Kanye West, The Life of Pablo e o desgaste de um ícone

Manaus, Brasil
Por Diego Toledano

Recentemente, em uma conversa sobre música, um amigo me disse: “o problema de conhecer a personalidade de alguns artistas é que, se o cara for um merda, isso vai te impedir de apreciar o trabalho dele”. De fato, é muito difícil separar o artista da arte - principalmente em uma era em que acompanhamos cada passo dos artistas através de tweets, fotos e snaps. Foi por esse motivo que estive tão relutante em ouvir o novo álbum de Kanye West, The Life of Pablo.

Kanye West

O disco é bom - nada além disso. Depois de prometer “o melhor álbum de todos os tempos” e, depois retificando, “um dos melhores álbuns da história”, Kanye trouxe um disco de boas produções, ótimos arranjos muitas vezes experimentais, mas com letras tão fracas que não chegam perto do que ele já nos apresentou no passado.

Mas a qualidade do trabalho quase ficou em segundo plano diante da pergunta que me fiz o tempo inteiro enquanto ouvia: será que estamos prontos para deixar um rapper muitas vezes misógino, arrogante e prepotente nos tocar com a sua arte? Eu, pessoalmente, ainda sinto hesitação na hora de dar o play (mesmo depois de ter ouvido o nível de qualidade de algumas das faixas).

Essa relação artista/arte foi o que me fez, há algum tempo, abandonar completamente a Azealia Banks. Conheci a rapper em 2012, quando ela ainda estava naquela fase de EPs que artistas alternativos passam até encontrar o mainstream. Era genial. O visual digno da década de 90, o rap agregado a influências musicais eletrônicas e conhecidas como ghetto nos Estados Unidos.

Então ela começou a abrir a boca - e a mão também. Diversas vezes, a cantora demonstrou comportamento homofóbico, radical e preconceituoso. Mas, calma lá: não é ela que fala sobre racismo contra os negros? Por que diabos se coloca contra outras minorias se ela própria faz parte de uma?

O comportamento confuso e contraditório fez com que eu perdesse totalmente o encanto por ela. Kanye não está tão longe disso. Em surtos no Twitter, ele criou briga com o rapper Wiz Khaliffa e até com a ex-namorada, Amber Rose - demonstrando comportamento misógino desmedido.

The Life of Pablo

A qualidade do “melhor álbum de todos os tempos” fica em segundo plano diante do comportamento público cada vez mais atormentado de Kanye West.

E esses não foram casos isolados. Na música "Famous", do novo disco, ele diz que talvez ainda transe com a cantora Taylor Swift porque, segundo Kanye, ele foi o responsável por torná-la famosa. Ou seja: ele não se arrepende daquele comportamento vergonhoso de tomar o prêmio de uma artista para humilhá-la em um programa mundialmente televisionado. Ao contrário: afirma que o fato foi o responsável por tornar a cantora, que àquela altura já acumulava prêmios por seu trabalho no mundo country, famosa. "Famous", que incrivelmente tem a participação de Rihanna (que acabou de lançar um disco que fala justamente sobre o empoderamento feminino), segue com letras simplesmente detestáveis, alegando que as mulheres só são “alguém” quando estão com Kanye West. O desrespeito pelas mulheres se repete em “Waves”, que conta com a participação de Chris Brown (não preciso mais dizer muita coisa, né?), “FML” e “Feedback”.

Não podemos esquecer também o comportamento megalomaníaco do artista. Alguns o veem como encenação para chamar atenção e, caso isso proceda, eu ficaria ainda mais decepcionado. Não é como se West fosse um artista manufaturado pela indústria e sem personalidade criativa. O rapper é um dos produtores mais talentosos da atualidade. Ele não precisa chamar atenção ou se vangloriar a cada botão que pressiona; nós já sabemos do seu talento. Repetir elogios a si mesmo mais vezes do que repetimos uma de suas músicas é a equação perfeita para o desgaste da imagem do cantor.

O comportamento de Kanye chegou a um dos ápices (são tantos!) na manhã dessa segunda-feira (15), quando ele publicamente pediu ajuda financeira ao criador do Facebook. Em mais um surto no Twitter, o cantor afirmou que seria capaz de mudar o mundo e trazer maravilhas inacreditáveis (ele, inclusive, denomina-se o “Disney desta geração”), caso tivesse o apoio financeiro de magnatas como Mark Zuckerberg. Ah, vale mencionar um tweet exemplar para este artigo: “vocês ficam construindo escolas na África como se isso realmente fosse ajudar o país”. Parabéns, Kanye. Parabéns.


No disco novo, o mesmo egocentrismo ganha voz em “I Love Kanye” - faixa completamente sem instrumental que conta com Kanye declarando amor a si mesmo - enquanto toma o papel da mídia ao dizer que amava o Kanye antigo, mais doce e popular.

O álbum não é todo ruim. Kanye sabe fazer um álbum, e não uma compilação de faixas independentes. Com interludes, ele consegue apresentar estética e ambiente.

“Feedback” é a melhor do disco, principalmente por ser a faixa em que Kanye demonstra mais sanidade ao admitir que está louco há muito tempo. A produção da música é brilhantemente criativa, com versos gritados como sermão de igreja, sons crus e batidas típicas do hip hop dançante. Em outras faixas, ele utiliza artifícios para deixar o trabalho mais sombrio e assustador - como em “Freestyle 4”. Ainda assim, as letras misóginas, arrogantes e desrespeitosas a qualquer um que não seja ele mesmo cansam os ouvidos.

O fato de o cara ser altamente perturbado vai me impedir de ouvir novamente o disco? Talvez. Não vai ser um álbum que vou ouvir todos os dias, como fiz na época do Yeezus, em 2013. Após ouvir The Life of Pablo diversas vezes antes de escrever este artigo, confesso que deletei os arquivos - e acredito que vai demorar um pouco até eu pensar em tê-los novamente.

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