Manaus anos 70: depois dos Beatles, as raízes

Manaus, Brasil
Enquanto, em 1970, Paul McCartney anunciava o fim dos Beatles, o governo brasileiro, imerso no regime militar, censurava todos os meios de comunicação, também torturando e exilando os que iam contra a ditadura. Nessa época, o Amazonas vivia também a sensação de sonho acabado. Os processos de desenvolvimento para a Amazônia Legal traziam desigualdades sociais, impactos ambientais, e, como consequência, prejuízos à qualidade de vida dos manauaras. Essa insatisfação achou lugar no coração e mente dos jovens artistas daquela década.

Alfredo Jatobá, do Tariri
Alfredo Jatobá, do Grupo Tariri (Felix Fink), nos anos 70: uma proposta musical de resgate da cultura indígena.


O momento era de descobertas interiores para produções exteriores. Os grandes festivais e os bailes aos poucos iam sendo substituídos por shows na rua e manifestações artísticas capazes de alcançar cada vez mais a população e incomodar (e muito) a censura.

Antes disso, o início da década ainda contou com alguns significativos festivais. Em 1970, o Festival Estudantil da Música Popular Brasileira apresentou a sua última edição, no salão do Olímpico Clube, com uma similaridade ao Festival Internacional da Canção, que ocorria no Maracanãzinho (Rio de Janeiro). O Jornal A Crítica do dia 4 de novembro de 1970 registrou que, de 63 músicas inscritas no III Festival Estudantil, "apenas 32 poderiam ser apresentadas", segundo a decisão da Comissão de Seleção.

O Juri oficial do festival trazia o cantor Jards Macalé, da vanguarda paulistana, e o compositor e poeta brasileiro José Carlos Capinam. O prêmio para o ganhador do festival daquele ano era o troféu Upa Neguinho, que a gravadora Philips havia concedido ao primeiro lugar dos festivais considerados "de bom nível" no Brasil. O campeão ainda levava para casa três mil cruzeiros dados pela Prefeitura de Manaus.

No primeiro dia do festival, 5 de novembro de 1970, o evento começou atrasado e contou com uma chuva que abriu goteiras no teto do clube. A impaciência do público foi registrada pelo Jornal A Crítica da mesma data. O diário dizia ainda que a confusão era como um princípio de "anarquia geral entre os jovens". Nem os três amplificadores e os quatro alto-falantes no palco conseguiram abafar a gritaria. "Quem mais sofreu com o alarido geral foi o júri. A mesa julgadora foi colocada no meio da plateia, ficando cercada e cheia de bolas de papel lançadas incessantemente do começo ao fim da noite. [...] Na altura da apresentação da música 'Tuturello', o compositor Capinam, do júri, acabou aderindo à participação vibrando junto com os mil jovens ruidosos que não tinham nada de espectadores".

III Festival Estudantil
O controverso III Festival Estudantil de 1970 (Reprodução Jornal A Crítica): barulho sobre o palco, mas, principalmente, na plateia.


O jornal registra ainda que Macalé e Capinam ficaram impressionados com o nível das músicas amazonenses. Capinam, ao A Crítica do dia 5 de novembro de 1970, contou que "apesar de ter gostado do festival" as letras eram "ingênuas". "Mas de forma alguma esperava encontrar um bom nível no Festival das Selvas. A gente está lá e não tem nem ideia do que está acontecendo aqui", disse.

O último registro do III Festival Estudantil, no jornal A Crítica do dia 8 de novembro de 1970, classifica o evento como o "maior" até então realizado no Amazonas. "Houve de tudo. O melhor foi o pior, o público concordou com o júri, houve desistência, improvisações, houve revoltados e tudo o mais para festa explodir", contava um jornalista que não teve o nome assinado na matéria.

Tá um lixo!

"Se não é música boa com letra ruim é letra boa com música ruim. Tá um lixo!". Este foi a feedback dado aos 31 músicos que tiveram suas canções desclassificadas pela Comissão de Seleção do III Festival Estudantil de MPB. A resposta poderia ser engolida e encarada como um incentivo para melhorar as músicas, visto que se sabe que há possibilidades de classificação e desclassificação em festivais. Mas o contexto histórico era outro. Os artistas sabiam que estavam eliminados pelas suas letras de protesto e por estarem, na época, ousando nos riffs de guitarra. Foi assim que, em 1971, nasceu o Woodstock manauara, chamado de Festival do Lixo, pensado e organizado por um grupo de mais ou menos 10 pessoas. Era um festival não competitivo para "abrigar o lixo" desclassificado pela comissão no festival anterior.

