St. Pauli: futebol, rock e respeito

Hamburgo, Alemanha
Por Vitor Andrade.

É tarde de domingo em Hamburgo, Alemanha, e as ruas do bairro de Saint Pauli estão vazias. O motivo? Não se trata de uma missa na tradicional igreja de São Paulo, mas de algo muito mais sagrado para os moradores daquela região. Chegando perto do Millernton-Stadion, se descobre onde foi parar a população que havia sumido das ruas. Às 16h25, começa a tocar "Hells Bells", do AC/DC, e a torcida na arquibancada, que pinta os 29 mil lugares com a cor negra, começa a gritar e a agitar bandeiras que vão do tradicional símbolo de pirata com caveira e ossos até um enorme pano branco com a imagem rubro-negra de Che Guevara.

AC/DC rolando a partir de 1:22.

Entra em campo o time da casa: Tschauner, Schachten, Sobiech, Schindler, Maier, Buchtmann, Nehrig, Thorandt, Kalla… todos tão desconhecidos quanto ovacionados. Nenhum deles veio de fora da Alemanha, assim como também nunca jogou pela seleção alemã e também nunca ganhou qualquer título com o clube. Os "sinos do inferno" vão tocando enquanto os times entram em campo, em um espetáculo que impressiona os desavisados que vieram ali para ver um simples jogo da segunda divisão do campeonato alemão de futebol.



Che Guevara e caveiras se misturam na torcida do St. Pauli. (Reprodução)

No auge do movimento neonazista, o St. Pauli proibiu em seu estádio expressões com cunho de extrema direita. A média de público no estádio pulou de 1.600 para 20.000 pessoas.

Após os devidos cumprimentos dos árbitros e dos capitães, os jogadores se posicionam em seus campos e o juiz apita o começo da partida, às 16h30 da tarde, em ponto. A torcida se mantém majoritariamente de pé, levantando suas placas e bandeiras, e exaltando o nome do clube como se aquilo fosse um mantra.

Aos 3 minutos de jogo, o adversário marca um gol. A torcida se cala por alguns segundos. Porém, assim que o jogo recomeça, os gritos também são retomados. O primeiro tempo acaba 1 a 0 para os visitantes. Durante o intervalo são tocadas músicas de Black Sabbath, Slayer e Megadeth. A bola passa a ser chutada novamente após os devidos 15 minutos de descanso. O adversário, visivelmente superior, vai lá e anota mais dois gols. O juiz apita o final da partida: 3×0 para os visitantes. A música "Song 2", do Blur, tradicionalmente tocada quando o St. Pauli faz gols, ficaria sem ser ouvida naquela tarde. É possível então ver algumas expressões de tristeza e desapontamento, porém nenhuma de desprezo ou de raiva. É que o clube que acaba de perder não é um clube normal.

O Fußball-Club St. Pauli von 1910 e.V., conhecido como St. Pauli FC, não é um clube famoso por ter grandes jogadores ou títulos gloriosos, mas é mundialmente admirado pela sua postura rocker e pelo que prega, como instituição, fora das quatro linhas. Algumas décadas após a sua fundação, era apenas um clube tradicional que viajava entre as variadas ligas alemãs sem obter muito sucesso. Tudo começou a mudar quando, durante a década de 80, o clube se transferiu para a área costeira de Hamburgo, único local da Alemanha onde a prostituição é permitida pela lei.

O time passou a ganhar fãs na cena alternativa por seu direcionamento esquerdista, sua aproximação com o rock' n roll e seu ativismo social que eram transferidos para a atmosfera intensa das partidas. Nesta época, o surgimento do movimento neonazista e a violência do hooliganismo, de raiz fascista, assombravam os estádios em toda a Europa. O St. Pauli agiu: expressões com cunho de extrema direita foram banidas do estádio, e foi proibida a associações de fãs que fossem denunciados por ter este direcionamento. A média de público no estádio pulou de 1.600 para 20.000 pessoas durante os anos 80.



Em bairros undergrounds, e com fachadas que lembram os inferninhos de Berlim, estão a sede e os fanshops do clube. (Reprodução)

O St. Pauli é um clube ativista, que se declara oficialmente anti-racista, antifascista, anti-homofóbico e antissexista. A sua torcida é fortemente identificada com a esquerda alemã, o seu ex-presidente, Corny Littmann, idolatrado pela torcida até hoje, é gay assumido e o estádio do clube possui uma bandeira de arco-íris fixada em sua cobertura.

O clube foi também o primeiro na Alemanha a criar um documento de Fundamentos Principais, com regras a serem seguidas por todos os envolvidos nas atividades do time. Nesse documento, há coisas do tipo:

- "O St. Pauli é parte da sociedade e, dessa forma, é afetado direta e indiretamente pelas mudanças nas esferas política, cultural e social".

- "O St. Pauli FC representa os interesses de seus sócios, funcionários, torcedores e beneméritos em assuntos que não se restringem apenas à esfera do esporte".

- "Tolerância e respeito nas relações humanas são pilares importantes da filosofia do St. Pauli".

- "Não existem 'melhores' ou 'piores' torcedores. Qualquer um pode expressar o seu jeito ou a sua maneira de torcer, desde que o seu comportamento não entre em conflito com as determinações acima".

A postura política e atitude tornaram o clube um fenômeno cult no mundo inteiro.

O St. Pauli possui hoje 11 milhões de torcedores apenas na Alemanha - mais do que a maioria dos times da primeira divisão - e também aproximadamente 500 fãs-clubes espalhados pelo mundo, número que rivaliza com o gigante Bayern de Munique. É o clube com o maior número de fãs do sexo feminino na Alemanha. É homenageado por bandas de punk rock no mundo inteiro - Bad Religion, Gaslight Anthem e The Sisters of Mercy, para citar algumas. O Millerntor-Stadion, estádio onde o clube recebe os seus jogos, tem fechado as últimas temporadas com uma média de público sempre acima de 95% da capacidade, mesmo nos anos em que os resultados dentro de campo não são tão animadores. “Este é um clube efetivamente dos torcedores, e não de alguém com dinheiro. O St Pauli é um time dos torcedores, que são também sócios do clube”, afirma o vice-presidente do clube, George Bernd.

De fato, o St. Pauli é irregular quando o assunto é ganhar jogos, mas é excepcional em ganhar o coração dos fãs de futebol. É um fenômeno que vai além dos gols, dos títulos, das estrelas e dos milhões de dólares que protagonizam a mídia esportiva. Um clube que realmente bate um bolão associando consciência social e rock'n roll ao esporte mais querido do mundo.



Vitor Andrade é jornalista e colabora com o New Yeah e com o portal Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da USP.

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