Ser mulher negra é diferente de ser mulher

Manaus, Brasil
Não: o assunto ainda não se esgotou. Ainda temos o que falar sobre a apresentação da Beyoncé no intervalo do Super Bowl, o principal evento esportivo dos Estados Unidos. Isso porque, além da Bey ter conseguido atrair todos os olhares, desde os liberais aos mais conservadores, para temas como o racismo, a violência policial contra negros e a exaltação à cultura afro, a performance da cantora ainda colocou em pauta o às vezes obscuro empoderamento da mulher negra.



O single "Formation" foi lançado no último dia 6 de fevereiro, junto com um videoclipe que traz diversos símbolos de protesto (carros da polícia, pinturas de famílias tradicionais negras expostas em casas grandes, mulheres negras vestidas com roupas coloniais, homenagens a Martin Luther King e Malcom X etc.). O vídeo contempla ainda o movimento Black Lives Matter, uma organização que luta contra a violência policial e as condições dos negros nos EUA.

>> Confira o podcast Volume XI que discute a função do videoclipe na indústria fonográfica.

Além disso, os protestos do videoclipe, da música e da performance da Beyoncé, junto com suas dançarinas, que estavam caracterizadas como panteras negras, foram essenciais para dar vazão ao empoderamento da mulher negra.

Por "empoderamento feminino" consideramos o desenvolvimento de uma autonomia para alterar processos e estruturas que reduzem as mulheres à posição de subordinadas aos homens. A palavra surgiu em 1970, nos Estados Unidos, com os movimentos de direitos civis e do movimento negro, como uma maneira de auto-valorizar a raça e a conquista da cidadania plena.

Sobre a música de Bey, Angela Davis, militante norte-americana pelos direitos da mulher e uma das panteras negras mais famosas da história, disse acreditar que o assunto agora poderá alcançar muitas esferas onde ainda não se discutia o feminismo. "Estou certa de que muitas mulheres jovens, e até homens, começarão finalmente a pensar sobre o que o feminismo pode significar", declarou.

Quando Beyoncé, que é uma mulher negra e é a cantora afro mais bem paga da história da música (em uma sociedade que ainda paga melhor aos homens mesmo que estes exerçam a mesma função da mulher) canta "Formation", ela estimula as mulheres a pensarem sobre como estão sendo tratadas pelo machismo e, no caso das negras, pelo machismo e pelo racismo SIMULTANEAMENTE.

I might get your song played on the radio station, cause I slay
Eu posso fazer a sua música tocar na estação de rádio, porque eu arraso

You just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay
Você poderia ser um Bill Gates negro em formação, porque eu arraso

I just might be a black Bill Gates in the making, cause I slay
Eu poderia ser um Bill Gates negro tomando decisões, porque eu arraso

Este empoderamento da mulher negra traz características diferentes do movimento feminista em geral, e dá para dizer que só um movimento feminista negro é capaz de tratar determinadas pautas, porque uma mulher negra, sob o ponto de vista do preconceito, é uma mulher diferente.

Essas diferenças podem ser expostas, por exemplo, na opressão dupla que uma mulher afro sofre: a de ser mulher e a de ser negra. Estende-se à sexualização de seu corpo, objetificado pela mídia em reflexo visível da escravidão. Fixa-se na questão da classe social das mulheres negras também, igualmente fruto da era escravocrata, e culmina em cenários onde a mulher negra é atingida indiretamente pela perda e pela criminalização de seus filhos em sociedades onde a cor da pele ainda determina a inocência de alguém.

A partir dessas particularidades conseguimos perceber como há questões de gênero e de raça que trazem necessidades diferentes às mulheres negras, por isso elas precisam cada vez mais de uma militância que as atenda.

O novo single/clipe da Beyoncé consegue ainda relembrar algumas questões do movimento feminista negro quando ela canta, por exemplo, que gosta do cabelo afro de sua filha - e ainda coloca a criança no clipe com os cabelos esvoaçantes; quase uma resposta à petição que, em 2014, quis obrigar a cantora a pentear os cabelos da pequena Blue Ivy.

"De repente, virou ativista"

Essa não é a primeira vez que Beyoncé traz questões feministas para a sua arte. Na música "Single Ladies", de 2008, ela canta que mulheres podem ficar solteiras sem que isso seja um problema. Na canção "If I Were a Boy", também de 2008, ela falava sobre como seria mais fácil para as mulheres paquerar e beber se elas fossem homens. Em 2013, ainda fortaleceu o discurso feminista quando colocou na música "Flawless" um trecho do discurso Nós Deveríamos Todos Ser Feministas, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

Racismo "não existe", mas houve quem baixasse o volume ou mesmo desse as costas à TV como forma de protesto à cantora.

Lógico que depois da última e barulhenta investida as repercussões não foram apenas elogios. A cantora foi criticada por ter levado o tema ao palco do importante campeonato, escancarando para o mundo os últimos casos de violência policial que vitimaram negros nos Estados Unidos. Como forma de repúdio, oficiais da polícia desligaram seus televisores durante a apresentação e membros da Associação Nacional dos Xerifes contaram, no Facebook, que viraram as costas e baixaram o volume da televisão na hora em que Beyoncé se apresentou. A apresentação indignou ainda o ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que disse ter achado "revoltante" que a cantora tenha atacado aos policiais.

As críticas foram feitas ainda à cantora por apresentações passadas, nas quais ela apareceu de cabelo liso; por ela usar o cabelo loiro; por ter feito plástica no nariz e por estar usando a causa feminista para ganhar dinheiro e se promover.

É necessário que se busque entender que há ideais feministas que nos unem para o empoderamento das mulheres e que isso não acontece de uma hora para outra. A noção de pertencimento a nós mesmas e a aceitação do nosso corpo, cabelo e pele, após tantas opressões vivenciadas, precisam de um tempo para se construírem solidamente e sem contradições. As mulheres só podem se sentir autônomas e conscientes do que são após perceberem como estão desempoderadas por uma sociedade machista e racista que oprime há séculos.

"Formation" foi disponibilizada para download gratuito no TIDAL, serviço de streaming de música de Jay Z, e, mesmo sem ter sido enviada oficialmente para as rádios pela gravadora, já é a maior estreia da cantora nas rádios R&B/Hip-hop, com 16,5 milhões na audiência, ocupando o 11º lugar. O desempenho supera, por exemplo, o 20º lugar de "Single Ladies", conquistado em 2008.



Imaginem agora quantas pessoas devem estar pelo menos pensando sobre o feminismo e o racismo. Imaginem quantas mulheres estão agora refletindo sobre o tal empoderamento? Mas isso, lógico, não é tudo.

Para o empoderamento atinja tantas outras mulheres negras é necessário que elas se sintam encorajadas para uma libertação de opressões. E Beyoncé não é a única mulher capaz de encorajar essa atitude, embora seja lógico que o seu exemplo, público e notório, é fundamental para que mulheres negras não famosas e pobres questionem os padrões estabelecidos sobre suas vidas.

Então, OK, mulheres: agora vamos entrar em formação!

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