40 anos de sonho, sangue e América do Sul

Porto Alegre, Brasil
Tenho dedicado uma boa parte dos últimos anos a ler biografias dos mais variados tipos. Pintores, cientistas, jornalistas, revolucionários, políticos, poetas... e, a cada página virada, apenas fortaleço em mim a certeza de que ninguém entra para a história simplesmente pela sua aparência privilegiada. Tendo essa certeza, tenho também um pé atrás com toda pessoa que vê no cantor e compositor Belchior um simples homem de respeitável bigode. Isso porque o mérito do cearense vai muito além de alguns pelos abaixo do seu nariz; está naquilo que ele deixou como obra, sobretudo no disco Alucinação, que no dia 16 completou redondos 40 anos solidificado como uma das obras atuais mais antigas da música brasileira.



Antes mesmo de ter um grande bigode, Belchior já tinha um grande nome. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, homem com seis nomes e sobrenome algum em uma época em que famílias nobres eram capazes de mover montanhas no Brasil. Ainda bem que não é mais assim. Sem parentes importantes e vindo do interior, construiu-se aos poucos: apaixonou-se pela música ouvindo as rádios locais da pequena Sobral (CE), concluiu a educação básica e mudou-se para Fortaleza para cursar a faculdade de medicina, quando resolveu ser torto na vida. Abdicou daquele que até hoje é o curso universitário mais requisitado pelos jovens brasileiros, mudou-se para o Rio de Janeiro e lá foi tentar viver de música.

Na capital fluminense, penou por alguns bons anos e até ganhou alguns festivais, mas que lhe deram pouco ou nenhum dinheiro. Chamou alguma atenção e chegou a lançar alguns materiais que não agradaram a gravadora Continental. Sua sorte começou a virar quando Elis Regina, então a maior cantora do país, incluiu duas canções de sua autoria no multiplatinado disco Falso Brilhante, de 1976. O sucesso da Pimentinha com o disco então jogou os holofotes sobre aquele jovem bigodudo de forte sotaque. Belchior então ganhou uma nova chance em outra grande gravadora e, com espaço na Polygram, gravou o LP Alucinação.

Um rapaz latino americano

Nos final dos anos 70, a música nacional havia se transformado em um campo sem grandes minas. Apesar da abertura política que culminaria na Lei da Anistia em 1979, a censura oficial e até o comodismo dos grandes empresários ainda colocavam os seus cabrestos sobre os artistas vinculados às grandes gravadoras. O cenário de águas mansas acabou dando ainda mais destaque ao lançamento de Alucinação. Enquanto Raul Seixas recebia a visita de homens fardados e Caetano cantava hinos a São Jorge numa fase light pós-exílio, Belchior, de forma impressionante, esquivou-se do marasmo jogando aos quatro cantos do país uma poesia tão contundente que funcionava como crítica política, mas ao mesmo tempo era tão profunda que os militares não eram capazes de compreender o que as letras estavam dizendo.



Elis: a união com Belchior deu fama a ambos e construiu alguns dos maiores momentos da música brasileira dos anos 70.

Quando lançou Alucinação em 1976, Belchior já havia também cedido canções para álbuns de Fagner e Roberto Carlos, mas a verdade é que, mesmo com algumas credenciais, ele ainda se sentia um ilustre desconhecido. Talvez até por isso tenha optado por abrir o seu disco mais importante com uma breve autobiografia. Era como se estivesse se apresentando ao público. Em seu cartão de visitas, “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, o cantor cearense falava de sua sorte latina, de sua precária situação financeira, de sua família modesta e de suas origens no mais interiorano dos interiores.

Para alguns, a simples e honesta autobiografia soou como um lamento gratuito. Raul Seixas chegou a lançar uma canção em forma de resposta, onde comentava quepara fazer sucesso, todo mundo tinha que reclamar. Pouco profundo da parte de Raulzito: uma simples imersão no conteúdo do disco já seria o suficiente para ver que não havia no pranto do jovem cantor cearense qualquer tipo de marketing.

Belchior, prevendo as críticas que poderia receber pelas lamentações em sua obra, incluiu no repertório do disco a explicativa “A Palo Seco”, onde deixava claro que, no tempo em que os mais alegres estavam sonhando, ele já estava em estado de desespero, vivendo e sentindo um Brasil muito diferente daquilo que o sonho hippie apontava. E no disco inteiro Belchior é a voz de um desespero que não se apresentava por estar na moda, mas por fazer parte da essência de um artista forjado pela dor dos dias.

Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava,
De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente, eu grito em português

Tenho vinte e cinco anos de sonho, de sangue e de América do Sul
Por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues
E sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês
(A Palo Seco, 1976)


Moço do interior solto e sozinho na metrópole de Tom Jobim, Belchior não conseguia compreender muito bem o que havia ao seu redor. Tal como uma criança, cuja ingenuidade às vezes questiona absurdos que os adultos aceitam como coisas normais, o estranho no ninho também tinha as suas interrogações. Questionava no disco, por exemplo, a lógica de uma cidade que se indignava em ver um jovem delicado e alegre cantando na televisão, mas que não se indignava da mesma forma ao ver pessoas no parque dormindo cobertas por jornais. 40 anos depois, me coloco no lugar de Belchior e concluo que era realmente uma alucinação suportar aquele dia-a-dia acreditando que daria para amar e mudar as coisas.

Experiência com coisas reais

“Velha Roupa Colorida” e “Como Nossos Pais” acabaram tocando nas rádios de todo o país naquele ano de 1976. Primeiro, na voz de Elis Regina. A então cantora mais prestigiada do Brasil havia transformado as canções do jovem compositor cearense em grandes sucessos nacionais e Belchior, como contrapartida, havia ajudado Elis a ter o disco mais vendido de sua aclamada carreira. A voz de Elis abriu as portas para que Belchior aparecesse cantando de novo essas mesmas duas canções no disco Alucinação. E impressionava a forma como a voz do cantor dava às mesmas letras e melodias contornos bem diferentes. Onde originalmente Elis havia colocado a ironia, Belchior depois colocou o pesar de um homem de corpo e alma nordestina. Onde havia a ira potente de uma das maiores vozes de todo os tempos, agora havia uma voz mansa, amaciada pelos calos adquiridos ao longo da BR-116 que trouxe Belchior de Fortaleza para o centro de um país em eterna construção.

40 anos depois, as preces, os sonhos e os lamentos de 1976 transformaram o rosto de Belchior em um dos mais reconhecíveis da música popular brasileira. À medida que o bigode crescia e as rugas se acomodavam no rosto largo do poeta, o disco foi sendo esquecido e redescoberto em ciclos que até hoje se repetem. E, a cada nova aparição, os versos tortos, como faca, cortam ainda mais fundo. É impossível deixar de notar que as “pessoas cinzas normais”, sozinhas em meio a multidão, como notou Belchior, 40 anos depois estão ainda mais cinzas, escondidas atrás de máquinas cada vez mais inteligentes e presas a engrenagens cada vez mais complexas. Se faz ainda mais necessária a sequência de versos da canção que encerra o disco:

Quero desejar, antes do fim, pra mim e os meus amigos, muito amor e tudo mais;
que fiquem sempre jovens e tenham as mãos limpas
e aprendam o delírio com coisas reais.
(Antes do Fim, 1976)

40 anos depois, ainda estamos todos tentando.

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