a opção pelas drogas às vezes é a única opção para boa parte dos jovens pobres de um Brasil que antes dos Racionais nunca havia chegado ao grande público.

O discurso da periferia cantado em métricas facilmente decoráveis transformou Sobrevivendo no Inferno em um sucesso instantâneo ainda em 1997. E o disco foi entrando em território inimigo com a leveza que uma ocupação policial nunca conseguiria ter. Passou pelas rádios mais atentas, se popularizou em formato K7 e rodou o país nas mãos de pirateadores que tinham muito mais senso de mercado que os donos das grandes gravadoras (isso explica o que aconteceu com as gravadoras logo na década seguinte, mas aí é papo para outra hora). Os Racionais já estavam na crista da onda e o cenário para o golpe de misericórdia estava preparado. Então o clipe de "Diário de Um Detento" estourou em todo Brasil, levou o grupo para a MTV e mudou para sempre a música no país.



Desde 1998, um dos relatos mais famosos da cultura nacional começa em 1º de outubro de 1992, às 8:00 da manhã, sob o olhar sanguinário de um vigia. Apesar do grande esforço da Bancada da Bala em criminalizar a pobreza no Brasil, em 1998 a maioria da população nacional nunca havia estado dentro de um presídio, e o relato de Mano Brown, baseado no diário do ex-detento Jocenir, era de um realismo chocante. Detalhes como o relógio que andava em câmera lenta e a tristeza dos dias em que não havia visita ou futebol colocaram muitos cidadãos médios na condição de minoria por pelo menos oito minutos. Até os olhares curiosos de quem passava de metrô pela Linha 1, vizinha do presídio, foram lembrados nos versos. "Gente de bem, apressada, católica, lendo jornal, satisfeita, hipócrita, com raiva por dentro, a caminho do Centro", cantavam os Racionais retratando o sentimento de quem via o metrô pelas janelas desconfortáveis do cárcere. Caetano, Gil e Sepultura já haviam cantado sobre o presídio e sobre o próprio massacre, mas o discurso precisava estar na primeira pessoa pra mostrar a realidade mais de perto. Era a primeira vez que o "cidadão de bem" tinha à sua disposição esse ponto de vista. Até então, era todo mundo metrô.

O legado de Sobrevivendo no Inferno é de uma envergadura igualada por pouquíssimos trabalhos na música brasileira, e vai muito além das 1,5 milhões de cópias vendidas ou dos prêmios cedidos pela MTV. O disco inaugurou um novo olhar sobre a criminalização da pobreza no país e abriu caminho para a obra que jogaria de vez a merda no ventilador - o livro Estação Carandiru, de Dráuzio Varela - de 1999. O livro depois geraria um filme, que completaria a trilogia de obras fundamentais para entender o que era viver à margem no Brasil dos anos 90.

Não há, lógico, a ilusão de que o disco tenha mudado totalmente a opinião pública a respeito das fatias mais pobres de brasileiros, caso contrário, a juventude da periferia não se sentiria, em 2015, tão representada pelas palavras ditas por Mano Brown há quase 18 anos. A própria Bancada da Bala só cresceu de 1997 pra cá e os telejornais continuam comemorando ubiratãs e ocultando amarildos. Ainda assim, ver um disco que fala sobre desigualdade social chegando nas mãos de um Papa que demonstra séria preocupação com o tema é algo histórico. Lembram de quando Chávez presenteou Obama com um exemplar de As Veias Abertas da América Latina? É a mesma sensação: a obra está nas mãos de quem precisa ter contato com ela.

Em que isso muda a nossa realidade? Simbolicamente, em muita coisa. Na prática, talvez em nada. Mas as conquistas simbólicas também são importantes nesse tempo estranho em que vivemos. Um tempo em que Papas são mais progressista que filósofos. Um tempo em que o retrato mais fiel de uma cidade ainda é um disco gravado à oito mãos sob a efervescência de repertório que o Capão Novo é capaz de oferecer. Que bom que o prefeito de São Paulo pensa o mesmo que nós. E tomara que o Papa comece a pensar da mesma forma.

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