"Os jurados eram conservadores. Olhavam para as nossas músicas com hostilidade, falavam que nossas letras eram ruins, reclamavam das nossas guitarras. Só queriam músicas românticas no festival", contou ao New Yeah o poeta e jornalista Aldísio Filgueiras, que participou da cena artística de Manaus nas décadas de 60 e 70, e que teve uma de suas músicas desclassificadas no Festival Estudantil.


Manchete de 1972 traz retrospectiva dos principais fatos de Manaus no ano anterior (Reprodução Jornal do Comércio): entre as coisas mais mal executadas, estava o Festival do Lixo.

A Praia da Ponta Negra era onde aconteceria o festival. E mais: o palco ficaria dentro do rio. O que parecia um absurdo foi facilmente resolvido com a ajuda de amigos arquitetos e marceneiros, que conseguiram montar a estrutura dentro d'água. "O arquiteto Mário Toledo arquitetou o palco dentro do rio. Um palco imenso, não lembro o tamanho, com toda estrutura para não desabar e para aguentar as torres de som. Nossa vida, nos três meses que antecederam o festival, era para organizá-lo", disse Aldísio. Mas essa era só a primeira dificuldade.

A censura estava ali para dificultar todas as possibilidades de realização do festival contracultural. O primeiro empecilho colocado pela Polícia Federal foi o local, considerado impróprio e concentrador de "maconheiros". Depois de três meses, a PF autorizou, mas com uma condição: que ele não se chamasse Festival do Lixo, visto que o nome era considerado depreciativo. "Tentamos explicar que era porque tinham chamado nossas músicas de lixo e que assumimos que somos lixos. Mas eles diziam que não podia, porque era um incentivo a marginalidade. Só sei que o Ilton Oliveira e o Wandler tiveram a ideia de colocar o nome do festival de Exposisom e a PF aceitou", contou o poeta.

A 1º Exposisom, que antigamente era o Festival do Lixo

Após mudar o nome, os organizadores pensaram em uma forma de deixar subentendido que a Exposisom se tratava do Festival do Lixo. "Os caras não entendiam nosso humor. Mas, quando anunciávamos por aí o festival, escrevíamos e falávamos assim: 'A 1º Exposisom, que antigamente era o Festival do Lixo, agora é a Exposisom, também chamada de Festival do Lixo'. Se não o pessoal ia pensar que era outra coisa", explicou Aldísio rindo.

Para Wandler Cunha, que participou dos dois festivais, algumas obras foram classificadas como lixo porque experimentavam formas não convencionais de criar música. "Talvez tenhamos sido considerados lixo porque estávamos saindo da forma tradicional. Estávamos arriscando coisas mais eletrônicas, letras mais revolucionárias. Eram mudanças de tempo. Eu sei que aquilo foi um movimento político para mostrar que tínhamos valor. Ninguém queria ganhar festival. Estávamos ali para fazer arte e mostrar nossa evolução", contou.

Na véspera do evento, o grupo lembrou de algo essencial para a realização de um festival de música: o som. "Lá estávamos nós, frustrados, morrendo na praia. Tinha 80 músicas inscritas de um monte de gente. Nós nem ouvíamos as músicas, não queríamos saber, ninguém estava fazendo seleção de nada. De repente, nos damos conta que não tínhamos a aparelhagem de som", contou Aldísio. Então lembraram de José Azevedo, dono da loja de eletrônicos TVlar, que alugava toda a aparelhagem necessária com um seguro de 7 mil cruzeiros.

Já sem esperança e sem dinheiro, e pensando na vergonha que seria cancelar o festival na véspera, o grupo foi surpreendido. "Chegou um moleque da nossa idade pedindo para inscrever a música. Isso era umas 16h do sábado, o festival seria no domingo de manhã. Quando ele falou que queria inscrever duas músicas, e perguntou se ainda dava tempo, contamos que não teria mais festival porque não tínhamos dinheiro para o som. De repente, o garoto disse que o pai dele poderia arranjar o dinheiro. Só pensamos: 'que porra de pai que arranja tanto dinheiro pro filho só para ele participar de um festival?'", contou Aldísio. Indo com o menino, descobriram que o seu pai era um grande empresário da cidade. O filho explicou porque queria o dinheiro e o pai assinou o cheque. "Ficamos pensando que o velho estava doido, ou que o cheque era sem fundo. Mas garantimos que ia dar tudo certo e voltaríamos para devolver o cheque. Depois fomos atrás do José Azevedo, isso por volta das 20h do sábado. Ele não estava mais na loja, tinha ido ao cinema com a esposa. Lá fomos nós atrás dele no cinema. Sei que conseguimos, por volta das 22h, pegar a aparelhagem, montamos tudo e, lá pelas 4h da manhã do domingo, o palco estava montado, finalmente", contou.

