Billy Corgan: as redes sociais criaram um ecossistema que beneficia a futilidade

Chicago, EUA
Números atualizados apontam que o Twitter possui atualmente mais de 284 milhões de usuários. Em meio a tanta gente, um único usuário que decidisse deletar a sua conta não deveria causar grande estrago. Exceto se esse usuário fosse um astro do rock que, além de sair da rede social, ainda se transformasse em um militante antitwitter, argumentando contra a rede de 140 caracteres com ideias que fazem bastante sentido. Essa é a história de Billy Corgan, líder dos Smashing Pumpkins, que abandonou o microblog em 2015. Recentemente, em entrevista dada à Jenniffer Weigel em Chicago, ele falou que não queria mais ser uma das celebridades que trabalham gratuitamente gerando o conteúdo que engorda as contas de acionistas da Twitter, Inc.



JENNIFFER: Por que você saiu do Twitter?
BILLY: Como posso falar isso em uma linguagem de Chicago? O Twitter não me ajudava em merda alguma. Na verdade, um dos funcionários me ligou depois para saber o que havia acontecido e eu disse isso a ele, mas em palavras mais sutis. É bastante óbvio para mim, e para quem estiver interessado em entender, que existe muita informação sobre o que essas oligarquias de social media estão fazendo ultimamente. Seja o Facebook, o Twitter ou o Instagram, não importa. Os nomes mudam, rostos mudam, mas a estrutura é a mesma.

JENNIFFER: Você falou sobre como estamos criando uma geração narcisista por conta do Facebook...
BILLY: nós já criamos uma geração narcisista. O navio já está em alto mar. Tente ter uma conversa com um cara dessa Geração Millenium para entender do que estou falando.

JENNIFFER: entre o pau de selfie e a digitação no celular, eu jantei com quatro destes caras e ninguém sequer olhou para mim. Esse é o mundo agora. E como você se adapta? Você sai do Twitter. E depois?
BILLY: deixe-me voltar ao ponto em que estávamos antes? É que, se olharmos esse tipo de coisa sob outro ponto de vista, é mais fácil de entender. Vou usar um exemplo para ilustrar a situação. A MTV começou do zero. Eles não tinham nada. Logo, eles iam às gravadoras e diziam, "Veja bem, queremos exibir seus clipes. Não temos dinheiro para pagar pelo conteúdo. Não podemos pagar pelos minutos de exibição como se fôssemos um canal de TV comum. Então libere o seu conteúdo para nós e nós vamos promover os seus produtos". Eventualmente, como todos sabemos, a MTV cresceu tanto que esmagou as gravadoras. A MTV se enraizou e fez o seu modelo de negócio se tornar normal. Eles fizeram zilhões de dólares por trás de todas essas pessoas dizendo que eram divulgadores da música, o que não era necessariamente verdade.


Sem choro nem vela: Billy deu adeus ao Twitter sem explicar muita coisa. Os argumentos vieram só meses mais tarde.

BILLY: o caso é que a MTV gritou "Sou pobre!" no começo para que as pessoas gostassem dela, mas depois a própria MTV meteu uma bala na cabeça de quem acreditou nisso. E é isso que o Facebook e o Twitter estão fazendo agora. O Facebook até é um pouco diferente, mas pessoas como eu estão percebendo que o Twitter é prejudicial para as chamadas "celebridades". Acho que logo isso vai criar um êxodo em massa. O Twitter e outras mídias sociais são plataformas onde terceiros tomam posse sobre a credibilidade que eu construi. Meu nome, minha música, qualquer coisa minha... e eles não nos pagam nada, apenas nos dizem "muito obrigado!". Jimmy Chamberlin e eu, quando trouxemos os Pumpkins de volta em 2007, nos sentamos e calculamos que para cada 100 pessoas que tínhamos no Facebook vendíamos apenas um disco. Logo, estávamos alimentando outras 99 em vão. É uma taxa de negócio muito baixa.

JENNIFFER: mas você não acha que o modelo de negócios mudou desde 2007?
BILLY: não, não... e essa é a última coisa que eu direi sobre isso porque esse assunto pode ficar muito chato bem rápido...

ALGUÉM NA PLATÉIA: "Nós gostamos! É maravilhoso!"

BILLY: Tudo bem... vou continuar. Os Smashing Pumpkins atualmente têm cerca de 4 milhões de curtidas no Facebook. Se você visitar a minha página todos os dias e eu postar lá algo do tipo "acabei de levar meu cachorro para passear", com uma foto, você verá esse post, mas outras 3,99 milhões de pessoas não o verão, porque elas não vão à minha página todos os dias. Então, o Facebook quer que eu patrocine os meus posts ou, e é aqui que chegamos na Trouxalândia, querem que eu faça idiotices para viralizar. Aí as pessoas vão clicar, clicar, clicar e aquela idiotice vai se tornar um viral. Dessa forma, note como o Facebook cria uma cultura onde a idiotice reina e governa, e não a qualidade. Não estou dizendo nada radical! Só estamos criando um ecossistema que recompensa a futilidade.

Tradução de Celeste Pich. Veja abaixo o vídeo da entrevista.

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