Guia Rodrigo Constantino de Música Brasileira

Porto Alegre, Brasil
No final do mês passado, em meio à crise política e judiciária que se alastrou pelo país, o ex-colunista da Veja Rodrigo Constantino publicou uma lista de artistas e intelectuais que, segundo ele, deveriam ser boicotados por estarem apoiando a instalação de uma ditadura comunista no Brasil. A lista conta com escritores, pesquisadores, jornalistas e músicos que têm se destacado por defender bandeiras sociais ao longo das últimas décadas. Na parte da música, em especial, estão listados nomes com histórico de combate à ditadura militar e até de indicação ao Oscar. Sem querer, o blogueiro acabou criando um belo guia para quem quer se aprofundar na música nacional.

Separamos aqui os nomes, os links e uma pequena biografia dos agraciados.

Chico Buarque



"Muso" dos primeiros grandes festivais de música brasileira, Chico solidificou-se como o principal compositor do país a partir dos anos 60, mantendo o protagonismo nesta função até os dias atuais. Ganhou especial notoriedade durante os anos de chumbo da ditadura militar, quando envolveu-se com a contracultura e o ativismo político, assinando discos, canções e até peças de teatro que desafiavam a censura e reinventavam continuamente as estéticas da arte no país.

É autor de "Construção" (canção que denunciava a desumanização do operariado nos grandes centros urbanos), "Roda Viva" (que questionava a luta cotidiana dos artistas que tentavam sobreviver sem serem cooptados pela indústria cultural) e "Vai Passar" (que lembrava dos atos de corrupção ocorridos durante o período ditatorial brasileiro, chegando a inspirar o livro investigativo "Estranhas Catedrais", de Pedro Henrique Pedreira Campos).

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Gilberto Gil



Fundador e um dos principais articuladores do movimento tropicalista, Gil foi pioneiro na introdução de elementos tribais na música popular brasileira e já era um dos principais nomes da música nacional quando foi exilado pelo regime militar no final dos anos 60. No exterior, construiu fama rapidamente, semeando um consistente público nos Estados Unidos e na Europa.

De volta ao Brasil nos anos 70, engajou-se na redemocratização do país e destacou-se pelo ativismo em defesa da cultura africana, chegando a presidir a Fundação Gregório de Matos nos anos 80. No início dos anos 90, recebeu do Ministério da Cultura da França o título de cavaleiro da Ordem das Artes e Letras, especialmente por sua colaboração junto ao SOS Racisme, que denunciava as condições de vida da população negra ao redor do mundo.

É parceiro de Chico Buarque na icônica "Cálice" e ativista social em favor da flexibilização dos direitos autorais, tendo inclusive encorajado leis do governo brasileiro em apoio às licenças Creative Commons.

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Preta Gil



Filha de Gilberto Gil, lançou o seu primeiro disco em 2003. Na capa de sua estreia, a cantora aparecia "acima do peso" e nua, o que acabou gerando uma prolífera discussão acerca dos estereótipos de beleza e sensualidade na música pop.

Longe da linha estética que consagrou o seu pai, Preta andou pelo pop, sempre flertando com gêneros musicais não hegemônicos, como o funk e o hip-hop, tangenciando temas como a liberdade de expressão, o respeito às minorias e, apesar de ter participado do quadro Medida Certa do Fantástico, sempre utilizou a sua música para questionar os padrões de beleza pregados pela mídia.

Bônus: ela quase não chamou-se Preta, por resistência do funcionário do cartório, que se recusava a registrar tal nome. O funcionário precisou ser convencido por Gil, o pai. Segundo o músico, se "Clara" era um nome aceitável, "Preta" também deveria ser. Deu certo, e cá está a moça, com seu nome cheio de melanina.

