Como eu, uns amigos e a internet trouxemos os nossos artistas preferidos para tocar na nossa cidade

Porto Alegre, RS, Brasil
Já faz algum tempo que a expressão “eu nunca vou ver um show da minha banda preferida” pode ser considerada puro pessimismo. Claro, a menos que a sua banda preferida seja composta por integrantes que já não estão mais entre nós. Isso porque, graças à internet e à proximidade das coisas, a articulação com fã clubes, selos musicais e até mesmo o contato direto com os artistas têm feito com que diversos e variados shows cheguem até os lugares mais improváveis do país. No ano passado, comecei pelo Facebook um movimento que acabou levando o canadense Mac Demarco para um show (lotado) em Porto Alegre. Em 2016, a Gorduratrans, banda carioca que tem tanto (pouco) dinheiro quanto eu e você, fez uma turnê tocando em diversas cidades do nordeste, só contando com uma boa lista de contatos e admiradores. Ainda em 2016, uma turnê de 29 shows da Lucy Rose, ex-Bombay Bicycle Club, acabou sendo (muito bem) organizada inteiramente por fãs. A internet não trouxe só a proximidade, ela também trouxe formas de viabilizar organizações coletivas mais complexas.

Foto tirada pela Mayra Silva no show da Lucy Rose em Porto Alegre, no Groovahoolic, uma loja de discos da cidade.

Quem estuda comunicação volta e meia se depara com o livro A Cauda Longa, que ajuda a explicar o fenômeno que possibilita que um fã, depois de algumas mensagens inbox, possa trazer o seu artista favorito para a sua cidade, mesmo que essa cidade esteja bem longe das capitais. No livro, o autor comenta que, por conta da fragmentação dos gêneros, cada vez mais o nosso consumo cultural é baseado em nichos, e esses nichos acabam se subdividindo em novos subnichos, que viram novos fragmentos e por aí vai até o infinito. Por conta de todas essas partições, cada vez menos existe uma barreira que separa quem consome de quem produz. Cada vez mais temos artistas na plateia e fãs no palco. Todo esse movimento fez com que a proximidade entre fãs e artistas se transformasse em algo muito intenso e recorrente em nossa cultura super digitalizada. Afinal, quem não tem seu cantor indie favorito do mês de maio adicionado no Facebook, não é mesmo?

Unir as pessoas certas por um propósito em comum

Na metade de 2015, a notícia de que o Mac Demarco viria para o Brasil já estava circulando pela internet, graças à sua forte conexão com os paulistas da Balaclava Records, um selo musical independente que nos últimos anos trouxe para o Brasil muitas atrações de pequeno/médio porte da cena indie internacional. Em 2014, o Mac já havia colado no Beco 203, em Porto Alegre, para um show meio cheio/meio vazio em uma semana pré-Lollapalooza. Em 2015, ele viria mais maduro, com mais experiência na mochila, com mais gente querendo ver e com as músicas novas do disco Another One para tocar.

Num impulso de fã, criei a página Quem dera estar em casa ouvindo Mac Demarco, um plágio descarado de uma outra fanpage, ligada à banda Swans, que usava a mesma frase. A partir dali e da movimentação criada com alguns memes e piadas sobre o cantor, em pouco mais de duas semanas a página já contava com mais de mil seguidores. Foi então que criei o evento Queremos Mac Demarco em Porto Alegre. A partir disso, fui convidando todo mundo que eu conhecia e investi cerca de R$ 100,00 em anúncios pagos no Facebook para fazer um barulhinho. Deu certo: um produtor local entrou em contato comigo através da página e perguntou se havia a possibilidade de transformar o meu evento fictício do Facebook em evento oficial do show, porque, vendo a movimentação que criamos, ele havia decidido trazer o artista para tocar na nossa cidade. Em contrapartida, já que trabalho também com artes gráficas, esse produtor me deu a oportunidade de fazer as artes do show e, no dia do evento, ainda me deu algumas entradas e a oportunidade de conhecer o Mac pessoalmente.


