Elza, a mulher da eternidade

Porto Alegre, Brasil
Há emoções na vida que me deixam travada, com incapacidade para descrevê-las. Mas, se tratando de ouvir e ver Elza Soares, que fez show em Porto Alegre no último dia primeiro, o que prevalece é o prazer e a necessidade de falar desta mulher. A cantora está em turnê nacional com o seu último álbum, A Mulher do Fim do Mundo, que é também o primeiro disco somente com músicas inéditas em sua longa carreira.



Quando as cortinas do Teatro Bourbon Country se abriram, a visão foi de Elza no alto, sentada em um trono. O cenário deu vazão ao que a cantora realmente é: uma rainha. Cantando à capela a música "Coração do Mar", poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik, a voz e a presença dela foram capazes de desestruturar qualquer fã ou mesmo entusiasta da música brasileira.

Com seu black power violeta e sua voz forte como se ainda estivesse no início da carreira, Elza só personifica ainda mais o que ela tem demonstrado durante todo esse tempo na estrada: está a cada dia mais viva.

Como uma súplica, um aviso ou um pedido, Elza canta em seguida "A Mulher do Fim do Mundo", um samba enredo de Rômulo Fróes e Alice Coutinho, que repercute como uma volta por cima, das tantas que ela já deu para seguir cantando até o fim.

Às vezes, Elza mostra a mesma potência da voz gravada no disco; em outros momentos, sua voz fica embargada pela emoção dos próprios versos que canta.

E o fim dela não é a morte, é a eternidade, sem exageros. A mulher do fim do mundo, que é negra, filha de lavadeira, devota de São Jorge, eleita a cantora do milênio pela BBC de Londres, ativista da causa negra, feminista e gay, não tem idade e se mostra viva mesmo que, por conta de uma cirurgia feita nas costas anos atrás, ela precise se apresentar sentada.

O show, aliás, é uma das suas maiores provas de vida, pois, mesmo depois de cantar para três gerações, ela continua se renovando. E o resultado disso está na plateia, onde a maioria é composta por jovens e adultos. Elza não só abraça o público novo como canta para este público, tratando de temas muito pautados pela sociedade atual.

Ela canta contra o racismo com "A Carne", do álbum de 2002 Do Cóccix ao Pescoço; chama as mulheres para denunciarem a violência doméstica, com "Maria da Vila Matilde" enfatizando o "1-8-0! vocês vão denunciar ou não?"; e fala de transfobia também, quando canta, acompanhada do ator Rubi, "Benedita", música que fala do desaparecimento de uma travesti que é traficante e está sendo procurada pela polícia.

De alguma forma, Elza sempre foi engajada politicamente - em 2011, por exemplo, participou da campanha "Sim, Eu Aceito", em apoio ao livre amor e ao direito universal do casamento - e, ainda que as canções do novo trabalho tenham sido compostas por outros artistas, fica claro que as letras nasceram inspiradas na vida e na visão de mundo de Elza Soares. São músicas que se somam a tudo que a cantora, tão particular e tão plural, viveu e vive.

O show mostra a emoção e o sentimento que respinga fácil em quem o assiste, pois Elza também é carne viva em cima do palco: às vezes mostra a mesma potência da voz gravada no disco; em outros momentos, sua voz fica embargada pela emoção dos próprios versos que canta. "Ah, gente, eu sempre choro", diz ela sem constrangimentos.

Além de temas como os direitos humanos e o sexo, o show fala também da morte. Em um dos pontos mais emocionantes da apresentação, uma espécie de funeral é armada, atores entram vestidos de preto e se posicionam ao redor de Elza. A luz é dela e ela canta como se recitasse uma marcha fúnebre:


Levo minha mãe comigo 

Embora já se tenha ido

Levo minha mãe comigo

Talvez por sermos tão parecidos

Levo minha mãe comigo

De um modo que não sei dizer

Levo minha mãe comigo

Pois deu-me seu próprio ser

À essa altura, a emoção já não cabia mais no espaço, e até por isso era o silêncio que predominava. Como se tivesse caído uma ficha de que Elza ainda estava ali, por trás das cortinas, o público então começou a gritar por ela, batendo palmas enlouquecidamente até que as cortinas se abriram. Elza então voltou. Agradeceu ao público; mandou beijos; respondeu com um "oi, tô aqui, querido", quando alguém a chamou de rainha; disse "sou mesmo", quando foi chamada de gostosa; e se emocionou junto com o público. Então perguntou antes de sair: "o que seria da minha vida sem vocês?".

Em pensamento, eu respondi perguntando: "o que seria da nossa vida sem você, Elzinha?"

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