Jim Morrison morreu mesmo?

Porto Alegre, Brasil
Entre os grandes nomes do rock que predominaram no final dos anos 60, três destacaram-se pela similaridade de suas carreiras e pelo fato de terem morrido com a mesma idade. O guitarrista Jimi Hendrix, a cantora Janis Joplin e o poeta-cantor Jim Morrison. Todos tiveram carreiras meteóricas, gravaram um número limitado de discos, foram adorados ao extremo e tiveram mortes súbitas aos 27 anos. Só isso já seria um prato cheio para conspirólogos, mas a morte de, Jim, vocalista do The Doors, ocorrida em julho de 1971, traz ainda outros elementos curiosos que até hoje chamam a atenção.

Jim Morrison morreu mesmo?

Boatos e prováveis reaparições pós-morte fizeram de Jim Morrison o primeiro exemplar de roqueiro morto entre aspas, anos antes de Elvis Presley.

Os Doors, há que se lembrar, nunca foram uma banda normal. Formada a partir da união de estudantes da University of California, a banda perambulou por dois anos pela cena de Los Angeles até entrar em estúdio e gravar um álbum de estreia que recebeu o nome do grupo. Deste disco, as rádios descobriram "Light My Fire", canção exótica que rapidamente transformou o The Doors em expoente da contracultura norte-americana. A canção foi a locomotiva de um disco que tirou o grupo do underground e o alçou ao mais alto escalão do mundo pop: em poucos meses, Jim Morrison deixou de ser um cara meio louco qualquer para se tornar um cara meio louco que recebia elogios públicos de John Lennon e pousava para sessões de fotografia da revista adolescente Sixteen.

Jim Morrison, do The Doors, pousa para a fotógrafa Gloria Stavers, da revista adolescente Sixteen, em junho de 1967.

Jim Morrison pousa para a fotógrafa Gloria Stavers, da revista adolescente Sixteen, em junho de 1967 (Fonte: The Doors, site oficial, em inglês).

Abraçado pelo pop mas não domado por ele, Jim seguiu sendo a mesma figura louca de sempre, mas agora com suas loucuras amplificadas pela mídia. Fora dos palcos, envolvia-se em corridas clandestinas com os valiosos automóveis que passou a adquirir. Sobre os palcos, mais de uma vez provocou policiais que faziam a segurança de seus shows. Em New Haven, chegou a confiscar o quepe de um policial à beira do palco para depois jogar a peça ao público.

O Incidente em Miami

A coisa já estava bem fora de controle quando a banda, contratada para tocar no Dinner Key Auditorium, desembarcou em Miami sem Jim Morrison. O vocalista havia perdido o vôo por estar bêbado demais, e se juntou ao grupo somente horas mais tarde, causando o atraso do show. Na ocasião, os promotores haviam ainda vendido mais ingressos do que a capacidade do lugar recomendaria, e a banda, liderada por um vocalista ainda desnorteado, iniciou a sua apresentação sob atrasos, superlotação e clima tenso. Atrapalhado, Jim errou algumas letras, interrompeu diversas músicas, discutiu com a plateia e, supostamente, teria ameaçado mostrar o seu pênis.

Os boatos sobre o show, interrompido definitivamente com poucos minutos de duração, correram o país, e os defensores da moral e dos bons costumes tensionaram a justiça norte-americana. Como resultado, quatro dias depois Jim Morrison já tinha um pedido de prisão por "indecência e obscenidade". A extensa tour que o grupo faria pelo país foi cancelada e os Doors desapareceram da mídia. Meses depois, o grupo reapareceu em um especial na TV PBS, apresentando canções que estariam em um novo disco. Apesar das canções, o que mais se ouviu nos dias seguintes à apresentação foram comentários sobre a forma como o visual de Jim Morrison - agora mais gordo e barbudo - havia se alterado durante os meses de reclusão.



Aparição do The Doors na PBS ainda em 1969: Jim, agora um tio barbudo, nem de longe lembrava o sex symbol adolescente de meses atrás.

A banda ainda lançou o subestimado disco Morrison Hotel, cambaleou por questões financeiras (ainda como consequência da tour cancelada), viu o vocalista enfrentar um longo processo judicial e entrou em estúdio para gravar um novo disco, registrando o embrião do que seria o álbum L.A. Woman. Mas Jim Morrison estava deprimido e o grupo decidiu forçar-lhe a tirar férias. Ele aceitou a sugestão, arrumou as malas e viajou rumo à Paris com a namorada Pamela Courson. Dias depois Jim Morrison seria encontrado morto em um apartamento alugado pelo casal na Rue Beautreillis.

A morte de Jim Morrison

Pamela contou posteriormente que Jim havia passado mal no meio da noite e que ela havia preparado uma banheira d'agua para que ele pudesse tomar banho e se recuperar. Na madrugada, notando que ele ainda não havia voltado para a cama, ela foi até o banheiro e o encontrou ainda na banheira, já sem vida. A notícia só chegaria à imprensa três dias depois.

No funeral que driblou os holofotes da mídia, havia menos de meia dúzia de pessoas: alguns amigos muito próximos e o gerente da banda, Bill Siddons, que não chegou a olhar o interior do caixão, o que alimentaria os posteriores boatos de que o corpo no interior da caixa de madeira não era o do líder do The Doors.

Teve mais: seguindo a lei francesa de então, nenhuma necropsia foi efetuada sobre o corpo, já que a morte foi considerada natural; e o médico que assinou o atestado de óbito (Dr. Vasille) nunca foi encontrado para esclarecer os fatos.

Jim Morrison morreu mesmo?

Pamela e Jim em raro momento de tranquilidade: os tribunais reconheceriam postumamente a união estável entre os dois, por mais que seja difícil ligar o nome de Morrison a algum tipo de estabilidade.

