Jazz is a losing game?

Rio de Janeiro, Brasil
Por Helena Vitorino

“Amy” é o tipo de documentário que, quando termina, te faz questionar, com o coração partido, por que as coisas não foram diferentes. “What Happened, Miss Simone”, que conta a trajetória da cantora Nina Simone, também. Arqueada com muita dor emocional ao ver a destruição fortuita e desconcertante que acometeu as grandes vozes femininas do jazz, me pergunto: seriam o jazz, o blues e o soul caminhos malditos por enlamearem mulheres tão poderosas? Culpar total e incondicionalmente um estilo musical pela derrocada de artistas, lógico, seria ingênuo – mas não considerar o ambiente e as consequências que estes estilos trouxeram a essas mulheres seria daí irresponsável.



Verifico, e ambos os documentário ajudam nessa tarefa, um padrão bem definido de vícios e distúrbios. Arrisco-me a associar diretamente a profundidade da ligação com a música com a profundidade de quase tudo que as alcançou de alguma forma – especialmente da fama.

Em “Amy”, todas as entrevistas do momento pré-fama deixam claro: ela temia a exposição por ser genuinamente tímida. “Quanto mais as pessoas souberem sobre mim, menos elas se interessarão”, chegou a comentar. Em “What Happened, Miss Simone”, os diários de Nina transpassam o cansaço que todos aqueles concertos, turnês, ensaios e shows geraram numa mulher que desejava apenas ter se tornado uma musicista clássica. A biografia de Billie Holiday não diz o contrário. Nestas mulheres, há um padrão.

Drogas, especialmente álcool e heroína. Relacionamentos abusivos. Distúrbios alimentares. Depressão e muito, muito talento. Estas características, juntas, foram aplicadas em Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Etta James, Aretha Franklin, Nina Simone e Amy Winehouse – coincidentemente ou não, as mais consagradas e poderosas vozes do R&B e do jazz. Enquanto Nina Simone lutava pela sanidade mental num casamento abusivo e recheado de violência doméstica, Etta James repousava agonizando os últimos minutos de aplicação da heroína relembrando um recente abandono. Billie Holliday, Aretha Franklin e Ella Fitzgerald compartilham a experiência de abuso sexual ainda na infância. E todas elas, sem exceção, viveram profundamente a experiência da dependência química.

Convivendo, no entanto, em meio a todo o caos possível gerado pela tríade drogas-abuso-depressão, Nina Simone cantou “Be My Husband” e “Blackbird”, que soaram como dois hinos de alerta à violência doméstica e o descrédito à mulher negra. Com toda a dor do mundo, Etta James entoou “At Last” e “I’d Rather Go Blind”, as canções que atingiram os topos das paradas calcadas sobre uma decepção pessoal inigualável. Mesmo apanhando constantemente, Aretha Franklin lançou “Respect”, um hino da libertação feminina contra a violência. Anos mais tarde, o Grammy pousou no colo de Amy Winehouse junto com uma irreparável decepção amorosa.

O jazz certamente não é o único estilo a cantar a dor, mas derivado que é do blues ("blue" que, em inglês, não é só a cor, mas também um sinônimo para a palavra "triste"), a dor é obviamente um de seus pilares. Meu pai me disse uma vez que só os negros sabiam fazer o bom blues, já que ele nada mais era do que o lamento escravo musicado por piano ou gaita  –  e só os negros saberiam compor a dor da escravidão. Seguindo esse raciocínio, da condicionante “dor” para um trabalho de jazz intenso e profundo, me pergunto se só as mulheres saberiam fazer um bom lamento sobre a violência doméstica e o abandono.


(ACIMA) Imagem mostrada na capa do documentário “What Happened, Miss Simone” simboliza a força que Nina demonstrava sobre o palco e o simultâneo abatimento de sua vida pessoal.

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Em outras palavras, será que um homem cantaria com tanta alma os versos “All I’m asking is for a little respect when i get home”? Alguém que não fosse uma mulher negra saberia cantar “Blackbird” com aquela intensidade? Obviamente, outros artistas interpretariam em relativas perspectivas. Mas, ao repensar a questão, não me ocorre outra imagem senão a de David Johansen interpretando “Hit The Road Jack”, num estilo tão mais clean, firulado e, por que não dizer, branco. Tão branco e menos sensualizado do que Ray Charles faria em qualquer época de sua vida. E isso é porque o artista está ali: a voz e a presença trazem um conteúdo de si que completa o sentido da música.

A expressão corporal de Nina Simone, vista ao longo de sua obra, está em cada sílaba do documentário. As lágrimas imbuídas e o peito partido de Amy Winehouse também. Não sei como, por onde, por quais poros ou qual a transmissão de que se utiliza essa força, mas ela está lá.

Então é a dor e a frustração, ou o que alguns diriam ser apenas o feeling, que faz do jazz o losing game. Me arrisco a dizer que você não canta jazz se não sofre ou se não aprecia a tristeza. O jazz carrega consigo o seu ambiente – que, se até hoje é bem masculino, imagine nos tempos de Ella Fitzgerald. Por mais que a voz feminina seja apreciada no jazz, o estilo surge nos bares e na vida boêmia, cercado de vícios e prostituição. Não se conectar à essa esfera é quase como privar o estilo de sua originalidade nata. Em “What Happened, Miss Simone”, por exemplo, ser a estrela do jazz, aquela que todos queriam ver, era na verdade ser uma marionete na mão de um empresário, que também tentou fazer o papel de marido – e falhou em ambos. No caso de Amy Winehouse, é possível ver que todo tipo de interferência ocorreu em sua vida e carreira – e praticamente nenhuma levou em conta o pedido de socorro que a senhorita Winehouse fazia.

Nina, Ella, Billie, Aretha, Etta, Amy: sucesso tórrido e repentino. Decepção amorosa, violência física, moral e psíquica. Vício. Depois, muitos vícios. Seria o jazz um losing game? Seria, sim. Para essas cantoras, o jazz que era suas vidas foi de fato um jogo de azar. Tão misterioso, irônico e potente que, quanto maior a dor, a tristeza e a melancolia envolvidas, maior se moldou a eternidade e a grandeza de suas vozes.

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