Quando uma música está pronta?

Santiago - RS, Brasil
Nada é mais comum do que um artista passar exaustivas horas dentro do estúdio para alcançar o resultado que tanto espera. No contraponto disso, outros preferem se utilizar da aura do momento como ingrediente principal para fugir da estética perfeccionista. Inclinado a esse segundo grupo, o gaúcho Marcus Manzoni decidiu levar essa discussão para dentro do projeto que ele está chamando de Acoustic Sundays: ao longo de 15 semanas, o artista publicará 15 canções, desafiando o seu próprio processo criativo e confrontando a principal indagação que todo músico se faz quando está gravando: "quando a música está pronta”? O projeto já teve uma edição em 2015 e voltou à cena agora porque nem todas as inquietações de Marcus foram eliminadas. Para entender mais o projeto e saber quais são as ideias por trás dele, convidamos o seu idealizador para bater um papo.

Fotografia por Giancarlo Oliveira

NY: o projeto surgiu dessa tua busca por desafiar o processo criativo. Certo? Queria saber o que te motivou a dar continuidade a ele, criando uma segunda edição.

Marcus: eu me propus o desafio de ir ao encontro da minha musicalidade. O meu maior anseio nos últimos anos foi esse: me encontrar. E a verdade é que ainda não encontrei a essência da minha música. Ou, se encontrei, não percebi, mas sinto que estou próximo disso. E, justamente por sentir estar quase lá, resolvi dar continuidade ao projeto.

Abaixo, você pode ouvir o resultado da primeira temporada.



NY: o que o primeiro Acoustic Sundays te trouxe como resultado em relação a experiência de composição? Tu acredita que algo mudou no teu jeito de criar?

Marcus: com certeza, ter encarado compor 15 músicas, tendo apenas 6 dias para compor, e depois produzir e lançar cada uma delas agregou mais algumas habilidades à minha bagagem. Vale lembrar que eu não disponho de tempo para dedicação integral à minha arte. Eu ainda trabalho profissionalmente como produtor musical, então eu tenho que produzir vários outros artistas em paralelo ao meu trabalho. Porém, não estou me queixando. Todo mundo tem contas para pagar e eu estou OK com isso. A maior habilidade que eu senti ter adquirido após o primeiro Acoustic Sundays não foi exatamente uma habilidade musical, mas a facilidade que criei para tomar decisões. Vai um solo de violão? Se sim, vou lá e faço em 30 segundos e gravo; está pronto e não se mexe mais no solo. É aquele e pronto. Aprendi a entender, amar e sentir a naturalidade de uma expressão artística.



Foto por Marcos Contreira

NY: em um episódio de uma série da Pitchfork, o canadense Mac DeMarco disse que nunca regrava um som; que quando grava uma linha de baixo, por exemplo, ela vai ficar assim em definitivo, porque é isso que torna o disco real. O que tu acha sobre isso? Acredita que regravar, retocar e retrabalhar a faixa acaba eliminando a realidade que a obra pode ter, tira aquele toque humano que é não soar perfeito?

Marcus: figuraça! Eu gosto bastante do Mac DeMarco e compartilho dessa filosofia. Vou me valer da máxima popular, que diz que “errar é humano”. De que adianta eu gravar 80 takes se no show só vou poder fazer um? Não é preciso ser expert para observar a quantia de deslizes, desafinações e erros de execução que ficaram registrados no primeiro Acoustic Sundays. Aqueles erros sou eu, compreende? Eu não vou mentir pr'as pessoas que sou um músico fenomenal, porque não sou. Eu erro igual a qualquer um.

"O resultado de uma música é o que se vive no momento. A música há de ser o registro do que está acontecendo com compositor e com o ambiente que o cerca."

NY: outra questão que essa tua urgência traz é isso que tu quase falou agora: a tua gravação acaba sendo quase uma performance ao vivo... ela se torna muito única.