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Carlinhos Brown



No que diz respeito à versatilidade, Carlinhos é o grande músico de sua geração. Começou como percussionista, tocando em bandas de apoio de Caetano Veloso, João Gilberto e Djavan. No início dos anos 90, fundou o influente Timbalada: um supergrupo com 400 percussionistas que marcou os rumos da música baiana naquela década. Com o grupo, ganhou notoriedade nacional, saindo logo depois para uma bem-sucedida carreira solo.

Em 1996, ajudou o Sepultura a moldar a identidade do disco Roots, que misturou a distorção death com a força dos tambores tribais e acabou se tornando a maior inspiração de grupos de nu metal surgidos no início dos anos 2000. Depois, Carlinhos fez sucesso nas rádios cantando com os tribalistas Marisa Monte e Arnaldo Antunes, além de ter composto músicas para Caetano, Bethânia, Sérgio Mendes, Ivete Sangalo e Cássia Eller. Em 2012, concorreu ao Oscar de melhor canção original com "Real in Rio", da animação Rio, e, no mesmo ano, passou a integrar o júri da versão brasileira do programa The Voice.

Além da música, envolveu-se com o ativismo social. Participou do coletivo que desenvolveu obras de urbanização e saneamento básico na periferia de Salvador, recebendo da ONU o Certificado de Melhores Práticas do Programa de Assentamentos Humanos. Também é fundador da Associação Pracatum, um centro baiano de formação que oferece treinamento profissional, idiomas, artes marciais e aulas de cultura afro-brasileira para cidadãos de baixa renda.

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Chico César



Cantor, compositor e estudioso da cultura, Chico enverga uma carreira com oito discos autorais, além de ter colaborado em discos de Maria Bethânia e Daniela Mercury (indo da MPB clássica ao ziriguidum).

É autor, entre outras, da canção "Mama África", de 1996, cujo sucesso imediato trouxe para o centro das atenções o debate sobre a dupla jornada das mulheres brasileiras, mais especificamente das mães solteiras.

Mama África, a minha mãe, é mãe solteira
E tem que fazer mamadeira todo dia
Além de trabalhar como empacotadeira nas Casas Bahia


Fora dos palcos, apoiou movimentos populares, como o MST, e envolveu-se no debate público sobre a cultura no seu estado natal, chegando a presidir a Fundação Cultural de João Pessoa, dedicada ao fomento da práticas artísticas no estado da Paraíba.

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Alcione


Dama de honra do samba brasileiro há pelo menos quatro décadas, a Marrom ganhou projeção nacional a partir de suas aparições na extinta TV Excelsior, no início dos anos 70. Em 1975, gravou o seu disco de estreia, que trouxe ao público a canção "Não Deixe o Samba Morrer", de Edson Conceição e Aloísio Silva. A canção permaneceu 22 semanas como a mais tocada do país e até hoje é reconhecida como um hino do gênero.

Nascida no Maranhão, e recorrentemente considerada uma das cidadãs mais ilustres do estado (dá nome ao Teatro do Centro Histórico de São Luís, por exemplo), estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde foi grande defensora das Escolas de Samba e criou laços com movimentos sociais e associações civis do bairro da Lapa.

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Tico Santa Cruz


Tico surgiu para o Brasil junto com os Detonautas, no início dos anos 2000. À época um dos tantos nomes produzindo música com foco sobre o público adolescente no país, o grupo carioca emplacou uma série de hits nas rádios com os seus dois primeiros discos.

Em 2005, quando se preparava para o seu terceiro grande lançamento, o grupo aproximou-se de Edu K, ex-DeFalla, e o resultado desta aproximação foi o disco Psicodeliamorsexo&distorção, mais denso e experimental. Neste mesmo ano, a banda perdeu o guitarrista Rodrigo Netto, assassinado após um assalto à mão armada no Rio de Janeiro. O fato marcou a entrada pública de Tico Santa Cruz em discussões sociais, tendo ele se estabelecido como forte defensor das políticas de ressocialização de jovens e do desarmamento da população civil.

