Atenção, novas gerações: nossos heróis estão velhos

Porto Alegre, Brasil
"Estranho, mas estamos ficando sem heróis", lamentou o notório radialista ao microfone, comentando a morte de David Bowie na última segunda-feira. Antes de Bowie, foi Lemmy Kilmister, do Motörhead. E antes dele, B.B. King, rei do blues. Me intriguei com a série de desgraças. Em uma rápida pesquisa, tabulei que Bowie faleceu aos 69 anos, Lemmy aos 70 e King aos 89. Tudo é muito dolorido e várias feridas ainda ardem, mas olhem para além da dor de perder um ídolo: não há nada de estranho em um sujeito de 70 anos morrer. Tive vontade de dizer ao radialista que estranhos somos nós, que ainda não tomamos para as gerações mais novas as rédeas do protagonismo e continuamos dando a artistas sexagenários a responsabilidade de fazer do mundo um lugar mais belo para se viver. E isso é grave e cruel, por mais geniais que sejam os sexagenários.



Se no passado perdemos Kurt Cobain, Jim Morrison e Janis Joplin com apenas 27 anos, qual pessoa de 27 anos hoje nos causaria tamanha comoção? Por que será que a nossa geração parece ter desistido de portar o heroísmo? Não estamos ficando sem heróis só porque eles estão nos deixando, mas também porque faz algum tempo que deixamos de produzir figuras indiscutivelmente transgressoras.

Antes de mais nada, há que se ponderar: o modelo de comunicação nos tempos atuais, com veículos específicos para nichos cada vez mais segmentados, não é propício para o nascimento de ídolos de largo alcance que se comuniquem com diversos públicos, como aliás fez genialmente David Bowie. Bowie usou muito a internet e as tecnologias mais atuais, mas era fruto de uma época onde a TV aberta e o rádio ainda arrebatavam multidões, e ele trouxe de lá o alicerce para a sua popularidade 2.0. De certa forma, todos os grandes heróis que temos vêm de antes da tecnologia atual.

Também parece claro que a aproximação dos fãs com as personalidades célebres, possibilitada pela internet, acabou retirando das figuras públicas a aura de santidade que tanto engrandeceu ícones em outras épocas. Vamos pensar: o quanto Jim Morrison seria idolatrado se tivéssemos acesso às selfies de seu Instagram? E o quanto John Lennon seria santificado se pudéssemos vê-lo discutir no Facebook com anônimos, como faz o Tico Santa Cruz toda semana? Certamente o seu perfil humano e às vezes grosseiro seria tão lembrado quanto a letra de "Imagine", e isso mudaria uma boa parte da fábula.

Dá pra dizer também que as gerações atuais acostumaram-se a agir em bloco: movimentos, coletivos e grandes grupos cada vez mais horizontais têm promovido os avanços sociais e estéticos. Isso descarta a ideia de um ídolo à frente de tudo, porque distribui entre vários atores o mérito pelo avanço de diversas causas. Vivemos em um tempo mais democrático e menos iconoclasta, pelo menos em relação a nós mesmos, afinal, entre nós não elegemos ícones, mas continuamos cultivando ícones já eleitos com a mesma paixão de sempre. De dentro da nossa geração horizontal, ainda apontamos nas gerações passadas aqueles que julgamos estarem acima da normalidade. De certa forma, notem, ainda precisamos de heróis por algum motivo, só não os produzimos como antes.

Antes que a gente se sinta confortável na análise, não penso que seja válido colocar na tecnologia ou na dita horizontalidade toda a culpa pela falta de heróis contemporâneos. É verdade que as inovações nos deram a liberdade de escolha que a TV antes não dava. Também é verdade que a tecnologia nos deu o poder de bater boca com gente famosa sem sair do sofá de casa. Mas notem de novo essa última frase, porque ela traz um personagem importante para a compreensão do problema: o sofá de casa, de onde temos assistido a vida passar sem pedir licença para escrever o nosso capítulo da história.



Quantos depois dele? Kurt Cobain nos deixou aos 27 anos sempre tentando ser transgressor. E o que estão fazendo os nossos caras de 27 anos em 2016?

Volte no tempo para entender. Os Beatles não permitiram que Elvis fosse o grande herói da década de 60, e nem Bowie permitiu que a memória dos Beatles imperasse pela década de 70, onde ele foi mais brilhante do que qualquer um. E não foi por sabotagem que os pupilos superaram os mestres: havia muita admiração em jogo, mas também havia um brio que há muito tempo não se vê. Desde Kurt Cobain, temos buscado pelos heróis em fotografias antigas e abandonado a possibilidade de sermos nós próprios os heróis de nosso tempo. Temos assistido a incansável luta dos nossos avós ideológicos que parecem falar sobre a nossa atualidade melhor do que nós mesmos. Nossos ídolos ainda são os mesmos, e as aparências não enganam, não.

Parece pessimismo? Então passe os olhos sobre o noticiário das últimas semanas. Não há como negar que o maior frenesi digital dos últimos tempos foi a chegada dos Beatles ao Spotify. A atitude de coragem mais comentada nas redes sociais foi Chico Buarque discutindo com playboys truculentos na noite carioca. E não será surpresa se Blackstar, disco lançado pelo sessentão Bowie dias antes de sua morte, aparecer lá em dezembro como o melhor álbum de 2016. E isso vai ser considerado normal, inclusive pelas bandas que deveriam se esforçar para superar o mestre. Nossos heróis não só estão envelhecendo como provavelmente já estão cansados de serem simplesmente assistidos pela gente. Talvez torçam para que a gente se levante do sofá o quanto antes.

A dor da perda de um herói é inevitável. Saudável até. Como é saudável ter heróis, para falar bem a verdade. Eles fazem parte da estrutura cultural desde sempre. Muito antes de Elvis Presley rebolar, Hércules já era unanimidade entre os gregos. O problema não é admirar o herói: o problema é manter o herói como inalcançável; é usar isso como desculpa para não tentar ser tão ou mais transgressor do que aqueles que estiveram aqui no passado; é produzir arte e cultura para cumprir tabela enquanto os heróis mais significativos vão sucumbindo um a um.

Será preciso que todos eles nos deixem para que só depois aprendamos que o nosso tempo deve ser escrito por nós próprios? Tem muita gente achando natural que os mestres do passado sejam os maiores cronistas do nosso presente. Para quem pensa assim, tenho uma ótima notícia: ainda temos Paul McCartney, Roger Waters, Ozzy Osbourne, Neil Young, Ringo Starr, David Gilmour, Eric Clapton, Keith Richards e Bob Dylan. E tem uma péssima notícia também: todo ano os perderemos aos montes.

Não há como evitar a lei natural da vida, e a geração desafiadora está sumindo aos poucos. A boa notícia é que não ficaremos sem heróis vivos se começarmos a agir antes da tragédia final. Então, em nome da estrela que recém se foi, por favor, ao menos vamos tentar brilhar.

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