O único disco do filho único e outras histórias tristes

Porto Alegre, Brasil
Por Pedro Só.

Quando Tim Buckley saltou para a fama, o dinheiro que rapidamente entrou em sua conta fez com que muita coisa ficasse para trás. Uma dessas "coisas" foi um filho, que ele raramente voltou a rever. Na verdade, o viu uma única vez e logo depois morreu de overdose com apenas 28 anos, em 1975. O destino foi irônico e o filho abandonado, o jovem Jeff Buckley, também viria a ser um rockstar anos mais tarde, e também viria a morrer jovem. Afogado, aos 30, deixando para trás apenas um disco, Grace (1994). Tal como o próprio Jeff, Grace, o disco, foi o filho único e brilhante de um pai que partiu cedo.



Grace (1994) não era necessariamente um disco urgente, embora fosse bastante visceral. As letras talvez não chegassem perto das que o pai de Jeff escrevia, mas gritavam aos ouvidos mesmo com o cuidado que tinham em fugir do exibicionismo barato. Ao redor das letras, instrumentais com estruturas intrincadas, afinações de inusitado bom gosto à guitarra e o acompanhamento impecável de Matt Johnson na bateria e Mick Grondahl no baixo. E ainda um arrebatamento total, emoção desmedida nas interpretações. No conteúdo, amores, adeus, falta de medo da morte... tudo num tom que o crítico inglês Barney Hoskyns definiu como "êxtase insustentável".

Apesar de algumas críticas empolgadas, Grace vendeu somente 300 mil cópias em todo o território norte-americano durante os seus dois primeiros anos de circulação.

No repertório, além do talento para as composições que já nascia muito encaminhado, Jeff trazia ainda três covers belíssimas que transcendiam o rock, o pop e tudo mais: "Lilac Wine", dolorida canção famosa na voz de Nina Simone; a peça religiosa "Corpus Christi Carol", feita sob medida para corais impúberes, e a profana "Hallelujah", de Leonard Cohen, bem copiada da versão seminua que John Cale havia registrado no disco-tributo I'm Your Fan, de 1991.

Que máximo, né? Só que Grace não sacudiu o mundo quando foi lançado em agosto de 1994. Nos Estados Unidos, ainda vigorava o luto pós-suicídio de Kurt Cobain; no Reino Unido, o britpop vivia o seu auge e tomava para si boa parte das atenções. A revista Rolling Stone, em micareta histórica, havia dado cotação "três estrelas" (entre cinco) e diagnosticado a "imaturidade" do jovem artista. Do outro lado do Atlântico, ouvidos mais atentos até entenderam melhor. Na França, a revista Les Inrockuptibles cravou o rapaz como o "futuro do rock" e foi acompanhada nessa euforia por boa parte de seus leitores, que elegeram Jeff o artista do ano e Grace, o melhor disco de 1994.


(ACIMA) Jeff em foto da sessão onde clicou a capa de seu único álbum. Até hoje ninguém sabe dizer se o olhar triste era: a) com a intenção de complementar o conceito introspectivo do disco; b) porque Jeff tinha a tristeza sempre no rosto; c) todas as alternativas anteriores.
_


Por falar em ouvidos atentos, McCartney, Lou Reed, Tom Verlaine, Bowie e Page babaram em público. Ao comentar o fato com o amigo e jornalista Bill Flanagan, Jeff fez piada: "estou com um bom fã-clube de cinquentões". Humor, pelo jeito, não era o seu problema. A maior ânsia dele sempre esteve ligada mesmo à administração da herança paterna.

A ligação entre os buckleys quase não era afetiva, visto que o filho havia vivido quase que na ausência total do pai, mas estava explícita na voz, no rostinho bonito e numa série de influências e escolhas artísticas que tornavam a comparação inevitável.

O segundo grande conflito de Jeff foi o mesmo de Cobain. Com potencial para se transformar em um megastar, Jeff optou por shows pequenos e volumes baixo; fez questão de manter improvisos erráticos e arestas por aparar em suas canções. Pode parecer tolo, mas esse "ser ou não ser mainstream" era questão central nos anos 90. E provavelmente continua sendo para quem, palhaçadas da vida real à parte, leva obras loucamente a sério.

Jeff morreu aos 30, num acidente triste, mas com tintas poéticas: afogou-se à noite no rio Wolf, em Memphis. Reza a lenda, pouco depois de cantarolar "Whole Lotta Love". Triste ironia para o homem que, segundo alguns críticos, reunia Page e Plant no mesmo corpo. Mais uma ironia entre tantas outras vividas pelo sempre jovem Jeff em sua curta passagem de um disco só.

O que você achou disso?

Leia também:

Jim Morrison, morreu mesmo?

Histórias mal contadas, boatos estranhos surgidos com o tempo e possíveis reaparições após a morte até hoje criam muitas teorias em torno da morte do líder do The Doors. Continue lendo

Copyright © 2013 New Yeah Música, todos os direitos reservados.