Ainda no âmbito da música, a banda sumiria das rádios nos anos seguintes após declarar guerra à prática do jabá, e ressurgiria em 2009 com a canção "O Inferno São Os Outros", que trazia citações ao filósofo socialista francês Jean-Paul Sartre. Lutando sempre com o seu passado pop e com as implicações de ter surgido para o país com uma música bastante superficial, os Detonautas aprofundaram as suas temáticas, incluiram-se nas discussões sociais de seu tempo, concorreram ao Grammy Latino e, em 2011, foram a primeira banda independente a subir ao palco do Rock in Rio, dividindo as atenções com grupos como System Of A Down e Guns N' Roses.

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Beth Carvalho



Contemporânea de Alcione, Beth forma esta e com Clara Nunes o que os críticos de música chamam de ABC do Samba Brasileiro (em referência às iniciais de seus nomes). Na ativa desde o final dos anos 60, a cantora veio da Bossa Nova, mas encontrou no gênero do povo a sua verdadeira vocação.

Em quase 50 anos de carreira, Beth já gravou mais de 40 discos, destacando-se por interpretar músicas de jovens compositores que, depois de uma ajudinha da "Madrinha do Samba", vieram a se consagrar na música nacional, como foi o caso de Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão.

Fora dos palcos, a Madrinha causou polêmicas na alta sociedade carioca ao posicionar-se como militante de esquerda. Declara-se a favor da ocupação de terras improdutivas, já deu discursos públicos criticando a concentração injusta de terras no campo e é uma das artistas brasileiras a defender publicamente o MST e a bandeira de uma reforma agrária realmente democrática.

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Dinho Ouro Preto


Antes de mais nada, o Capital Inicial pode até ter vindo do movimento punk e ter lançado em 2010 um bom disco chamado Daz Capital (fazendo referência direta à obra de Karl Marx), mas o vocalista Dinho Ouro Preto nunca foi necessariamente um ativista político e menos ainda um militante de esquerda. Não é raro encontrar em seus shows falas onde ele apenas repete o discurso padrão de que "todos são bandidos e o legal é falar mal do governo, seja ele qual for". Ainda que apontar nomes honestos na política profissional brasileira seja realmente cada vez mais difícil, apenas reclamar sem qualquer tipo de raciocínio prévio continua sendo tão inútil quanto ficar de braços cruzados vendo o circo pegar fogo. Ainda assim, o vocalista do Capital Inicial acabou sendo listado por Constantino, provavelmente por conta da entrevista que deu à Folha de São Paulo se posicionando contra o impeachment da presidenta Dilma.

Dinho e o Capital Inicial apareceram para a música nacional na segunda metade dos anos 80, como continuidade do movimento de bandas brasilienses que revelou ainda Legião Urbana e Plebe Rude. Mesmo sendo o menos politizado dos três maiores grupos do Planalto Central, o Capital adquiriu bastante popularidade a partir do disco de estreia, de 1986, experimentando uma parábola de crescimento que fez o grupo alcançar rapidamente o seu auge e encerrar as suas atividades no meio da década seguinte. Reformulado, o Capital Inicial retomou as atividades em 1998. Logo depois, gravou um dos maiores acústicos da história da MTV e nunca mais parou (exceto quando o próprio Dinho precisou sair de cena após acidentar-se caindo do palco).

Com mais de 30 anos de estrada, Dinho e sua banda já ganharam praticamente todos os grandes prêmios da música brasileira, conseguiram se manter no mainstream mesmo em épocas onde o rock passou por baixa comercial e ainda registram a marca de serem o grupo que, entre artistas nacionais e internacionais, mais vezes subiu ao palco do Rock in Rio, com aparições em 1991, 2001, 2011 e 2013.

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UPDATE: antes do fechamento desta matéria, Constantino publicou uma segunda lista, que já contava com nomes como Aldir Blanc, Arrigo Barnabé, Bebel Du Gueto, Carlos Gerbase, José Miguel Wisnik e Wagner Tiso. O clube não para de crescer e a qualidade do pelotão só melhora.

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