Turma maconheira responsável

Conta-se que o festival reuniu cerca de duas mil pessoas, em um dia de sol que casou perfeitamente com o rio e a paisagem que havia ao redor. Bastante visado pela polícia local, o evento não apresentou grandes problemas, algo surpreendente para uma reunião de pessoas bem grande para aquela época. Conforme Aldísio e Wandler, a única ocorrência negativa foi a morte de um homem que teve a perna decepada por uma voadeira.

"Ele resolveu andar perto do palco. Na hora, ficamos com medo dele jogar água nos instrumentos. Numa manobra, ele caiu e a voadeira cortou a perna dele. Ninguém achou a perna, infeccionou tudo e ele morreu. Fora isso, o evento foi um sucesso, tanto que quando fomos entregar o som e o cheque para o pai do moleque ele disse: 'nunca vi tanto maconheiro responsável!'", contou Filgueiras. 

O Festival do Lixo só teve uma edição, mas marcou pela iniciativa em um período tão turbulento, como foi a ditadura. Por ingenuidade, no decorrer das pesquisas desta matéria, surgiu até a dúvida se o evento não teria existido apenas no imaginário dos entrevistados, por conta da quantidade de histórias envoltas em informações pouco consistentes. Porém, ao encontrar um único registro no Jornal do Comércio, sobre a retrospectiva de 1971, estava lá o festival, como um dos 10 piores acontecimentos do ano. Foi quando se entendeu porque foi tão difícil encontrar o registro. O festival havia cumprido seu papel.

Jornal do Comércio - Festival do Lixo
Os maiores desastres de Manaus em 1971 (Reprodução Jornal do Comércio): trecho que ignorava o acontecimento cultural preferia sensacionalizar a morte ocorrida no mesmo dia.

Nunca serás Liverpool

Considerada um dos hinos da cidade de Manaus, a música "Porto de Lenha", composta em 1978 por Aldísio e Zeca Torres (o Torrinho) é uma das letras que mais soube falar do momento pelo qual a cidade passou nos anos 70. Além da música representar o processo de colonização estrangeira e nacional, ela marcava um período de valorização da cultura local. A cena musical, que tinha uma grande amizade com o teatro, em especial com o grupo do Teatro Experimental do Sesc (Tesc), começava a trazer em seus conteúdos um discurso crítico regional.

Diretor do Tesc e escritor, Márcio Souza começou o processo de ensaio da peça "Zona Franca Mon Amour". Aldísio, que também participava do Tesc e apresentou o poema "Porto de Lenha" a Zeca Torres e Wandler Cunha, foi pedir de Torrinho uma música para ser tocada ao final da peça.

"Nós tínhamos musicado vários dos poemas que o Aldísio tinha nos dado, mas tudo ficou engavetado. Num belo dia, ele ligou dizendo que a peça poderia ser liberada pela censura desde que abrisse mão do nome 'Zona Franca' como título. A peça ia ser chamar 'Tem piranha no pirarucu'. O Aldísio pediu então uma música que apresentasse uma visão crítica da Zona Franca, para que os atores terminassem a peça cantando", disse Torres ao New Yeah.



Zeca Torres interpreta Porto de Lenha no show 3 Cantos do Brasil (2011)

Longe de ter grandes riffs de guitarra ou uma velocidade similar aos clássicos do rock, a canção conseguiria, em sua letra e sutileza, sintetizar muito bem a época. Só por isso, foi considerada um rock desde o seu nascimento. "Nós não conseguíamos fazer muita distinção de quem estava fazendo rock. Tudo era rock. Se você fazia algo com muita vontade, que contestasse os modelos estabelecidos, era rock", disse Alfredo Jatobá, um dos artistas que participavam da cena de música de Manaus.

O público do Tesc era composto por jovens envolvidos em diversas ramificações da arte, o que ajudava a colaborar com os espetáculos. Em parceria com os que se disponibilizavam, o Tesc começou a criar suas músicas e a tocar músicas de artistas locais, e chegou a ter um grupo musical chamado A Gente. "Era um grupo que fazia música, mas era muito ligado ao teatro e outras artes. Fizemos algumas coisas e chegamos a entrar em temporada com um show. Inclusive a 'Porto de Lenha' foi muito repercutida por causa do A Gente. O Tesc lotado e todo mundo cantando...", contou saudoso Torres.

