Karoshi: honrando a tradição das soundtracks italianas

Vicenza, Itália
Por Claudio Romanichen.

Ennio Morricone, Nino Rota e Angelo Badalamenti (alguns dos maiores compositores italianos) têm em comum, além dos genes ítalos e da habilidade para compor trilhas sonoras inesquecíveis, o fato de terem o seu legado honrado com louvor pelo quarteto italiano Karoshi, que lançou no dia 08/03 o seu novo EP, Antera. Produzido pela própria banda, o trabalho é uma pérola a ser observada com atenção por ouvidos interessados em post-rock, psicodelia garageira e delicadas viagens instrumentais.

Karoshi, Antera 2016

A banda é original de Vicenza, na região do Vêneto (norte da Velha Bota). Formada em 2013 pelo baterista Andrea e pelo guitarrista Gabriele, inicialmente o grupo era um duo de noise instrumental. Algum tempo depois, houve a entrada do baixista Giulio, o que, segundo Andrea, "deu fôlego ao trabalho de composição, que até então era muito rápido e direto". Um ano depois, já tendo lançado o EP Maizena, a banda fechou a formação atual, que conta ainda com o tecladista Enrico, "que fez o som do grupo mudar drasticamente", completa o entrevistado.

"De maneira geral, a habilidade artística italiana foi substituída por anos de política ruim e lixo na TV."

O nome da banda vem do japonês e significa "morte por trabalho excessivo". A dupla fundadora gostou da originalidade do termo "apesar de ele não ser tão alegre assim". Já as referências para o som do Karoshi vêm de diversos lugares: em nossa entrevista, a banda citou “um easter egg no novo EP, que remete a um quadro do espanhol de Goya”; a sétima arte (os filmes noir em especial) e suas movie scores também são recorrentes no leque de influências do grupo italiano.

“Não temos uma fórmula pronta: há muitas coisas de que gostamos mas que não parecem compatíveis. The Ventures com Portishead e Aphex Twins, as estruturas do Radiohead e a sofisticação do Air, ou Boards of Canada, Tom Waits e Elliott Smith, ou ainda Flaming Lips e Charles Mingus...”, contou o baterista. E as atmosferas sugeridas pelos temas demonstram que as influências são assimiladas e devidamente digeridas, de forma que o que se ouve é uma música acessível e atemporal, cheia de detalhes e nuances com originalidade e um característico toque lo-fi.

Antera

Antera, o EP, contém quatro faixas.

“Libellula”, o tema de abertura, tem uma levada de bateria hipnótica seguindo um riff que ecoa em uma leve distorção; em seguida, “La passione di McGuffin Per Il Giuoco d'Azzardo”, a única faixa com vocais, emula climas de canções com crooners dos anos 30, numa mistura de nostalgia e esquisitice thomyorkiana. Em “Il Grande Vuoto”, climas se alternam, sugerindo cenas de calmaria e tensão. Para fechar, “A Proposito di Droga” é talvez o tema com maior número de mudanças de andamento, a despeito de sua curta duração.



Após o lançamento de seus últimos EPs, a banda está agora compondo o que deve vir a ser seu primeiro disco cheio, “mas ainda é cedo para saber o que vai acontecer”, Andrea cautelosamente afirma.

A cena independente italiana

Os integrantes nos contam que "nos últimos 30 anos, apareceram muitas bandas incríveis, porém a preguiça do país arruinou tudo". E continuam: "poucos conhecem algo além do que toca no rádio ou nos reality shows... mas não os culpamos, porque a habilidade artística italiana foi substituída por anos de política ruim e lixo na TV”. E acrescentam ainda: "graças à internet e aos festivais, a música (independente) está mais acessível". Entre alguns dos nomes interessantes citados pelos caras estão o movimento Occult Psychedelia, dentro do qual estão gente como Lay Llamas, Mamuthones, Father Murphy e Squadra Omega, e outras bandas mais próximas ao estilo “trilha sonora” do Karoshi, como Calibro 35, C’mon Tigre e Guano Padano, ou ainda How Plan, Sultan Bathery e Universal Sex Arena.

Quando perguntados sobre a música brasileira que chega lá, desculpam-se por não conhecerem muito, mas não fazem feio: além de Mutantes, João e Astrud Gilberto, falam do Sepultura, dos Ratos de Porão e dos neo-psicodélicos goianenses do Boogarins.

Você pode ouvir o Antera no Bandcamp da banda, onde ele está disponível para download grátis.

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