Quem escreve o passado dirige o futuro

São Paulo, Brasil
Por Víctor Aliaga

No dia 31 de dezembro de 1983, a Apple fez um evento sob o comando do visionário Steve Jobs e anunciou que um tal Macintosh seria lançado no ano seguinte. Um vídeo dirigido por Ridley Scott foi exibido no telão e, nele, a atriz Anya Major corria com um martelo e representava o novo computador que salvaria a humanidade do conformismo e do Grande Irmão, interpretado na oportunidade por Dave Graham. O martelo era jogado e os dizeres "em janeiro de 1984, a Apple lançará o Macintosh, e você verá por que 1984 não será como em 1984" encerravam o comercial, empolgando muitos dos que estavam presentes. O filme e o conceito eram uma clara referência à ficção científica da obra "1984", do inglês George Orwell. Bem, se até o cara que colocou mil músicas no seu bolso usufruiu da obra de GO, por que raios Orwell não estaria presente em pelo menos uma das mil músicas que o seu bolso carrega?



Muito antes das sub-celebridades protagonizarem aquele programa repleto de câmeras globais, em 1949 o jornalista e escritor britânico George Orwell imaginou o ano de 1984, onde a sociedade seria reprimida por um regime totalitário representado pela figura do Grande Irmão (o Big Brother, na original edição inglesa). Quatro anos antes, em 1945, ano em que a Segunda Guerra Mundial chegara ao fim, Orwell já havia publicado o livro "Revolução dos Bichos". Nesta outra obra, a narrativa que continha animais como protagonistas trazia o princípio de que muitos se corrompem ao alcançar o poder. Décadas depois, a obra de Orwell continua presente em todo o canto da cultura pop. O jogo de dominação proposto pelo autor é exercitado diariamente por uma série de veículos e as linhas de George aparecem ainda como referência em filmes, séries, quadrinhos, reality shows, documentários, jogos e, claro, músicas.

O Camaleão do Rock está de olho em você

O oitavo disco de David Bowie, Diamond Dogs (1977), a princípio era pra ser uma adaptação teatral do romance "1984", mas o músico enfrentou problemas autorais com a família do escritor. O disco, que contém o famoso hit "Rebel Rebel", tornou-se então uma mescla da visão de um mundo glam pós-apocalíptico com a metade final sendo claramente uma homenagem à obra orwelliana, contendo músicas como "Rock N' Roll With Me", "1984", "Big Brother" e "Sweet Thing" e "We Are The Dead", que é uma frase dita por Winston e Julia no livro, pois ambos diziam que logo seriam pegos, estando, desde já, mortos.


Você não estava prestando atenção

"2+2=5", hit dos britânicos do Radiohead que abre o álbum Hail To Thief (2003), desde o título sugere uma referência à distopia enfrentada pelo protagonista Winston em "1984". No livro, lemos que o opressor sistema do Grande Irmão, se quisesse, convenceria a todos de que o resultado dessa matemática simples é igual a cinco, ou a qualquer outro número que eles desejassem. Winston, ao fim do livro (spoilers a seguir), acaba admitindo que a soma resulta em cinco, o que significa a perda de sua humanidade, individualidade e capacidade de pensar.


Alguns porcos flutuantes são mais porcos que outros

Animals (1977), álbum do Pink Floyd antecessor do icônico The Wall, inspirou-se na fábula "Revolução dos Bichos", desde o porco flutuante na capa do álbum até as referências explícitas aos personagens do livro, que aparecem também nas letras de faixas como "Dogs", "Pigs (Three Different Ones)" e "Sheeps". Inclusive, os três animais são metáforas que, de acordo com Roger Waters, representam os políticos corruptos, os homens da lei e aqueles que seguem os seus líderes sem questionar as suas medidas. Porcos, cachorros e ovelhas, respectivamente. Por mais que contenha apenas cinco canções, Animals é um dos trabalhos mais estudados e bem feitos pela banda.


Eles não vão nos controlar

O Muse já havia deixado na letra de "Citizen Erased" (2001) o seu parecer à imagem do Grande Irmão. The Resistance, de 2009, vai ainda mais longe e é inteiramente dedicado à sociedade distópica de Orwell, refletindo o personagem Winston Smith e todas as suas angústias. Tudo começa com "Uprising", que nos diz que "eles não irão nos controlar, nós seremos vitoriosos", demonstrando toda a vontade de Winston de se impor frente ao sistema opressor. "Resistance" vem logo em seguida e, nesta faixa, Winston e Julia questionam a segurança do esconderijo que usavam para fugir da opressão, deixando claro que o amor é a resistência do casal. "United States of Eurasia" traz, desde o seu título, a guerra vivida pelos países europeus, o não-saber da população sobre ela e o dilema entre seguir as ordens dos superiores ou não. A trilogia de canções em "Exogenesis Symphony" nos delata o fim trágico do anti-herói Winston através dos questionamentos "Quem somos nós? Onde nós estamos? Por que estamos aqui? Por que não podemos recomeçar novamente?".



As referências não se limitam a álbuns inteiros, existindo inúmeras canções soltas por aí que expressam a sua homenagem ao influente autor inglês. "Testify" do Rage Against The Machine traz em determinado momento a frase "quem controla o passado controla o futuro", retirada do livro "1984". O duo Eurythmics fez a música "Sexcrime" - um dos termos usados no livro - especialmente para a adaptação da obra-prima de Orwell para as telonas, em filme estrelado por John Hurt. Já o Offspring, no single "The Future Is Now", remete em sua letra ao final da obra, perguntando: "você vai pegar o que está em minha cabeça? E me apagará quando eu estiver morto?".

Nota do autor

Vivemos em uma época em que o povo anda descontente com os seus governos na América Latina. O descontentamento é algo bom! Permite até filosofar, se partirmos do princípio de que filosofar é questionar e não aceitar as certezas desconfortáveis do nosso cotidiano. Porém, parcela da população, aqui no Brasil, não sabe por que exatamente bate os chapéus do Menino Maluquinho como forma de protesto, agindo de maneira irracional incentivada pela verdade que julga sentir ao seu redor. Nestes cenários, a cultura pop pode servir de alento. Tanto a obra literária de Orwell quanto as músicas derivadas dela são essenciais para entendermos o que é ter um Grande Irmão por trás de nossa realidade ditando até o que devemos pensar.

Se vale uma dica, não faça com que 2016 seja como 1984, pois, enquanto uns exigem a ditadura de volta, algumas obras estão aí para esclarecer as coisas e mostrar que dois mais dois continua sendo quatro. Nestes casos, a manutenção da matemática já é um belo ponto de partida.

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