Havia uma nítida distância dos grandes centros do Brasil, mas os artistas não estavam interessados em deixar Manaus para tentar fazer sucesso longe da sua cidade natal. Aos poucos, Manaus foi criando as suas características culturais e deixando de copiar e reproduzir o que era de fora. Para Aldísio, essas características foram sendo perdidas aos poucos a cada ano. "Quando eramos mais jovens, viajávamos para a Europa e para os Estados Unidos para descobrir novos conhecimentos. Não íamos comprar tênis, íamos trazer cultura, livros, discos. Então, no meu ponto de vista, o que dificulta termos uma cena de rock tão significativa, para nós mesmos da cidade, é a falta de foco com a solidariedade humana. Falta um viagra nessa juventude!", comentou.

Nós nem sonhávamos em virar um grupo

Nos anos 70, o processo de ocupação da Amazônia, com os projetos de construção da Rodovia Transamazônica e a expansão da Zona Franca de Manaus, refletia em desvalorização dos indígenas, dos ribeirinhos e dos povos da floresta. Esse contexto foi despertando, em parte da juventude manauara, uma valorização da ancestralidade indígena. Alguns grupos musicais foram surgindo e ocupando as áreas da cidade com músicas que falavam de todo este contexto histórico que o Amazonas estava vivendo. Um desses grupos foi o Tariri*, que surgiu após uma turma de artistas se reunirem na esquina da avenida Eduardo Ribeiro com a rua 24 de Maio, em Manaus. "Passávamos a noite tocando. No começo, eramos quatro ou cinco amigos. Quando percebemos, já reuníamos um bom grupo. Virou um movimento na rua que foi chamando a atenção. Nós nem sonhávamos em fazer um grupo", contou Alfredo Jatobá, flautista e um dos fundadores do Tariri.

O maior motivo para o surgimento do Tariri era descobrir uma linguagem que desse valor para a questão indígena. "Inventamos o que fazer. Nos encontrávamos e era uma maneira agradável de conviver e tocar nossas músicas e de pessoas que admirávamos, dos nossos amigos", contou Jatobá. A pesquisa do Tariri era voltada para a valorização indígena e a descoberta do que realmente era a música amazônica. Uma das letras, "Latinizada", por exemplo, dizia:

“Manchas negras nos rios, sangra a terra de dor, todos eles mortos de passo lento, traços cansados, sem terra e sem voz. Índios que morrem na noite esquecida da América”.



O Grupo Tariri, nos anos 70 (Felix Fink.): era rock porque era feito com vontade, por mais que não houvesse guitarras no palco.


"Precisávamos fazer algo com nossos valores. A ditadura estava ali, a censura, a colonização. Quase todos nós eramos universitários e a universidade discutia muito sobre a identidade do estado. Aquilo nos movimentava. Se hoje todo mundo diz que aceita e que é 'índio', naquela época ser chamado assim era um pecado, era ser inferior", contou Jatobá. O grupo passou a fazer parte de atos políticos e assembleias estudantis até quando surgiu o primeiro show no Teatro Amazonas. Intitulado Made Madeira, o evento lotou o teatro, que tem capacidade para 701 pessoas. O Tariri começou a ficar conhecido pela forma de alcançar o público: não só continuava a tocar nas esquinas, mas percorria todas as zonas da cidade mostrando as músicas e dando espaços para outros artistas. "Se íamos tocar no Educandos (bairro da zona sul de Manaus), levávamos cartazes, conversávamos com as pessoas, procurávamos saber quem produzia arte. Às vezes, no meio do show, abríamos para quem quisesses se manifestar. Tanto que, quando fomos fazer esse primeiro show no Teatro Amazonas, veio gente da zona leste, sul, centro-oeste... de todos os lugares", contou Alfredo.

Além do Tariri, outros grupos musicais e artísticos foram surgindo em Manaus, como o Moronguetá e o Veneno da Madrugada. Cada um com sua inquietação em forma de música. Os causos, histórias, os jornais e o que sobrou de registros dessa década podem ser resumidos na palavra intensidade. Mesmo com uma ditadura nas costas, tudo o que a juventude tocava com os olhos e ouvidos virava arte e ocupava os lugares permitidos de Manaus. A partir dali, pelo menos na arte, aquele Porto de Lenha nunca seria Liverpool. Ainda bem. Respeitando a herança da mítica cidade inglesa, Manaus desenharia a sua própria história, com seus traços, suas frases e, principalmente, sua cor.

*Tariri é uma tinta preta que adorna o corpo. É usada por povos indígenas em festas e em preparações para a guerra.

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