O local onde o corpo veio a ser enterrado - o mesmo Cemitério de Pére Lachaise onde estão Oscar Wilde, Marcel Proust e Chopin - também é motivo de polêmicas. Diferente dos outros ilustres enterrados por ali, Jim não possuía qualquer ligação com a cidade de Paris, o que deveria ter ocasionado o translado de seu corpo de volta ao seu país de origem. Para completar, o baterista John Densmore, em sua biografia Riders on the Storm: my Life with Jim Morrison and The Doors, contou que a sepultura, visitada por ele próprio em Paris, era pequena demais para suportar o corpo de Jim.

Várias versões para a mesma história

A morte ocorrida longe de casa e distante dos holofotes da mídia entregou ao mundo apenas um polêmico atestado de óbito e um túmulo bastante cultuado em um dos cemitérios mais conhecidos do mundo. Tirando esses objetos concretos, todo o resto foi modelado por diversas mentes criativas ao longo das décadas.

Contou-se, em uma das versões mais conhecidas sobre o fato, que Jim e Pamela haviam brigado, e que a menina havia saído para comprar heroína. De volta ao apartamento do casal, Pamela teria escondido a droga e Jim teria encontrado o pacote horas mais tarde. O vocalista do The Doors era conhecido entre os amigos mais próximos por ter medo de agulha, até por isso ele não utilizava heroína, mas teria cheirado a heroína de Pamela achando que fosse outra droga. Teria então passado mal e sido socorrido pela companheira, que o mergulhou em uma banheira d'água, como parte de um processo para recuperação de overdoses bastante praticado nos anos 60.

Outra versão para o ocorrido é remontada a partir do depoimento de testemunhas que teriam visto Jim Morrison frequentar, sozinho, por várias noites, a Rock'n Roll Circus, casa barra pesada de Paris onde bandas se apresentavam ao vivo. O líder do The Doors teria cheirado algo que o fez passar mal, sendo conduzido por alguns homens até o seu apartamento, onde teria morrido na ausência de Pamela. A namorada, por sua vez, teria inventado toda a história da banheira para não precisar explicar onde estava quando tudo aconteceu.

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"Jim Morison não morreu"

Para os fãs, fica claro que a memória do ídolo de fato está bem viva. Ainda na década de 90, Oliver Stone trouxe a banda para a lista dos assuntos mais comentados do mundo com o filme The Doors, que deu início à uma nova era de adoração ao misterioso líder. Muitos fãs, no entanto, afirmam que Jim não estaria vivo apenas em memória, mas que estaria ainda perambulando por aí. Para eles, o corpo enterrado no Cemitério de Pére Lachaise seria o de um sósia.

A versão mais conhecida para esta teoria conta que Jim teria capturado por Paris um homem de altura e peso semelhante aos seus. Com a ajuda de alguns amigos da Rock'n Roll Circus, Jim Morrison teria matado o homem e o levado aos cuidados de Pamela, que aguardava o corpo para fazer a sua parte. Forjando sua própria morte, Jim estaria livre das angústias que o perseguiam desde o Incidente de Miami, que ocasionara um longo processo que ainda em 1971 se encontrava em andamento. Livre da mídia e da perseguição por parte de grupos moralistas, o líder do The Doors estaria apto a reconstruir a sua vida em outro lugar, com outro nome, longe dos discos e do sucesso que em nada o ajudavam àquela altura.

"Se alguém é capaz de forjar a própria morte, esse alguém é Jim Morrison." Ray Manzarek, tecladista do The Doors.

Nos anos seguinte ao fato de Paris, fortalecendo a teoria da morte forjada, um bancário declarou à imprensa que um senhor com o nome de James Douglas Morrison realizara uma série de transações no Banco América de São Francisco. A falta de provas hoje faz com que muitos encarem o bancário como alguém que tentou ganhar fama repentina na carona do sensacionalismo midiático norte-americano.

Em 1974, a imprensa tomou conhecimento de um disco chamado Phantom's Divine Comedy. A voz do vocalista se assemelhava ao timbre de Morrison e nenhuma outra informação além do próprio disco conseguiu ser levantada, já que o encarte não trazia sequer o nome dos músicos responsáveis pelo registro.



Anos após tudo ter acontecido e reverberado das mais diversas formas, o que se tem como informação oficial ainda é que Jim Morrison faleceu de fato em 1971. Como o líder do The Doors passava por um período de reclusão, é natural que a imprensa e até mesmo os amigos mais próximos tenham quase nenhuma informação sobre o que aconteceu, e um levantamento mais preciso de dados ficou ainda mais impossível com a morte de Pamela Courson em 1974. Sem informações concretas, a paixão dos fãs diante de uma biografia abruptamente interrompida obviamente resultou em versões alternativas que nunca se mostraram mais realistas do que a versão contada pela história oficial.

O que se sabe também é que os mitos em torno da imagem de Jim Morrison são responsáveis por uma parte do culto que se criou em torno da obra do The Doors, e que alimentar boatos passou a ser, a partir de 1971, uma forma que os integrantes do grupo tiveram de manterem-se sob os holofotes (o sub-título da biografia do baterista Densmore, "Minha vida com Jim Morrison...", já dá uma bela pista disso). Mas, como tudo é lenda e pouco do que se conta pode ser comprovado, você fica convidado desde já a inventar a sua versão. Afinal, nem só de som viverá o rock, mas de toda história que for tão maluca quanto a figura por trás dela.

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Baseado no capítulo três do livro de SEGREDOS E LENDAS DO ROCK (COUTO, 2008)

Saiba mais sobre o assunto:
RIDERS ON THE STORM: My Life with Jim Morrison and the Doors (DENSMORE, 1991)
THE DOORS (STONE, 1991)

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