O bom de ser o cara que cria o evento no Facebook é que tu acaba tendo algumas oportunidades legais.

Resumo: a chave da coisa toda foi a criação de uma página que usou algumas piadas para reunir os fãs e depois conectá-los. Esse pessoal (muitos nem se conheciam antes disso tudo), uma vez conectado, fez volume o suficiente para chamar a atenção de quem precisava nos ver. O resultado final foi muito bom. Além de eu ter conhecido os caras da banda, o show estava lotado e até hoje muita gente comenta sobre aquela noite de quarta-feira em Porto Alegre. E alguns ainda comentam sobre como era estranho tanta gente gostar da mesma coisa sem nem se conhecer. Ainda bem que a web está aí para tornar isso possível.


No show em Porto alegre o fã Fernando Halal gravou a surfada do canadense na galera.

Os contatos da Gorduratrans

Na metade de 2015, a banda carioca Gorduratrans acabou ganhando notoriedade por conta do lançamento de seu primeiro disco, repertório infindável de dolorosas piadas. A mistura de shoegazer com elementos do rock dos anos 90 fez com que a música “você não sabe quantas horas eu passei olhando pra você” chegasse até os ouvidos de toda uma cena no nordeste do país. Foi então que, em fevereiro de 2016, a banda, com a ajuda de um grupo enorme de fãs e selos locais, viabilizou uma turnê de sete shows pelas terras mais quentes do país, passando por Maceió, Recife, Natal, Fortaleza, Campina Grande e Santa Cruz do Capibaribe.

O retrato de uma boa parte das pessoas envolvidas na turnê que levou a Gorduratrans para o Nordeste.

O envolvimento dos fãs e os contatos do selo padrinho da banda (o Bichano Records, do Fred Zgur) foram fundamentais, como o próprio Fred nos contou durante uma conversa que tivemos por inbox. "Cara, essa história é até meio boba. Os meninos da banda eram muito amigos da Hannah, da Letícia, da Talude e de mais um pessoal do nordeste por causa do Twitter. Alguém falou que eles deveriam ir tocar lá e a gente foi. Nós já tínhamos contatos na maioria dos lugares, mas as meninas que foram as responsáveis por articular tudo. Foi tudo no faça-você-mesmo".

Diferente do caso do Mac Demarco, os shows da Gorduratrans pelo nordeste não foram grandes produções com prazos e datas divulgadas com antecedência, nem contaram com uma organização de longas semanas. Segundo a Hannah, uma das meninas que trabalharam para realizar a turnê, tudo foi organizado em uma semana, graças à ajuda de fãs espalhados por todas as cidades onde eles foram sendo chamados para tocar. A esquematização acontecia pelas pelas redes sociais, sempre contando com bandas, casas, produtores e selos locais: Transtorninho Records (Maceió), Triarte (Fortaleza), banda Maquinas (também de Fortaleza) e mais uma cambada de gente bem intencionada e comprometida com as coisas.

Quando conversei com o Felipe, da banda Amandinho, que tocou com a Gorduratrans durante a turnê, ele me comentou que a base de tudo foi o pessoal envolvido amar muito o que estava fazendo. "Eu, pessoalmente, acompanhei os meninos até Fortaleza pra ajudar, por uma questão de brodagem, porque eu amo eles".

Casos como este são cada vez mas comuns na cena independente brasileira, e isso acontece principalmente por conta do boom que os selos indie tiveram nos últimos anos. Cada vez mais grupos de fãs e bandas se unem para lançar, produzir e fazer circular os artistas de que gostam. Esse movimento se aproveita muito da conectividade que a internet trouxe, não por menos é que essas pontes entre bandas se tornam recorrentes mesmo entre selos de diferentes regiões do país, que unem contatos e redes para viabilizar muita coisa. No caso específico da Gorduratrans, os contatos e as redes, unidos, conseguiram criar um movimento coletivo muito maior do que qualquer evento ou página no Facebook conseguiria realizar.


A passagem pelo Nordeste ainda rendeu a gravação de um videoclipe todo produzido com a ajuda de diversos amigos e parceiros locais. Make yourself total até no "pós-venda".

