Grimes e seus alter egos de Art Angels

Manaus, Brasil
Por Diego Toledano

Artistas geralmente celebram o sucesso de seus discos ao lado de produtores, compositores e instrumentistas. Esse não é o caso da canadense Claire Boucher, conhecida como Grimes. "Eu sou produtora, então eu vou produzir o meu disco. Eu não saio por aí pedindo às pessoas pra produzir a música delas", disse a musicista multi-tarefas recentemente de forma pouco amigável em uma entrevista. O trabalho solitário culminou no álbum eletrônico Art Angels - um olhar introspectivo sobre a loucura artística de Grimes.

Grimes, Art Angels
A questão é que, quando se olha a canadense por dentro, esquisitice e batidas muitas vezes frenéticas (mas deliciosas!) são os principais achados - além da "voz de rato" trazida como uma das assinaturas do trabalho. Art Angels, como definiu a própria artista, trata-se da aceitação dos alter egos artísticos que brigam em sua cabeça durante a criação de um novo trabalho.

Violinos, guitarras, pianos e todos os outros instrumentos (acredite, não são poucos: na intro "laughing and not being normal", Claire canta durante menos da metade da faixa) são assinados por Grimes. O resultado é um trabalho que inspeciona a psique conturbada de uma mente criativa. Digamos, se quisermos ser mais ousados, que esse é o ápice criativo de um indivíduo: aceitar as vozes na cabeça e traduzi-las de forma contundente.

Art Angels é um disco pesado no quesito "batidas". Comumente utilizadas em músicas sobre revolta, elas aparecem de forma quase que excessiva - porém não inconveniente - em "Flesh Without Blood" e na parceria com Janelle Monáe, "Venus Fly". Ambas possuem letras quase ininteligíveis (um desafio imposto pelos vocais característicos de Claire), mas que são capazes de comunicar apenas com os seus sons. É impossível não mexer o corpo de alguma forma com o impacto.



O disco é carregado de revolta com a indústria musical, que deu grande atenção à artista desde o lançamento do disco Visions, em 2012. A faixa "California" traz a rebeldia de Grimes contra sites críticos como o Pitchfork, que tendem a julgar cada sílaba das letras dos artistas e apontar "erros" de produção em discos do cenário underground. Talvez tenha sido essa revolta que tenha me pegado desde a primeira audição. Pessoalmente, tenho me importado cada vez menos com a "tecnicidade" musical dos discos que ouço. Isso permite que eu sinta a intenção do artista - ao invés de tentar ler de forma literal o que foi criado.

A aliteração do trabalho resulta na elevação de ousadia no experimento musical. "SCREAM" é uma faixa que ouço pelo menos duas vezes antes de seguir com o tracklist. Durante a produção da música, Grimes afirmou que precisava das letras mais estranhas que pudesse encontrar em um parceiro do mundo do rap. Graças às maravilhas do YouTube, a cantora encontrou a taiwanesa Aristophanes - uma professora que tem tomado conta do rap naquele país nas horas vagas entre o planejamento de aulas e a correção de provas. O jeito Alvin e os Esquilos de cantar da rapper assemelha-se ao de Grimes e é estranhamente envolvente. Apenas ouçam com atenção - e nem preciso dizer que a produção da faixa é simplesmente impecável. Cada som esquisito casa perfeitamente com o rap ininteligível e os gritos de Claire.


Além da audição

Talvez influenciado pelo projeto audiovisual que tem acompanhado Art Angels (já temos dois clipes entre nós), não pude evitar de me imaginar imerso em um anime durante toda a audição do álbum. Desde a voz única de Claire, a produção psicodélica tecno-ilusionária até a participação da rapper asiática: tudo leva nessa viagem. Tal "escapismo" torna-se explícito em momentos como "Belly of The Beat" - faixa em que a cantora luta para submergir no mundo musical e esquecer os arredores.

Esse é outro aspecto de destaque no trabalho da Grimes. Desde o primeiro disco, Halfaxa (hoje tão distante do estilo atual, mas muito importante para alcançar o refinamento de produção que ouvimos agora), a canadense proporciona uma experiência sensorial que, se apreciada da forma correta, leva para além da audição. Inclusive, na versão em vinil do álbum mais recente, a gravadora encaminha 14 artes feitas pela própria Grimes - uma para cada música.

Grimes, Art Angels

Os clipes lançados até agora contam a trajetória dos anjos de Grimes. Os atos I e II estão compilados no clipe de "Flesh Without Blood/ Life In Vivid Dreams" e têm continuidade no ato III: "Kill vs. Maim". O último, segundo a própria cantora (que escreveu, dirigiu e editou o clipe - sério, ela não consegue deixar ninguém influenciar o trabalho dela), trata-se de "uma versão vampiresca andrógina de Al Pacino que viaja pelo espaço".

O fato de o produto visual de Art Angels tomar forma linear em um álbum cheio de protuberâncias auditivas é um feito a ser admirado. Grimes, na verdade, vem como um filtro do que os anjos da arte gritam, sussurram e batem nos ouvidos da sensorial Claire Boucher. E nós somos apenas terráqueos agraciados com o som proveniente dessa relação esquizofrênica-espiritual.

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