Marcus: sim, é que o resultado de uma música precisa ser o que se vive no momento. A música há de ser o registro do que está acontecendo com o compositor e com o ambiente que o cerca. Meu violão não vai atingir a afinação perfeita se ontem choveu demais (madeira úmida é difícil de lidar). Eu não vou cantar bem se hoje estou com gastrite. Eu vou escrever sobre a fronteira se hoje estou pensando demais em Rivera. Consciente do que acontece ao seu redor, o compositor é capaz de moldar uma obra com sinceridade.



NY: e, tecnicamente, como é a correria de gravar um som em tão pouco tempo assim? Tu usa um template de mixagem, setup pré-montado ou algo do tipo? E quais as experimentações que tu ainda quer adicionar à essa temporada?

Marcus: para ganhar tempo e ter uma gravação mais ágil, criei um template de organização de pistas, não de mixagem, no software que uso. Eu acredito que, se eu criasse um padrão de mixagem, limitaria o potencial de cada obra. O único padrão que tenho é usar sempre um mesmo microfone pr'os violões e o mesmo microfone para a voz, justamente por já conhecer o timbre daquele equipamento e saber como proceder em qualquer situação. Mas o violão muda, porque eu tenho alguns violões com cordas de aço e outros com cordas de nylon, todos espalhados pelo estúdio. Se comecei a fazer a música com um violão de nylon, vai ser aquele e pronto, porque foi através dele que a música nasceu. Penso que seria injusto com um violão usar outro instrumento para “interpretar” a obra que veio dele. Eu ficaria triste, se fosse o violão preterido. Sobre as experimentações, nesta temporada do Acoustic Sundays, eu pretendo usar objetos como instrumentos de percussão. Duas folhas de papel, em atrito, fazem uma espécie de hi-hat e também podem ser usadas como caixa de bateria se rasgadas. Uns quatro ou cinco livros empilhados, se bater sobre eles com a mão fechada, dá bem um som de bumbo. Eu ainda não experimentei gravar isso e ouvir, mas já andei testando e sinto que pode ser interessante.

NY: talvez tu não pensasse em gravar uma segunda temporada quando idealizou aquela primeira, né? Mas agora, com a segunda temporada em andamento, tu já tem um planejamento de continuar esse projeto por mais tempo?

Marcus: eu gostaria muito que isso se tornasse parte da minha vida, de forma que eu possa realizar o Acoustic Sundays em todos os anos que virão até que eu bata as botas. Porém, vou confessar que é bem cansativo. Pra fazer rolar esse projeto, eu tenho que abdicar (literalmente) dos meus finais de semana. Meus amigos e família sentiram minha ausência durante os três meses do ano passado e sem dúvidas neste ano não será diferente. A carga que carrego nas costas pra fazer o Acoustic Sundays acontecer é bem pesada. Porém, deixar de lado a vida social dos finais de semana também tem seu lado positivo pra mim. Eu sou muito introspectivo e solitário, gosto de viver assim. Essa reclusão apenas vem para tornar mais profundo o mergulho dentro de mim mesmo. Meu colega no selo Ué Discos, o Douglas, brincou comigo no ano passado, dizendo: "teu auto-desafio de fazer 15 músicas em 15 finais de semana tu cumpriu, mas seria massa mesmo se tu fizesse durante um ano inteiro, aí eu tiraria o meu chapéu pra ti". Bom, eu até hoje não sei se ele falou isso pra me instigar ou se foi só pra brincar comigo, mas confesso que me deixou pensando por vários dias. E já vou adiantar aqui que não descarto a possibilidade de um Acoustic Sundays vir a acontecer durante um ano inteiro algum dia. Nunca se sabe.

Para continuar acompanhando o trabalho de Marcus e seu Acoustic Sundays, você pode seguir a página do cantor no Facebook, Soundcloud ou Spotify. O experimento vai sendo publicado pela Ué Discos entre os dias 20 de março e 26 de junho.

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