29 shows de graça pela América Latina

Talvez o caso dos shows da britânica Lucy Rose seja o mais extremo dos que quero trazer neste texto. No início do ano, a cantora conversou com fãs da América do Sul para tentar organizar alguns shows dela pela região, já que ela recebia muitos pedidos e demonstrava vontade de tocar por aqui pela primeira vez em sua carreira solo. Pouco tempo depois, graças ao contato de alguns fã-clubes e fãs sem filiação, as datas começaram a ser preenchidas. Em abril, veio o anúncio oficial das 28, e depois 29, datas marcadas, com shows que iriam do Brasil ao México em uma sequência de apresentações de quase um mês e meio.

Paula, uma das administradoras da página Lucy Rose Brasil, esteve envolvida na vinda da cantora para Porto Alegre e me contou que organizar shows foi uma experiência totalmente nova em sua vida. "Eu tinha ZERO experiência com eventos. O maior que havia organizado até então tinha sido o meu aniversário de 30 anos, para cerca de 30 pessoas. Trabalhar nesses shows foi uma experiência totalmente atípica e na maior parte do tempo eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Fui só seguindo a minha intuição, quebrando a cara aqui e ali, até acertar".

Lembra da proximidade entre fã e ídolo? A responsável pelos shows de Porto Alegre evidenciou isso na prática e também comentou sobre a experiência do primeiro contato com a Lucy, mostrando que a barreira entre produtor e consumidor realmente não existe mais. "Eu sou fã da música dela desde 2011, mas nunca tinha entrado em contato. Então ela postou no Facebook que viria pra América do Sul por conta própria atendendo aos inúmeros pedidos, e que iria onde quer que tivesse um lugar pra ela tocar e dormir. Então mandei uma mensagem pra ela e começamos a conversar. Do primeiro e-mail até o dia do show foram nove meses de contato.

Nos shows da Lucy Rose no Sul, a organização ficou toda por conta da Paula, que foi responsável por ir atrás de locais, organizar a apresentação e cuidar da estadia da artista. Outros fãs ficaram como responsáveis em outras cidades e tudo ocorreu mais ou menos da mesma forma no Rio de Janeiro e em São Paulo.


Os fãs trazem o show e depois ainda gravam ele na íntegra: esse foi o caso da Vivian Uru, que dias depois do show publicou no YouTube o full set da Lucy Live in SP. 

O que se pode aprender com isso?

A fragmentação das cenas e o avanço das tecnologias têm possibilitado que os contatos se estreitem e mais movimentações aconteçam. Algumas delas acontecem de forma totalmente indireta, através da criação de mobilizações por meio das redes sociais. Outras, envolvem também mão na massa e muita articulação. De um ou de outro modo, há uma coisa que precisa existir: um ponto de conexão que faça com que pessoas com o mesmo interesse se unam. Com a internet aí conectando geral, dá pra dizer que nunca tivemos tanto poder em nossas mãos. Agora é só fazermos os shows acontecerem.

Essa matéria só foi possível graças à ajuda de milhares de fãs que se mobilizaram para trazer as suas bandas e artistas preferidos para as suas cidades, além, claro, de alguns nomes que participaram dos shows, das entrevistas desta postagem e também da organização desses eventos. Obrigado, Thiago Piccoli (Titi), Balaclava Records e Brain Productions por viabilizarem o show do Mac Demarco em POA. João e Angela, que me ajudam na página do Mac. Felipe Soares da Transtorninho, Fred Zgur da Bichano, Nanda Loureiro da Banana Records, Hannah Carvalho da Bands on Frame, Letícia Tomás (que acabou ficando de fora das entrevistas por conta de tempo) e Gorduratrans, além da Paula da página Lucy Rose Brasil, que topou participar da entrevista e contar pra gente como essa turnê aconteceu. Agradecemos também a todas as outras pessoas que de alguma forma ajudaram esses shows a acontecerem e que, por conta da minha falta de memória ou proximidade, não são citadas aqui.


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