Somos todos beliebers

Porto Alegre, Brasil
É bem provável que você não esperava ler um post sobre Justin Bieber aqui no New Yeah. Bem, acontece que eu, um cara de 27 anos que não é ligado em música pop, também não esperava me encontrar cantarolando "Sorry" às 22:30 de uma terça-feira. Mas aconteceu: acho que eu virei um belieber.


Pra quem não sabe (ou tem que fingir que não sabe pra manter a imagem de underground com a galera), belieber é quem faz parte da legião de fãs daquele pirralho loirinho que tocava "baby, baby, baby, uhhhh" em um violão maior que ele. Sim, essa é a imagem que a gente sempre teve do Justin Bieber. E daí, em 2015, o cara lançou um disco que quase soou como um final excelente pra uma piada que, até então, parecia não ter graça nenhuma.

Começou quando eu ouvi "Where Are Ü Now", parceria entre o Biebs (é assim que nós, beliebers, chamamos ele), o Skrillex e o Diplo. Vi o clipe na TV e achei legal demais a ideia. Basicamente, filmaram ele cantando em um fundo branco, depois imprimiram os frames dessa gravação e colocaram em uma galeria onde as pessoas podiam interagir com as imagens, escrevendo e desenhando coisas com giz de cera. Daí, depois da interação das pessoas, os frames foram ordenados novamente em vídeo. Talvez fique difícil de entender só pela explicação, mas assistindo abaixo vai ficar bem mais fácil:



Mas ok, eu ainda não tinha aceitado a ideia de gostar do Justin Bieber. Eu pensava que podia ser por causa do Skrillex ou algo assim. Ou eu só estava aceitando a música porque a ideia do clipe era realmente extraordinária. Ou era porque eu estava viajando pelos EUA e lá a música tocava em todos os lugares. Foram muitas as desculpas que eu inventei pra mentir pra mim mesmo. Afinal, um cara advindo da cena emo/punk não poderia gostar de Justin Bieber. Não poderia.

O som de Justin Bieber não é mais aquela coisa previsível de anos atrás. Sério.

Só que daí o Justin lançou "What Do You Mean?". Essa era single dele mesmo e o clipe nem era tão interessante assim. E grudou ainda mais que a anterior. Foi aí que eu comecei a aceitar o fato de que, talvez, o cara realmente tivesse amadurecido o som dele e aprendido a demonstrar o seu potencial. Quer dizer, eu defendia ele logo que ele apareceu. Sempre disse que tinha que levar em conta que ele era um pirralho e que, nessa condição, ele fazia um trabalho bom. Mas, depois disso, nossos caminhos se dividiram e só vieram colidir de novo com o Purpose, o disco que ele lançou do nada no final de 2015, com clipe para todas as músicas.

É engraçado: eu sempre fui muito fã de Fall Out Boy, até o momento em que eles incorporaram um quê de Michael Jackson às músicas deles e daí eu larguei de mão. Porém, esse mesmo quê de MJ foi o que incluiu o Justin Bieber às minhas playlists do Spotify. O som dele não é mais aquela coisa previsível que a gente já sabe como vai ser o refrão quando a música ainda está na introdução. Ele conseguiu fazer um pop com nuances variadas e muito rico de influências. Uma coisa meio eletrônica caribenha em algumas músicas, um instrumental que quase some perto dos vocais em outras. Em algumas, há um pouquinho do Justin Bieber de sempre também, mas na medida certa pra não afastar ninguém... enfim, o disco tem muita coisa diferente. É um disco bem completo.

Dá pra notar que foram duas as principais inspirações dele nas composições: o romance com a Selena Gomez e uma reavaliação das atitudes dele enquanto ser humano, que gerou um pedido de desculpa aos fãs. E eu acho que o disco representa muito isso mesmo: um cara que, talvez por causa da fama precoce, demorou pra se encontrar, fez várias coisas erradas (na vida e na música), mas que agora consegue enxergar quem ele é com clareza.


Purpose soa como um pedido de desculpas ao público.

É diferente desse movimento de pessoas que gostam de One Direction, por exemplo. Não é parte desse hype da música pop ou aquela história de gostar de umas coisas estranhas pra tentar mostrar pros outros que o teu gosto é rico e eclético. Esse disco do Justin Bieber não é a exceção na minha regra. Eu consigo imaginar tranquilamente ele se encaixando numa linha conceitual com várias coisas que eu escuto. Nesse ano que passou, eu acho que a banda que eu mais escutei foi Twenty One Pilots (falarei mais sobre eles em algum outro momento) porque eles têm uma atmosfera de inconstância nas músicas. Eles unem elementos que parecem não ter muito em comum, mas que são executados de forma a criar um conceito único, uma sonoridade que é só deles. E eu senti o mesmo ouvindo o disco do Biebs.

Eu tenho uma tatuagem do Motion City Soundtrack na perna e confesso que o último disco deles conversa menos comigo do que o Purpose. Então não, Justin Bieber não é uma coisa daquelas que eu tenho vergonha de gostar. Eu só gosto porque tem a ver mesmo. E ocupar os três primeiros lugares entre as músicas mais tocadas no Spotify ao redor do mundo também é uma credencial bastante imponente.


(E o artista ainda aparece novamente na 29ª posição com "Where Are Ü Now")

Talvez não faça parte das tuas aspirações na vida ter um disco do Justin Bieber no meio dos teus vinis de bandas indie, ou então que ele apareça no teu last.fm no meio de um monte de músicas do NOFX, mas acontece que, por mais louco que isso possa soar, vale a pena. A verdade é que a boa música nem sempre surge daquela fonte que a gente tá acostumado a beber. Algumas fontes secam e outras nascem, e, pra quem realmente tem a música como uma necessidade básica, deixar de ouvir algo por preconceito é a mesma coisa que passar fome por não gostar de misturar o ovo com o arroz. É contraditório. Ele fez um bom disco. Coloca teu Spotify no privado e ouve uma vez ao menos. Ninguém vai ficar sabendo.

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